Pular para o conteúdo

Saiba como a saúde mental afeta a longevidade

Imagem gerada por IA

Quantas vezes você já ouviu a frase: “é a idade”, quando a memória falhou, o sono ficou mais leve ou a irritação com  pequenos obstáculos do dia a dia se tornou mais comum? Por anos, o envelhecimento natural foi usado como justificativa para mudanças no bem-estar emocional e cognitivo dos idosos. 

Hoje, a ciência mostra que a saúde mental pode influenciar a maneira como envelhecemos. Estresse crônico, qualidade do sono, vínculos sociais e senso de propósito impactam diretamente a cognição, o risco de doenças crônicas, a autonomia e até a  expectativa de vida. 

O estresse acelera o envelhecimento por múltiplos mecanismos, como explica o médico psiquiatra cooperado da Unimed Porto Alegre Paulo Belmonte de Abreu. Não se  trata apenas do sofrimento psicológico diante de situações difíceis: ao reconhecer uma ameaça, o corpo entra em modo de resposta — o clássico “luta ou fuga”.

Esse estado ativa o sistema  inflamatório, comandado pelos glóbulos brancos, e dispara a produção de adrenalina e noradrenalina, hormônios que aumentam a frequência cardíaca e a força com que o coração bombeia sangue. O processo começa no cérebro, que, ao identificar uma situação de ameaça, envia sinais às glândulas suprarrenais para aumentar  a produção de adrenalina. A resposta do organismo ao estresse também chega ao nível celular, influenciando a atividade do DNA, que passa a trabalhar de forma mais intensa para  lidar com a sobrecarga. 

— O estresse reduz a longevidade. E esse efeito não é apenas psicológico: ocorre também no DNA, nas células e na capacidade de resposta do organismo. Quando esses mecanismos permanecem ativados por muito tempo, provocam desgaste e aceleram o envelhecimento — diz. 

Segundo Belmonte, os estudos sobre envelhecimento e longevidade utilizam diferentes indicadores para avaliar os efeitos do desgaste acumulado pelo organismo ao longo do tempo. Um dos principais é a carga alostática, conceito que ajuda a medir o impacto físico causado pela exposição frequente ou prolongada ao estresse. Uma carga elevada está associada a diferentes respostas do organismo, como processos inflamatórios, alterações no sistema nervoso autônomo, mudanças na frequência cardíaca e ativação de diversas regiões do cérebro. 

— Quando a pessoa tem uma carga alostática elevada, aumentam as chances de doenças cardíacas, depressão, ansiedade e prejuízo cognitivo, porque esse processo acelera a morte de células no cérebro. Já quem  consegue reverter esse fenômeno pode também viver mais tempo — explica o especialista.

Quando ficar atento 

Alguns sinais e comportamentos podem indicar que a saúde mental não vai bem. Sedentarismo, ganho de peso e consumo excessivo de álcool e cigarro estão entre eles. A pulsação  acelerada também pode servir de alerta, revelando que o organismo está sob efeito de níveis elevados de adrenalina e respondendo de forma exagerada aos estímulos. 

— Alterações na pressão, sono e alimentação inadequados e falta de atividade física formam, juntos, um quadro que prejudica a saúde do cérebro e acelera o envelhecimento.  Pessoas que enfrentaram traumas na infância, adversidades ou eventos muito estressantes podem sofrer um impacto maior. É o caso de quem vive  em contextos de silenciamento, sem rede de apoio e sem espaço para desabafar — completa Belmonte.

Nesses casos, os efeitos do desgaste também podem ser observados nos telômeros, estruturas localizadas nas extremidades dos cromossomos e que tendem a encurtar ao longo do envelhecimento. Segundo Belmonte, fatores como falta de sono e de cuidados adequados podem contribuir para acelerar esse processo. Por outro lado, o convívio social e a existência de uma rede de apoio funcionam como fatores de proteção para a saúde  mental: 

— Estar com outras pessoas e sentir o apoio da família e dos amigos são fatores de proteção. Quanto mais experiências e ambientes livres de estresse a pessoa tiver, maior será esse  efeito protetor, ajudando a reduzir processos inflamatórios e os impactos sobre a imunidade.

