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Lobista amiga de Lulinha fez depósitos a secretário e a chefe do cerimonial de ministro de Lula

Amiga de Lulinha, a empresária Roberta Luchsinger entrega livro autografado por Paulo Coelho ao ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias. Foto: Ministério do Desenvolvimento Social/Divulgação

A lobista Roberta Luchsinger, investigada por corrupção e tráfico de influência em conjunto com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, ordenou a um operador financeiro a realização de pagamentos ao secretário-executivo adjunto do Ministério de Desenvolvimento Social (MDS), Ranniêr Costa Ciríaco, e a José Martinho Ferreira de Araújo, coordenador do cerimonial do ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias.

Procurado, o ministério não se manifestou. A defesa de Lulinha afirmou que ele não tem relação com os fatos investigados. “Não é possível confirmar a autenticidade das mensagens e não nos cabe comentar sobre depósitos que não foram feitos pelo Fábio”, afirmou o advogado Marco Aurélio de Carvalho.

A defesa de Roberta Luchsinger disse desconhecer as informações. “A defesa desconhece tais conversas, insiste que os autos estão sob sigilo e lamenta esses vazamentos ilegais com puro interesse político eleitoreiro. Estamos seguros de que as autoridades não ficarão passivas diante de tais vazamentos”, disse o advogado Roberto Podval.

Até agora, as investigações da PF haviam revelado pagamentos de Roberta Luchsinger, no valor de R$ 217 mil, ao ex-chefe de gabinete do presidente Lula Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. Essas novas informações indicam que a lobista também fez pagamentos a outros funcionários do governo Lula.

A Polícia Federal encontrou no celular de Roberta diálogos determinando a Ulisses Barbosa a realização dos pagamentos, acompanhados dos comprovantes de depósitos bancários, ocorridos no dia 2 de junho de 2023.

Roberta orientou Barbosa a retirar R$ 60 mil em dinheiro vivo que ela tinha guardado em sua residência e a fazer depósitos para outras pessoas. O operador se mostrou preocupado com o volume que seria movimentado.

“Esse montante de 60k tem que ser diluído para depositar.. pq o banco faz uma série de questionamentos”, disse a Roberta, que respondeu que o dinheiro seria enviado para três contas bancárias diferentes.

Os pagamentos solicitados por Roberta foram feitos no mesmo dia por Ulisses. Ao chegar no banco, ele avisou à lobista que repasses acima de R$ 50 mil poderiam gerar alertas de movimentação financeira atípica. “Já estou no banco. Acima de 50 mil por dia por CPF a moça disse que o Banco Central já fica de olho… já aciona tipo um alerta lá. Só avisando”, disse.

Uma conta era a de Ranniêr Costa Ciríaco, atual número 3 do MDS. Outra era de José Martinho Ferreira de Araújo, que atualmente está lotado como coordenador do cerimonial do MDS. Martinho tem relação antiga de proximidade com Wellington Dias e já trabalhou como motorista do gabinete dele no Senado. A terceira conta, segundo a PF, pertence à mãe da filha de José Martinho.

O Estadão teve acesso às conversas e aos comprovantes dos pagamentos. A PF ainda analisa a quebra dos sigilos de Roberta Luchsinger e deve apurar se foram feitos mais pagamentos a outros funcionários da pasta.

Em 2014, José Martinho chegou a ser detido pela Polícia Rodoviária Federal na Bahia por transportar R$ 180 mil em dinheiro vivo, de Brasília ao Piauí, sem ter a comprovação da origem. Na época, ele trabalhava para o gabinete de Wellington Dias no Senado.

Em 2015, Martinho ganhou cargo comissionado na Secretaria de Governo do Piauí, quando Wellington Dias era governador. Além de assessor de longa data, o assessor é primo de terceiro grau do petista.

PF encontrou diálogos e comprovantes de pagamento de Roberta Luchsinger a funcionários do MDS
PF encontrou diálogos e comprovantes de pagamento de Roberta Luchsinger a funcionários do MDS Foto: Reprodução
PF encontrou diálogos e comprovantes de pagamento de Roberta Luchsinger a funcionários do MDS
PF encontrou diálogos e comprovantes de pagamento de Roberta Luchsinger a funcionários do MDS Foto: Reprodução
PF encontrou diálogos e comprovantes de pagamentos de Roberta Luchsinger para funcionários do MDS
PF encontrou diálogos e comprovantes de pagamentos de Roberta Luchsinger para funcionários do MDS Foto: Reprodução

Seis meses após esses pagamentos, o MDS firmou contrato com um empresário do setor de tecnologia, Cléber Ribas, que era representado por Roberta Luchsinger.

Em dezembro de 2023, a pasta contratou a empresa 3Structure por R$ 31,2 milhões. Em novembro de 2025, houve um aditivo de R$ 2,7 milhões e, em abril deste ano, o ministério celebrou um novo contrato com a empresa, de R$ 19,2 milhões.

Um dos diálogos obtidos pela PF entre Roberta e Cléber Ribas citava justamente Ranniêr. Na conversa, de 20 de junho de 2023, ela afirmou ao empresário que estava com o secretário-executivo adjunto do MDS. “To resolvendo seu problema”, escreveu.

Roberta Luchsinger realizou ao menos 17 visitas ao MDS entre janeiro de 2023 e maio de 2024. De acordo com registros da pasta, Ranniêr foi o responsável por recebê-la nas entradas ao ministério em ao menos seis dessas visitas. Em nota, Ribas negou irregularidades. “A 3Structure não tem conhecimento sobre tais pagamentos. Todos os contratos firmados pela empresa com o governo federal foram assinados em estrito cumprimento das normas aplicáveis às contratações públicas e submetidos a inúmeras instâncias decisórias, análises técnicas dos órgãos contratantes e auditorias do TCU”, afirmou.

A PF abriu três inquéritos para apurar suspeitas de corrupção e tráfico de influência de Roberta e Lulinha no governo federal. O primeiro deles envolve a tentativa de obter um contrato para venda de canabidiol ao Ministério da Saúde. O segundo apura suspeitas na intermediação dos negócios de Cléber Ribas com a Dataprev e outros órgãos do governo federal. Neste caso, sua empresa conseguiu contratos de ao menos R$ 81 milhões, como mostrou o Estadão. O terceiro inquérito também apura suspeitas da atuação do filho do presidente e da amiga no governo federal.

Conversas indicam que Roberta guardava R$ 500 mil em malas

Os R$ 60 mil pagos a pessoas próximas a Wellington Dias não eram os únicos valores em espécie guardados por Roberta Luchsinger. Segundo a Polícia Federal, os diálogos encontrados no celular dela indicam que a amiga de Lulinha mantinha mais de R$ 500 mil em espécie, guardados em malas.

Em uma das mensagens que ela recebeu de Ulisses Barbosa, o operador financeiro fez menção a dinheiro em malas. Ele fazia serviços gerais para a lobista e tinha acesso à casa dela. Procurado, ele não atendeu às ligações da reportagem.

“Trouxe a mala.. um lado tá os 500k, dou outra lado tá o que sobrou da mala + ou -”, disse o operador, em 21 de março de 2023.

Uma parte desses valores foi entregue ao empresário Fernando Bittar, ex-sócio de Lulinha. Segundo as mensagens, Roberta ordenou que Ulisses Barbosa entregasse R$ 193 mil a ele. A defesa de Bittar negou que ele tenha recebido os valores. “O Fernando não reconhece como sendo ele o destinatário dos recursos, assim como desconhece a origem deles e as razões pelas quais a sra. Roberta Luchsinger citou seu nome neste contexto”, afirmou a defesa.

Fonte: Estadão