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Quando o medo do futuro rouba a vontade de viver

Uma paciente temia tanto as possíveis complicações de uma doença crônica que não conseguia imaginar um futuro sem sofrimento. — Foto: Magnific

É possível perder a vontade de viver por medo de algo que talvez nunca aconteça? Há quem receba um diagnóstico e viva como se o pior já estivesse decidido.

Em uma consulta, uma paciente me disse que não queria mais viver. Não enfrentava uma doença terminal, mas temia tanto as possíveis complicações de uma doença crônica que não conseguia imaginar um futuro sem sofrimento.

Diante de uma frase assim, não basta pedir que a pessoa pense positivo. É preciso ouvir, acolher e avaliar sua segurança. A vontade de morrer exige investigar depressão, ansiedade e outros fatores, sem atribuí-la apenas ao medo. Existem tratamentos eficazes, e exames normais não tornam esse sofrimento menos grave.

O cérebro humano consegue antecipar perigos. Isso ajuda a planejar, mas também pode virar uma armadilha. Um resultado alterado se transforma, na mente, em incapacidade. Um diagnóstico vira sentença. Confundimos aquilo que pode acontecer com o que inevitavelmente acontecerá.

Quem vive com diabetes tipo 1 precisa tomar decisões todos os dias sobre alimentação, insulina e glicemia, e lidar com riscos reais para o coração, os rins e a visão. É um peso invisível nos exames.

Esse desgaste pode fazer parte do chamado sofrimento emocional relacionado ao diabetes. Não é sinônimo de depressão, embora ambos possam coexistir. Uma revisão publicada em 2026, com 72 estudos, estimou que quase quatro em cada dez pessoas com diabetes tipo 1 avaliadas apresentavam níveis elevados desse sofrimento. O peso de uma doença não cabe nos exames.

Em setembro deste ano, a Associação Europeia para o Estudo do Diabetes publicou sua primeira diretriz clínica baseada em evidências, dedicada ao sofrimento emocional associado à doença. O documento recomenda abordar o lado emocional em todas as consultas. Perguntar “como você está lidando com tudo isso?” é parte do tratamento, assim como avaliar a glicose.

Mas risco não é destino. O diabetes pode provocar complicações graves, mas elas não são inevitáveis. No diabetes tipo 1, estudos que acompanharam pacientes durante décadas demonstraram que controlar a glicose com segurança reduz o risco de problemas nos olhos, nos rins, nos nervos e no coração. Hoje, sensores de glicose e sistemas automatizados de aplicação de insulina ampliam as possibilidades de tratamento, embora o acesso a essas tecnologias ainda seja desigual.

Existe uma diferença enorme entre dizer “nada de ruim vai acontecer” e dizer “há muito que podemos fazer a partir de agora”. A primeira frase promete o que ninguém pode garantir. A segunda devolve à pessoa algo essencial: a possibilidade de agir.

Como cardiologista, vejo esse medo depois de um infarto. Mesmo quando o tratamento funciona e o coração preserva sua capacidade de bombeamento, alguns pacientes passam a viver em constante estado de alerta. Qualquer desconforto no peito desperta o temor de uma nova tragédia. É claro que novos sintomas precisam ser investigados, mas recuperar a confiança no próprio corpo também faz parte da recuperação.

O mesmo acontece com quem teme desenvolver demência após ver um familiar perder a memória ou deixa de viajar por medo de passar mal. Às vezes, o temor da doença começa a ocupar mais espaço do que a própria vida.

Medo não é fraqueza. Pode ser uma forma de proteção após uma experiência difícil. O problema começa quando a preocupação deixa de servir como alerta e passa a comandar todas as escolhas. Nesses momentos, cuidar da saúde mental é tão importante quanto controlar a glicose. E pedir ajuda não significa desistir de enfrentar a doença.

Uma das tarefas mais importantes da medicina é ajudar a separar três coisas: o que já aconteceu, o que pode acontecer e o que ainda podemos mudar. Nem tudo está sob nosso controle. Mas há tratamentos, apoio e decisões capazes de transformar perspectivas que pareciam definitivas.

Talvez um dos maiores sofrimentos humanos seja viver antecipadamente uma tragédia que nunca chega a acontecer. Não podemos escolher todas as incertezas da vida, mas podemos escolher não deixar que elas determinem o nosso presente. Afinal, o futuro merece cuidado, não uma condenação antecipada.

Por Stephanie Itala Rizk