
Há pouco mais de um ano, o Brasil assistiu, estarrecido, às imagens de um homem morto sendo levado por uma sobrinha a uma agência bancária para tentar assinar um empréstimo. O caso foi tratado como espetáculo e sua sobrinha era a grande vilã daquela história.
Mas será que essa narrativa dá conta de toda realidade?
A violência contra a pessoa idosa raramente cabe nessa simplificação. Ela é multifatorial, silenciosa e, muitas vezes, construída ao longo de anos. Quando pensamos nela, quase sempre imaginamos agressões físicas. No entanto, essa é apenas uma das suas formas. A negligência, o abandono, a violência psicológica e a violência financeira ou patrimonial são muito mais frequentes e, justamente por serem menos visíveis, costumam passar despercebidas.
No caso do tio Paulo, independentemente da responsabilização criminal que cabe à Justiça, havia indícios claros de, ao menos, negligência e violência financeira. Mas limitar a discussão à punição de uma única pessoa talvez nos impeça de enxergar algo muito maior.
Os números mostram que essa história está longe de ser um caso isolado. A atualização do Mapa da Violência contra a Pessoa Idosa no Brasil, coordenada pela professora Alessandra Funchal Camacho, da Universidade Federal Fluminense, registrou mais de 180 mil denúncias de violência em 2025. Em 55% dos casos, os autores eram filhos ou filhas das vítimas. Pela primeira vez na série histórica, as mulheres apareceram em número ligeiramente superior aos homens entre os agressores. Quase dois terços das vítimas são do sexo feminino, e a faixa etária mais atingida é a de idosos com 80 anos ou mais.
Esses números não servem para demonizar filhos e filhas. Na verdade, eles revelam que a violência ocorre no espaço do cuidado. Afinal, são os familiares, e principalmente as mulheres, que assumem, na maior parte das vezes, a responsabilidade de cuidar de pessoas idosas dependentes. São elas que, frequentemente, conciliam trabalho formal remunerado, tarefas domésticas, maternidade e o cuidado de pais, mães, avós ou companheiros. É uma jornada que, muitas vezes, ultrapassa qualquer limite razoável.
Sabemos que alguns fatores aumentam o risco de violência contra pessoas idosas: demências, dependência para atividades do dia a dia, depressão, isolamento social, baixa renda e sobrecarga dos cuidadores. Nenhum desses fatores justifica a violência, obviamente, mas ignorá-los significa renunciar à prevenção.
E talvez seja justamente aí que esteja nossa maior falha.
Será que, como sociedade, oferecemos suporte suficiente às famílias que cuidam de pessoas idosas dependentes? Temos centros-dia em quantidade adequada? Contamos com serviços de atenção domiciliar capazes de atender à crescente demanda ou instituições de longa permanência acessíveis e de qualidade? Há políticas públicas que compreendam o cuidado como uma responsabilidade coletiva, e não exclusivamente familiar?
Nesse contexto, é muito importante falar sobre a saúde mental dos cuidadores, o apoio às famílias e as políticas públicas de cuidado. Afinal, quando o cuidador adoece, o cuidado também adoece.
Isso não significa retirar a responsabilidade individual de quem comete violência. Mas começa por reconhecer que o sofrimento de quem cuida, quando ignorado, também produz consequências. Apoiar cuidadores é uma estratégia de proteção às pessoas idosas.
No fundo, a pergunta que deveríamos fazer não é apenas o que aconteceu com o tio Paulo. E, sim, sobre quantos “tios Paulos” existem, hoje, vivendo situações de negligência, exploração financeira ou abandono sem que ninguém perceba. Quantos permanecem invisíveis dentro de suas próprias casas e quantos só ganharão atenção quando a violência se transformar em manchete?
Prender uma pessoa é uma discussão para os nossos colegas do Direito. Mas, sozinho, o encarceramento não ressuscita Paulo. Tampouco impedirá que outros tenham o mesmo destino.
Se quisermos, de fato, enfrentar a violência contra a pessoa idosa, precisaremos ir além da indignação. Será necessário construir uma cultura do cuidado, fortalecer redes de apoio, investir em políticas públicas e compreender que envelhecer com dignidade não pode ser uma responsabilidade apenas das famílias.