Mantendo o equilíbrio

Além de uma alimentação equilibrada e da prática regular de exercícios,  manter uma boa higiene do sono é fundamental para a saúde mental e,  consequentemente, para um envelhecimento mais saudável. Durante o descanso, o organismo realiza processos importantes de  recuperação e eliminação de resíduos acumulados ao longo do dia. Quando  esse mecanismo é prejudicado de forma recorrente, os efeitos se acumulam ao longo do tempo, comprometendo o bem-estar e podendo impactar a expectativa de vida. 

— O sono também ajuda a regular, por exemplo, a pressão arterial. Quando  ela permanece alterada, é como uma mangueira constantemente sob pressão: em algum momento, pode haver consequências. Esse quadro provoca alterações no metabolismo e  acelera o envelhecimento das veias, das artérias e de órgãos como pulmão,  coração e fígado. Todo o organismo envelhece mais rapidamente quando os  efeitos do estresse não são  compensados. E uma das principais formas de recuperação é o sono — completa o psiquiatra.

Dicas de prevenção

Cuide do sono

Mantenha uma rotina: procure dormir e acordar em horários regulares e prepare um ambiente escuro, silencioso e confortável para o descanso. 

Regule o relógio biológico: exponha-se à luz natural pela manhã e reduza a luminosidade e o uso de telas próximo ao horário de dormir. 

Desacelere antes de deitar: crie uma rotina para reduzir os estímulos no fim do dia. Técnicas de respiração, relaxamento ou escrita podem ajudar a organizar as preocupações e preparar o corpo para o sono.

Invista na alimentação

Priorize alimentos in natura: dê preferência a vegetais, legumes, frutas, grãos e outros alimentos frescos ou minimamente processados. 

Reduza os ultraprocessados: limite  produtos com excesso de açúcares,  sódio e gorduras, priorizando uma alimentação mais natural e equilibrada. 

Atenção aos estimulantes: evite o excesso de café e outras bebidas com cafeína, principalmente próximo ao horário de dormir, pois podem prejudicar a qualidade do sono.

Mantenha o corpo ativo

Movimente-se regularmente: a prática de atividade física contribui para reduzir o estresse e favorece tanto a saúde mental quanto a qualidade do sono. 

Evite longos períodos parado:  incorporar pequenas oportunidades de movimento à rotina também ajuda a combater o sedentarismo.

Cultive vínculos

Fortaleça a rede de apoio: mantenha contato com familiares, amigos e outras pessoas importantes. O convívio social pode funcionar como fator de proteção diante do estresse. 

Reserve espaço para o bem-estar: atividades prazerosas, momentos de lazer e ambientes que favoreçam o relaxamento ajudam a reduzir a sobrecarga do dia a dia.

Como sair do modo de alerta

Quando o estresse se prolonga, o organismo pode permanecer em estado constante de alerta. Algumas atitudes ao longo do dia ajudam a criar momentos de recuperação e a reduzir a sobrecarga.

Faça pausas: intercale períodos de concentração com pequenos  intervalos para se movimentar,  respirar e mudar o foco. 

Crie momentos de desaceleração: reserve espaço na rotina para atividades prazerosas, como leitura, hobbies ou contato com a natureza, sem transformá-las em mais uma obrigação. 

Reconheça os gatilhos: observe quais situações mantêm o corpo em estado constante de alerta e busque estabelecer limites na rotina sempre que possível. 

Preserve momentos de descanso: períodos sem demandas de trabalho ou outras obrigações ajudam o organismo a se recuperar da sobrecarga acumulada. 

Busque conexão: conversar, rir e compartilhar experiências e preocupações com pessoas de  confiança fortalece os vínculos e pode ajudar a lidar com situações estressantes.

Fonte: GZH