
Fui de carona com um velho amigo a um encontro entre velhos amigos em comum. Fora do carro, 28 graus; dentro, a sensação térmica era de 10 graus acima. “O que você acha de desligar o aquecedor e ligar o ar-condicionado?”, sugeri. “Faria isso se soubesse como”, foi a resposta. Meu amigo tem 77 anos e é avesso à tecnologia por não saber, ou não querer, lidar com ela.
Entrega as tarefas digitais à esposa ou ao neto de 10 anos — que, a propósito, foi quem regulou, por traquinagem ou por curiosidade, o sistema de arrefecimento interno para 37 graus. E agora, por pressão da família, trocou seu antigo sedã analógico por um moderno SUV com sua enorme tela de toques sensíveis que ocupa metade do painel e por meio da qual se comanda desde a calibragem da suspensão até o volume do rádio. Um smartphone ambulante, em poucas palavras.
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Ele não está sozinho nesse universo virtual. Poucos idosos conseguem lidar com os avanços da tecnologia, e o pior é que eles não têm muita opção. Abrir uma conta para, por exemplo, receber o benefício previdenciário, é tarefa desgastante para quem usa o celular apenas para fazer e receber chamadas.
No entanto, é preciso ter uma conta no site oficial do governo, baixar o app da Previdência e percorrer um caminho tortuoso para ser considerado apto. Poucos idosos, igualmente, conseguem decifrar os labirintos de uma tela para regular o ar-condicionado.
Recentemente viralizou um cartum em que a atendente com o celular na mão, falando na linguagem dos especialistas em programação, instrui um senhor de cachecol e bengala a abrir uma conta na internet. “Entendeu?” — pergunta ela, no final. Poucos idosos entendem.
Muitos, entretanto, estão tendo acesso ao mundo digital. No último estudo do IBGE, divulgado no começo de julho, os idosos (como são consideradas as pessoas 60+) são minoria no uso da internet, embora a proporção de pessoas nessa faixa de idade com acesso à rede tenha saltado de 44,9% em 2019 para 74,5% em 2025.
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Não por acaso, esta é a faixa mais visada pelos golpistas virtuais: quatro entre dez idosos já caíram na lábia dos larápios, por falta de alfabetização (ou malícia) digital, de acordo com pesquisa do DataSenado.
Idosos representam 16,6% da população brasileira, ou 33 milhões de pessoas, e o país continuará envelhecendo: em dez anos, segundo as projeções demográficas, o Brasil terá 45 milhões de pessoas com mais de 60 anos e ultrapassará o número de crianças e adolescentes. É um fenômeno mundial.
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Idosos, por outro lado, compram carros, embora não sejam a maioria nesse quesito. Dos Baby Boomers, como são tratados os nascidos entre 1946 e 1964, 88% possuem carro e trocam de modelo com frequência. Os grandes compradores de 0 Km, no entanto, estão na faixa de 30 a 44 anos (Geração Y) e na de 45 a 60 anos (Geração X).
A pergunta que fica é: como a indústria automotiva lidará com essa futura multidão de analfabetos digitais? Em março do ano passado, a Volkswagen deu uma pista: abandonou a estratégia de comandos 100% sensíveis ao toque e adotou os velhos botões analógicos. Mas a tecnologia avança rapidamente. E nem sempre é acompanhada por quem apenas quer regular o ar-condicionado do carro.
Fonte: Autoesporte





