
O latrocínio que vitimou uma idosa de 79 anos, na zona rural de São João Batista do Glória, no Sul de Minas, reacendeu o debate sobre a vulnerabilidade da população idosa diante de crimes patrimoniais. O caso ocorre poucos dias após o duplo latrocínio que matou o casal de idosos Cláudio Atala Inácio, de 75 anos, e Maria Clotilde Moreira Maciel Atala Inácio, de 76, em Belo Horizonte, reforçando um cenário que, segundo especialistas, vai além da condição financeira das vítimas.
A vítima mais recente foi identificada como Salestiana Silva Coelho, de 79 anos. Segundo a Polícia Civil, ela foi assassinada a facadas durante a madrugada de domingo (12), depois de flagrar um furto na propriedade onde morava com o marido, de 89 anos, que é deficiente auditivo.
Conforme as investigações, os suspeitos são os caseiros do sítio, Tiago Leandro de Oliveira, de 38 anos, e Bruna Oliveira Santos, de 31. A dupla teria invadido a residência para furtar bens da propriedade e decidiu matar a idosa após ser surpreendida. Em seguida, fugiu levando televisores, um ventilador e uma roçadeira motorizada.
Os dois suspeitos foram presos em flagrante durante uma operação entre São João Batista do Glória e Passos. A perícia encontrou diversos vestígios de sangue na residência, indicando, segundo a Polícia Civil, uma intensa dinâmica de violência.
Para a advogada Núbia Leite, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa da OAB/MG Subseção Contagem, os casos recentes evidenciam uma realidade preocupante.
“O idoso acaba sendo visto como o alvo ideal por quem quer cometer um crime. O agressor busca, antes de tudo, a menor resistência possível. Com o avanço da idade, há um declínio natural da força física e da velocidade de reação, fatores que os criminosos interpretam como facilidade de execução. A vulnerabilidade não decorre apenas da fragilidade biológica, mas da percepção de facilidade e impunidade que o agressor projeta sobre a vítima”, afirma.
Segundo a especialista, existe um equívoco em acreditar que apenas idosos com alto poder aquisitivo se tornam vítimas desse tipo de crime.
“Tem um mito muito grande de que o bandido só vai atrás de quem tem muito dinheiro, mas não é bem assim. O que atrai o criminoso é a facilidade do acesso. O patrimônio cria a oportunidade do roubo, mas o que determina a escolha do alvo é o isolamento. Uma pessoa idosa de hábitos simples e que mora sozinha pode correr riscos iguais ou até maiores do que um idoso de classe alta”, explica.
Outro fator recorrente, segundo Núbia, é que muitos crimes são praticados por pessoas que já conheciam a rotina das vítimas.
“Esse é um dos pontos mais tristes. O idoso acaba abrindo a porta de casa para vizinhos, cuidadores, prestadores de serviço e até parentes. A casa, que deveria ser o lugar mais seguro, vira o cenário do crime porque essa pessoa passa a conhecer a rotina, sabe onde os bens estão e quais são as fragilidades da segurança. Muitas vezes, o latrocínio acontece quando o idoso surpreende o criminoso ou quando ele decide matar para não ser reconhecido.”
Como reduzir os riscos
Para a advogada, preservar a autonomia da pessoa idosa não significa abrir mão da segurança. Ela defende que as famílias fortaleçam a rede de apoio e adotem medidas preventivas, como verificar antecedentes de funcionários e prestadores de serviço, instalar câmeras de monitoramento com acesso remoto, utilizar dispositivos de emergência, reduzir a circulação de dinheiro em espécie dentro de casa e manter uma rede de vizinhos atentos a alterações na rotina.
Ela também avalia que o poder público precisa ampliar as políticas voltadas à proteção dessa população.
“Segurança do idoso não é só viatura passando na rua. Precisamos de policiamento preventivo, patrulhas especializadas, fortalecimento das delegacias de proteção ao idoso e campanhas para orientar essa população sobre golpes e abusos. Muitas violências começam de forma patrimonial e acabam evoluindo para agressões físicas.”
Relembre o caso de Belo Horizonte
No fim de junho, o casal de idosos Cláudio Atala Inácio, de 75 anos, e Maria Clotilde Moreira Maciel Atala Inácio, de 76, foi encontrado morto dentro do apartamento onde morava, no bairro São Pedro, na região Centro-Sul de Belo Horizonte. A principal suspeita é a diarista Paola Stephany Neto Cirino, de 30 anos, presa dias depois em um hotel em Itabira, na Região Central de Minas.
Segundo as investigações, a suspeita teria permanecido cerca de oito horas no imóvel das vítimas. Imagens de câmeras de segurança registraram a entrada e a saída dela do prédio, carregando pertences do casal. A Polícia Civil também encontrou uma faca com vestígios de sangue no apartamento.
Para Núbia Leite, diante do envelhecimento da população brasileira, a tendência é que crimes contra idosos se tornem ainda mais frequentes se não houver mudanças estruturais.
“O crime é oportunista e sempre vai migrar para onde há mais pessoas vulneráveis. Precisamos resgatar o senso de comunidade. O vizinho precisa estranhar quando o idoso desaparece da rotina, o comerciante precisa perceber mudanças. Proteger quem chegou à velhice é garantir que o nosso próprio futuro também seja mais seguro.”
Fonte: R7





