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Exercícios com o peso do corpo combatem fragilidade em idosos

O programa de treinamento com peso corporal tem potencial para se tornar uma estratégia de manejo da fragilidade do idoso na atenção primária de saúde – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Exercícios simples realizados com o próprio peso corporal e adaptados às condições de cada pessoa podem contribuir para reduzir a fragilidade de idosos. Um estudo da USP mostrou que um programa de treinamento intervalado aplicado a pacientes em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) de Sorocaba (SP) reverteu o estado de fragilidade, melhorou a força e o desempenho funcional de idosos, além de reduzir parâmetros da pressão arterial.

De acordo com o orientador da pesquisa, o professor de Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP Francisco Luciano Pontes Júnior, a fragilidade é uma condição clínica caracterizada pelo declínio em múltiplos sistemas fisiológicos e pela diminuição na capacidade do organismo resistir a situações de estresse, como infecções. A condição está associada a dificuldades para realizar atividades do cotidiano, a quedas, hospitalização e morte. A prevalência de fragilidade é estimada em 9,1% no Brasil e em 17,4% no mundo. A pré-fragilidade é mais frequente, com prevalência de 51,8% no Brasil e de cerca de 46% mundialmente.

A pesquisa acompanhou 60 participantes, com média de 74 anos, durante um período de seis meses. Eles foram distribuídos aleatoriamente em dois grupos: um realizou sessões de exercícios com o próprio peso corporal, alternando períodos de esforço e recuperação, três vezes por semana; e o outro manteve suas atividades habituais e serviu como parâmetro de comparação.

Ao longo do período, os participantes submetidos ao treinamento apresentaram maior probabilidade de passar para estados de menor fragilidade. “A melhora já pode ser observada nas primeiras 12 semanas e ocorreu de forma progressiva até o final das 24 semanas de treinamento”, relata Lucas Marques Vieira, autor da pesquisa realizada na EACH em parceria com a University of Manitoba, no Canadá. “Consequentemente, também foram observadas melhorias na força dos membros inferiores, na velocidade da caminhada, na mobilidade e no desempenho em teste de levantar e sentar em uma cadeira”, diz.

Como eram os exercícios

As sessões aconteciam três vezes por semana, durante 24 semanas e duravam 30 minutos. O treinamento começava com cinco minutos de aquecimento, seguido de 20 minutos de exercícios intervalados com o peso corporal, alternando 30 segundos de exercício e 30 segundos de pausa, e cinco minutos de alongamento para volta à recuperação. A intensidade dos exercícios foi aumentada gradualmente de moderada para vigorosa ao longo do tempo.

Todos os exercícios foram adaptados e o conjunto incluiu variações de agachamentos e outros exercícios multiarticulares, que envolviam diferentes combinações de movimentos dos membros inferiores e superiores, além da região central ou abdominal do corpo.

Identificando a síndrome de fragilidade

Vieira explica que o estado de fragilidade dos participantes da pesquisa foi avaliado de acordo com o modelo Fenótipo de Fragilidade de Fried, que considera cinco critérios para essa classificação. “A pessoa é considerada frágil quando apresenta três ou mais dos critérios; pré-frágil quando apresenta um ou dois; e robusta (não frágil) quando não apresenta nenhum”, diz.

Os critérios são: Perda de peso não intencional – de 4,5 kg ou mais ou maior que 5% do peso corporal no último ano; Exaustão – sensação de cansaço excessivo ou de que as atividades diárias exigem um esforço muito grande; Força de preensão manual reduzida – baixa força na mão avaliada por um dinamômetro; Baixa velocidade de marcha – lentidão ao caminhar uma distância determinada (neste caso, de 4,6 metros); e Baixo nível de atividade física – estimativa do gasto energético, avaliado por meio de questionário.

“Os resultados foram bastante animadores e o uso do próprio peso como resistência permitiu trabalhar diferentes grupos musculares sem a necessidade de equipamentos sofisticados”, explica o pesquisador. Após 24 semanas, os participantes que eram classificados inicialmente como frágeis apresentaram melhora: 80% passaram para a condição de pré-fragilidade e 20% passaram a ser classificados como robustos. Entre aqueles que iniciaram o estudo na condição de pré-fragilidade, 69,2% passaram para a classificação de robustos após o período de treinamento.

Vieira também observou redução da pressão arterial sistólica, que corresponde ao valor mais alto da medida e da pressão arterial. Por outro lado, não foram identificadas mudanças relevantes no peso corporal, no índice de massa corporal (IMC), no porcentual de gordura ou na massa muscular apendicular dos participantes.

Para o professor Pontes, o programa de treinamento com peso corporal “tem potencial para se tornar uma estratégia de  manejo da fragilidade do idoso na atenção primária de saúde. Os exercícios exigem pouca infraestrutura e não dependem de equipamentos especializados”, diz. O orientador da pesquisa também destaca a importância da atuação do profissional de Educação Física nas UBSs, em conjunto com a equipe de saúde, na prevenção e no cuidado de condições crônicas por meio do exercício físico. Os resultados da pesquisa foram publicados no artigo Effect of bodyseight interva training on frailty status in older adults: a randomized controlled trial, na revista European Geriatric Medicine.

Mais informações: Lucas Marques Vieira, email lucasmv@usp.br e Francisco Luciano Pontes Júnior, email lucianopontes@usp.br

Fonte: Jornal da USP