
Convencer um pai, uma mãe ou outro familiar idoso a começar a se exercitar não significa ficar repetindo que o hábito faz bem à saúde. Excesso de cobrança e insistência podem produzir o efeito contrário e desestimular ainda mais. Para especialistas, o primeiro passo para mudar esse cenário é descobrir o que está por trás da resistência e, a partir daí, encontrar uma atividade que faça sentido para aquela pessoa, respeitando suas preferências, limitações e autonomia.
“Não basta dizer ao idoso que ele precisa se exercitar; é preciso criar condições para que ele queira se exercitar”, afirma Paulo Farinatti, professor titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), coordenador do Laboratório de Atividade Física e Promoção da Saúde e vice-diretor do Núcleo do Envelhecimento Humano da universidade.
Em vez de insistir nos benefícios genéricos para a saúde, ele sugere perguntar o que a pessoa gostaria de continuar fazendo ou voltar a fazer: passear, encontrar amigos, viajar, subir escadas ou acompanhar os netos, por exemplo.
Segundo Eduardo Caldas Costa, professor associado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e coordenador do Grupo de Pesquisa em Exercício Clínico e Envelhecimento (ExCE), dores, doenças, limitações físicas, medo de cair, falta de companhia, custo e dificuldade de transporte estão entre as barreiras mais comuns. “Identificado o problema, fica mais fácil buscar uma saída. Se o obstáculo for transporte, por exemplo, a família pode procurar um local mais próximo ou ajudar no deslocamento. Se houver insegurança ou limitações físicas, pode ser necessário buscar orientação profissional ou até atendimento domiciliar”, diz.
Oferecer companhia também pode ser um bom incentivo. Isso porque caminhar com o filho ou um amigo transforma o exercício em uma oportunidade de convivência, enquanto aulas coletivas podem criar vínculos e ajudar na manutenção da rotina. “As pessoas não fazem exercício apenas pelos benefícios fisiológicos. Elas voltam porque encontram alguém, conversam, criam vínculos e passam a pertencer a um grupo”, diz Farinatti.
Foi o que aconteceu com Sandra Maria Furtado de Macedo, de 77 anos. Antes de começar a treinar, ela fazia tentativas esporádicas de caminhada ou de frequentar a academia, mas nunca conseguia manter a frequência. Tinha dores no joelho e no ombro, medo de cair e dificuldade para subir as escadas do sobrado onde mora. A mudança começou quando sua filha percebeu que o pai estava fisicamente melhor e decidiu incentivar a mãe. Pagou seis meses de academia antecipadamente para os dois, com avaliação física e consulta médica incluídas. “Ela me disse que era um presente. Não tive como recusar”, conta Sandra.

O que começou como um empurrãozinho da filha acabou se transformando em uma rotina que Sandra mantém há três anos. Ela treina duas vezes por semana e atribui ao exercício parte importante da recuperação da mobilidade e da confiança. Hoje, sobe e desce as escadas de casa sem precisar se apoiar no corrimão. Também criou laços com os colegas de treino. “Ir para a academia é como fazer uma terapia em grupo. Minha turma tem cerca de dez pessoas, conversamos, rimos, comemoramos aniversários e compartilhamos momentos.”
O ambiente faz toda a diferença
Mas não basta colocar o idoso para dentro de uma academia e esperar que ele vá desenvolver o gosto pela atividade física. O ambiente e a maneira como o treino é conduzido também podem determinar se ele vai querer voltar. “Academias com música muito alta, excesso de espelhos e predominância de pessoas jovens podem ser pouco acolhedoras para quem está começando. E a pessoa idosa valoriza demais o ambiente acolhedor”, afirma o geriatra Wilson Jacob Filho, professor da Faculdade de Medicina da USP.
Por isso, espaços com atendimento individualizado ou voltados ao público mais velho, além de centros esportivos, clubes e grupos de caminhadas são boas opções.
Para o profissional de educação física Marcos Brandão, que acompanha os treinos da aposentada Arminda Medeiros, de 98 anos, na Inner Choice Fitness Club, esse cuidado também passa pela relação construída durante a aula. Segundo ele, trabalhar com pessoas idosas exige atenção especial e, para evitar que o treino fique monótono, ele costuma fazer “pegadinhas” com os alunos: pergunta que dia da semana é, o que comeram ou o que fizeram no dia anterior. Além de manter a interação, essas conversas ajudam a perceber como cada aluno está evoluindo. No caso de Arminda, ele destaca a dedicação, a assiduidade e a disposição cada vez maior.

Arminda começou a fazer musculação há sete meses incentivada pelo médico, depois de um período de maior inatividade durante a pandemia e de uma internação prolongada. Ela conta que, apesar de ser uma pessoa muito ativa, sentia que suas pernas estavam mais fracas, por isso estava mais difícil caminhar e ela tinha medo de cair. Em poucos meses de treino, já começa a perceber os resultados. “Depois que comecei a fazer musculação, melhorei bastante, sinto que fortaleci as pernas. Antes, não conseguia ir andando de casa até a academia. Agora, faço o percurso a pé”, conta.
É justamente esse tipo de resultado que o geriatra Jacob Filho recomenda mostrar ao idoso para estimulá-lo a continuar a se movimentar. Ele ressalta que, em vez de apenas falar que exercício físico ajuda a pessoa a viver mais, a família pode chamar atenção para pequenas conquistas que alcançadas e nem sempre valorizadas: levantar-se da cadeira com mais facilidade, conseguir subir um degrau sem usar o corrimão, caminhar com mais segurança ou voltar a fazer algo que havia deixado de lado. Para ele, perceber esse tipo de ganho pode ser um estímulo importante para continuar.
Os professores também ressaltam que, para uma pessoa muito sedentária, não é preciso estabelecer metas muito ambiciosas logo de partida. “A palavra-chave é progressão. Começar com períodos curtos de treino e aumentar gradualmente a duração, a frequência e a intensidade tende a ser mais viável do que estabelecer metas difíceis de cumprir”, recomenda Farinatti.
Além da musculação, exercícios de equilíbrio e mobilidade também merecem espaço, já que ajudam a preservar capacidades necessárias no cotidiano.
Fonte: Estadão





