
Envelhecer envolve transformações que vão muito além do corpo. A aposentadoria, o afastamento dos filhos, a perda de pessoas próximas e a redução da autonomia física podem trazer a sensação de perda de relevância na família e na sociedade. É nesse cenário vulnerável que a saúde mental na terceira idade exige atenção contínua.
Os dados sobre a população idosa ressaltam que a prevenção ao suicídio precisa ser permanente e encarada como uma realidade. Em entrevista ao MídiaJur, a psicóloga clínica Antonieta da Costa Lemes alerta que a solidão e o isolamento não devem ser interpretados como consequências “naturais” do envelhecimento, nem sinais como tristeza persistente e apatia tratados como inevitáveis.
Pessoas com mais de 60 anos registram no Brasil uma taxa de 8,9 suicídios a cada 100 mil habitantes, acima da média nacional de 5,5. Entre idosos com mais de 70 anos, o índice salta para quase 15 mortes por 100 mil, sendo a maior taxa entre todas as faixas etárias. O recorte de gênero expõe outra grande disparidade: a taxa é de 14,8 por 100 mil entre homens e de 2,6 entre mulheres.
Para Antonieta, compreender o assunto exige olhar para a solidão sem simplificações. À reportagem, ela explicou que estar sozinho não se resume à ausência de pessoas. “Um idoso pode viver dentro de uma casa cheia e, ainda assim, experimentar uma solidão profunda por falta de escuta, vínculos significativos e pertencimento”, pontua.
“Cuidar da saúde emocional da pessoa idosa significa reconhecer sua história, respeitar sua autonomia e garantir que ela continue sendo protagonista de suas escolhas e de sua trajetória de vida”
A aposentadoria e os lutos sucessivos, como a perda de amigos, familiares e da capacidade funcional, agravam o quadro. Quando essas rupturas ocorrem em sequência e sem a construção de novos projetos, surgem desmotivação, ansiedade e isolamento.
Sinais que não devem ser ignorados
É justamente nesse contexto que familiares e cuidadores precisam prestar atenção a mudanças que fogem do comportamento habitual. Falas relacionadas à morte, desesperança, sensação de ser um peso para a família, isolamento repentino, despedidas incomuns ou alterações importantes no comportamento podem indicar sofrimento que precisa ser acolhido.
Antonieta ressalta que perguntar diretamente se o idoso está pensando em morrer não estimula o comportamento suicida. Ao contrário, a pergunta pode abrir espaço para que ele consiga falar sobre aquilo que está sentindo e seja encaminhado para ajuda profissional. Em situações de risco, a orientação é não deixar a pessoa sozinha e buscar atendimento especializado ou de emergência.
A prevenção, contudo, também passa por preservar a autonomia no dia a dia. Evitar substituir o idoso em tarefas que ele ainda consegue realizar, incluí-lo nas decisões familiares e incentivar o convívio social fortalece a autoestima e a funcionalidade.
Para a profissional, com suporte adequado, preservação da autonomia, participação social e acesso aos cuidados de saúde, a terceira idade também pode ser uma fase de novos projetos e continuidade da vida pessoal.
Fonte: MidiaJur





