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O Brasil está envelhecendo. Como se preparar para desafios da longevidade?

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Viver mais é uma das maiores conquistas do nosso tempo. Mas a longevidade traz uma pergunta para a qual o Brasil precisa encontrar respostas rapidamente: estamos preparados para responder às necessidades de uma população que envelhece e, com isso, conviverá cada vez mais com doenças complexas?

O desafio já está diante de nós. Segundo a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), cerca de 60% dos casos e 70% das mortes por câncer ocorrem entre pessoas idosas. Ao mesmo tempo, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima aproximadamente 781 mil novos casos por ano entre 2026 e 2028.

A boa notícia é que a ciência tem acompanhado a transformação demográfica do país. Nunca tivemos tantas possibilidades de transformar a trajetória dos pacientes, prolongar a sobrevida e oferecer mais tempo com qualidade de vida e autonomia. Não é exagero dizer que a oncologia vive uma revolução impulsionada por diagnósticos mais precisos, novas terapias e abordagens cada vez mais personalizadas.

É o caso do câncer de pulmão. Em 2020, os órgãos americanos Instituto Nacional do Câncer (National Cancer Intitute) e o Instituto Nacional de Saúde (National Institutes of Health) publicaram análises mostrando que a mortalidade por um tipo específico de câncer de pulmão passou a cair mais rapidamente do que a incidência da doença. Os pesquisadores concluíram que os avanços terapêuticos contribuíram de forma relevante para a redução das mortes.

O câncer de pulmão é a principal causa de morte por câncer no Brasil. Só em 2023, mais de 31 mil pessoas morreram em decorrência da doença e, a cada ano, mais de 35 mil recebem esse diagnóstico. Apenas uma parcela reduzida descobre a doença em estágios iniciais, e a maioria dos pacientes tem 65 anos ou mais.

É nesse cenário que o próximo desafio da oncologia brasileira se revela: garantir que os avanços cheguem aos pacientes de forma equitativa e sustentável. Afinal, não basta existir um tratamento capaz de mudar o curso de uma doença se o diagnóstico chega tarde. Não basta conhecer a alteração molecular de um tumor se o paciente não tem acesso ao exame capaz de identificá-la. E não basta uma terapia estar disponível se a dificuldade de acesso ao tratamento compromete a oportunidade de utilizá-la. Afinal de contas, envelhecer é um privilégio, mas envelhecer com dignidade é um direito.

O câncer não representa apenas um desafio assistencial. Trata-se também de um desafio econômico e social, já que famílias, mercado de trabalho e a sustentabilidade dos sistemas público e privado serão afetados pela maneira como responderemos ao crescimento dessas condições.

O aumento da longevidade é uma conquista que deve ser celebrada, mas que exige uma adaptação no sistema de saúde que demanda a nossa capacidade coletiva de enfrentar desigualdades, fortalecer a prevenção ao longo de toda a vida, ampliar o diagnóstico precoce, integrar o cuidado e modernizar a infraestrutura de saúde.

A ciência continuará ultrapassando as fronteiras do cuidado. Mas, no Brasil, a verdadeira fronteira que precisamos vencer é a distância entre aquilo que a medicina já é capaz de fazer e aquilo que o paciente efetivamente recebe.

Nosso país possui ativos extraordinários para liderar essa agenda. Contamos com um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, centros de excelência reconhecidos internacionalmente, uma comunidade científica robusta e crescente participação em pesquisas clínicas globais. Temos conhecimento, talento e capacidade de inovação, mas precisamos garantir que os avanços da ciência se traduzam, cada vez mais, em benefícios concretos para os pacientes.

Conquistamos algo extraordinário: estamos vivendo mais. Agora, precisamos garantir que a inovação permita que as pessoas também vivam melhor. Porque, ao final de tudo, o avanço não deve ser medido apenas pelas descobertas que produzimos, mas pelas vidas que conseguimos transformar.

Ricardo Castellan

Por Ricardo Castellan

Fonte: CNN Brasil