É possível o casamento de cobras com escorpiões? No linguajar matuto, não seria nenhuma surpresa. Afinal, quando duas ou mais criaturas venenosas descobrem que podem se beneficiar mutuamente, por que não organizar uma festa, trocar juras de fidelidade e convidar meio reino animal para testemunhar a união?
O problema não está no casamento. Está nas intenções dos noivos, na natureza de cada um e, sobretudo, nos convidados que, mesmo conhecendo a fama dos anfitriões, comparecem sorridentes, aplaudem a cerimônia e ainda oferecem o próprio pescoço como prova de confiança.
Na política, nos negócios e nas relações humanas, há uniões que parecem improváveis, mas se tornam perfeitamente compreensíveis quando o interesse pessoal entra pela porta da frente e a vergonha sai pelos fundos.
E que festa foi essa! Compareceram lagartos, aranhas, camaleões, todos combinando a gravata com a ocasião, porque camaleão é craque em combinar. Na mesa dos convidados, sentados lado a lado, os incautos: as borboletas, os coelhos. Presa e predador de mãos dadas, chamando-se de “melhores amigos”. Ao fundo, a orquestra tocava o velho refrão: “daqui pra frente, tudo vai ser diferente”. Já ouvimos essa música. Ela toca em todo casamento e em toda eleição, e o final é sempre o mesmo.
Lembremos a fábula do sapo e do escorpião. O escorpião pede uma carona para atravessar o rio, jura que não vai picar, afinal, se picasse, morreriam os dois. O sapo, sensato e ingênuo na medida certa, aceita. No meio da travessia, a ferroada. Ao sapo, que afundava sem entender, o escorpião explica com a maior naturalidade: “Eu não pude evitar, é a minha natureza.” A moral não é sobre o escorpião, que nunca prometeu mudar de verdade. É sobre o sapo, que acreditou.
Enquanto isso, nosso teatro da coerência vai de vento em popa. Há quem grite palavras de ordem, balance bandeiras e derrame lágrimas por regimes que tratam como crime a própria condição de quem grita. Há quem se declare cristão e aplauda, com o coração na mão, quem faz vista grossa para o crime organizado e relativiza a vida que ainda não nasceu. Há quem tenha um político de estimação, como se fosse cachorro de colo, e o defenda com mais fervor do que defenderia a própria família. Perdeu-se a noção, e o pior é que perdeu-se aplaudindo.
Já se disse que o demônio apenas soltou o burro, que arrebentou a cerca e foi pastar no terreno do vizinho. Confusão total: ninguém mais sabe de quem é a cerca, de quem é o pasto, de quem é o burro. E no meio do rearranjo, os grandes acordos se fazem sem pudor e sem critério. Quem ontem era “ameaça à democracia” hoje é “parceiro estratégico”. Quem ontem era “corrupto” hoje é “aliado indispensável”. O único princípio que resiste a tudo é o mais antigo: estar no poder, junto do poder, perto do poder. Seletividade? Critério? Vergonha? Isso é coisa de gente que não sabe negociar.
Pergunta-se: pode piorar? Pode. Sempre pode, e sempre, e sempre. Mas também pode melhorar, e é aí que mora o nosso problema. O medo não deixa. O desconhecido assusta mais do que o conhecido, e por isso preferimos o mesmo carrasco de sempre ao risco de um caminho novo. Trocamos a esperança pela rotina do sofrimento e ainda chamamos isso de prudência.
Só que existe uma diferença entre prudência e covardia, e ela mora justamente na hora em que escolhemos. Enquanto seguirmos votando com o fígado, torcendo como quem torce por time e defendendo sem ler, o casamento vai continuar e a conta vai continuar chegando. Ela chega no preço do feijão, na fila do hospital, na escola sem professor, na rua sem segurança. E quem paga, como sempre, é o convidado “ingênuo”.
Por isso, deixo aqui um desafio, e ele não é para o político. É para você, leitor.
Comece pelo mais difícil: tenha vergonha na cara. Não aquela vergonha que faz baixar a cabeça, mas a que faz erguê-la. Deixe de defender o indefensável só porque ele veste a sua cor. Separe o joio do trigo, ainda que doa descobrir que o joio estava plantado no seu próprio quintal. Pesquise, questione, desconfie de promessas bonitas e de discursos que só existem em ano de eleição.
Depois, tenha coragem. Coragem de encarar a mudança de frente e romper com o passado. Coragem de parar de servir de capacho para cobras e escorpiões que só te procuram para sugar seu apoio na eleição. Está na hora de mudar, de arriscar no novo e de parar de votar nas mesmas velhas raposas. Assuma o risco do desconhecido, porque o conhecido já provou que só produz ruína. Tenha brio, tenha respeito próprio: diga um “não” forte e definitivo a esse sistema corrupto. Ninguém muda o país sozinho, mas nenhum país se liberta sem que cada um, um a um, recuse a servidão e decida agir.
Porque a verdade é simples e incômoda: enquanto a cobra e o escorpião festejam, a vítima é você. E só você pode se recusar a atravessar o rio nas costas de quem já mostrou a natureza.
ACORDA BRASIL!






