
A solidão afeta a memória de idosos, mas não acelera o declínio cognitivo ao longo do tempo. É o que sugere o resultado de um novo estudo que acompanhou mais de 10 mil pessoas durante sete anos. Os participantes que relataram altos níveis de solidão apresentaram pior desempenho em testes de memória no início da pesquisa. No entanto, a capacidade de recordar informações das pessoas solitárias diminuiu a uma taxa semelhante à de quem não se sentia sozinho durante o período monitorado. O trabalho foi publicado na revista revista científica Aging & Mental Health.
Os cientistas da Universidade del Rosario, na Colômbia, da Clínica Universitária de Navarra e da Universidade de Valência, na Espanha, e do Instituto Karolinska, na Suécia, avaliaram dados do Share, um estudo iniciado em 2002 que examinou a saúde e o envelhecimento de europeus com 50 anos ou mais, entre 2012 e 2019. No trabalho, a memória foi avaliada como a capacidade de recordar informações imediatamente e após um certo intervalo de tempo. Os testes incluíram a tarefa de lembrar o máximo de palavras possível em um minuto. A solidão foi definida como “sentir-se sozinho” e categorizada em baixa, média ou alta.
“A descoberta de que a solidão impactou significativamente a memória, mas não a velocidade do declínio da memória ao longo do tempo, foi um resultado surpreendente”, afirma o autor principal, Luis Carlos Venegas-Sanabria, pesquisador da Universidade del Rosario. “Isso sugere que a solidão pode desempenhar um papel mais proeminente no estado inicial da memória do que em seu declínio progressivo.”
Para 92%, níveis de solidão no início da pesquisa foram sinalizados como médios ou baixos. O grupo que mais se sentia solitário era o de pessoas mais velhas, sobretudo mulheres. Além disso, apresentavam maior prevalência de depressão, hipertensão e diabetes. Aqueles que se diziam mais sozinhos apresentaram pontuações menores na capacidade de recordação no início do estudo em comparação com quem era menos solitário. No entanto, o declínio cognitivo observado ao longo do estudo foi semelhante em todos os grupos.
Conforme Carolina Guedes psiquiatra e psicoterapeuta da plataforma de consultas Inki frisa que, na prática clínica, vê com frequência pacientes idosos que chegam com queixas de “falhas de memória” e, quando aprofunda a anamnese, identifica um contexto de isolamento social significativo. “O que esse estudo reforça, e que já observo, é que a solidão parece comprometer o estado basal da memória; ou seja, o paciente já chega à consulta funcionando em um patamar cognitivo inferior. Isso tem implicações diretas: pode levar a diagnósticos equivocados de comprometimento cognitivo leve ou até de demência inicial, quando, na verdade, estamos diante de um cérebro subativado por falta de estímulo social. O engajamento interpessoal é um fator de reserva cognitiva, quando ele falta, a memória sofre. Não é apenas uma questão emocional, mas também neurobiológica.”
Segundo Josiane Duarte neurologista do Hospital Anchieta, em Brasília, para reduzir os efeitos da solidão na saúde cognitiva, é importante focar em medidas simples, regulares e com significado no dia a dia do idoso. “Interações previsíveis, como encontros semanais, ligações frequentes ou participação em atividades em grupo são mais eficazes do que contatos ocasionais. Sempre que possível, essas interações devem envolver algum engajamento ativo, como conversas, jogos, leitura compartilhada ou atividades com propósito, pois estimulam múltiplas funções cognitivas ao mesmo tempo.”
Por Por Isabella Almeida – via Correio Braziliense





