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‘Há um negacionismo do envelhecimento’, diz autor de livro sobre avanço da idade no Brasil

Envelhecimento — Foto: Magnific

A passagem do tempo, diz o jornalista e doutor em Ciências Sociais Jorge Félix, ainda é tabu para muita gente. É o que ele detalha em seu novo livro “A (difícil) decisão de envelhecer” (Editora Unicamp), que terá lançamento hoje na Livraria da Travessa, em Ipanema.

Não se trata, porém, de um assunto que dê para esconder embaixo do tapete, ele defende. Na coletânea de textos da publicação, Félix discorre sobre alguns desafios urgentes deflagrados pelo envelhecimento da população, que vão desde a necessidade de abrir mais leitos de UTI no Sistema Único de Saúde (SUS) para o público com idade avançada — e que tem grande ocorrências de doenças crônicas — até a necessidade de que mais gerontólogos, os profissionais que conhecem o impacto da passagem do tempo e sabem bem como promover mais qualidade de vida, façam parte da força de trabalho brasileira. E há, ainda, a necessidade de aceitar que o tempo está passando. Um assunto, ele diz, fundamental para caminhar em direção ao envelhecimento digno.

— Há o negacionismo do envelhecimento —define. — Só quando conseguimos aceitar que vamos envelhecer é que podemos fazer escolhas que nos permitam ter chance de envelhecer melhor. Mas há uma diversidade de envelhecimentos. nem todos vão viver a passagem do tempo da mesma maneira.

Félix indica que hoje há certa ilusão em relação à chegada aos últimas décadas de vida, o que acaba escondendo públicos que precisam de apoio e suporte.

— Hoje temos uma ênfase na velhice considerada “maravilhosa”. Da pessoa mais velha que pula de paraquedas, capaz de nadar diversos quilômetros. Devido a esse mercado, a esse marketing, cria-se um estresse da longevidade. As pessoas começam a achar que é preciso viver até 100 anos de qualquer maneira. O contrário seria um fracasso. E não é nada disso — afirma o autor, que é pesquisador do Núcleo de Estudos de Gênero — Pagu, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e diretor do documentário “Alzheimer na periferia” (2018) — Essa discussão toma o espaço do debate público, que deixa de ocupar-se com um envelhecimento digno. E passam a ganhar espaço essas ideias de que é preciso envelhecer sem barriga ou sem rugas. Em alguns casos acabamos desprezando a velhice dependente em políticas públicas.

Expectativa maior

A discussão sobre longevidade encontra um Brasil que terá cada vez mais sua população envelhecida. É o que projeta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tendo em vista o censo populacional. Os levantamentos indicam que a presença das pessoas de 60 anos ou mais deve passar dos 15,6% em 2023 para 37,8% em 2070, último ano da projeção do instituto.

Esse aumento expressivo deve pressionar, inclusive, o SUS, concebido para oferecer outro nível de cuidado, opina o pesquisador.

— Para a saúde, nosso grande desafio será adaptar o SUS para a transição epidemiológica que estamos vivendo. O desenvolvimento do SUS teve intuito curativo (para males agudos, pontuais), agora precisamos de uma linha de cuidado que olhe para doenças crônicas não-transmissíveis, como diabetes, obesidade e Alzheimer, ligadas também ao envelhecimento — afirma. — Serão duas pontas para atender, porque teremos que resolver as doenças da infância, como o sarampo, que temos até uma alta de casos agora, com a adição de outras questões de saúde ligadas ao envelhecimento.

O pesquisador indica ainda que esse tipo de detalhamento não está presente em nenhum projeto de governo dos principais candidatos à Presidência da República nas eleições 2026. O assunto é tratado de maneira superficial, diz, após ter observado os planos de governo dos principais postulantes.

— Os candidatos têm sido generalistas. Nesse caso o debate precisa ser detalhista — avalia. — Quando se fala de envelhecimento (na eleição) o tema fica muitas vezes confinado apenas à previdência, como se os problemas do envelhecimento fossem restritos à isso, mas não são. Em geral, o envelhecimento fica fora do debate eleitoral, em todos os níveis. Na disputa entre governadores também, e para prefeitos, quando ocorre essa eleição.

Mais gerontólogos

O avanço da idade da população — a estimativa é que um a cada dez habitantes do país tenha 80 anos ou mais até 2070, um volume cinco vezes maior do que em 2024, segundo o mesmo censo do IBGE — abre a necessidade de que mais profissionais estejam preparados para a gestão e cuidado nessa fase a vida, ele avalia.

A título de comparação, de acordo com a publicação Demografia Médica Brasileira 2025, ligado à Faculdade de Medicina da USP, são 3.167 médicos geriatras no Brasil. Já os pediatras são 47 mil, ou então médicos do trabalho 17 mil. Jorge pondera, porém, que outras profissões, para além do cuidado médico, também precisarão de especializações e adaptações para atender corretamente uma população mais velha.

— Diversas profissões serão mais demandadas de temas da gerontologia. Tenho alunos advogados que se especializaram, fazem mestrado ou doutorado, em gerontologia. Porque a demanda de causas relacionadas ao envelhecimento cresceu imensamente — comenta. — Há maior aparecimento de temas relacionados à herança ou violência contra a pessoa idosa. Na arquitetura, por exemplo, cada vez mais será necessária a adaptação de residências, entre outros exemplos. Por isso, é preciso regulamentar duas profissões no país, tanto dos gerontólogos quanto de cuidadores de idosos.

As adaptações, afirma, não podem esperar o país chegar a uma proporção grande de homens e mulheres acima dos 60 anos para ocorrer. É preciso avançar desde já.

—Estamos em um ponto crítico. Há fatores de risco de doenças degenerativas que surgem desde a pré-escola, por exemplo. Por baixa escolaridade e falta de estímulo necessário. Podemos pensar sobre o envelhecimento ao longo de todo o ciclo de vida — defende.

Fonte: O Globo