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O tempo que o Brasil perdeu

Seleção lamenta eliminação nas oitavas de final da Copa do Mundo — Foto: Odd ANDERSEN/AFP

A derrota para a Noruega não aumentou apenas o jejum do Brasil. Ela deu mais forma, mais data e mais rosto a uma espera que já deixava de ser estatística para virar biografia. Durante muito tempo, ainda parecia possível tratar os 24 anos sem título como pauta geracional: primeiro crianças, depois adolescentes que nunca viram a seleção campeã. Agora, isso ficou pequeno. Há adultos que nunca viram. Há pais e mães que nunca viram. Há filhos dessa gente que também nunca viu. Um título de Copa que já foi memória comum e contemporânea virou história contada na sala, no bar, no arquivo de vídeo, quase como herança de família que ninguém chegou a usar.

O Brasil campeão de 2002 segue perto para quem viveu aquele penta, mas distante demais para quem nasceu depois. Com a queda nas oitavas de 2026, o próximo título só poderá vir em 2030. O jejum de 24 anos chegará a 28. Pior: pela primeira vez, a seleção atravessará seis Copas sem levantar a taça. Antes de ganhar a primeira, em 1958, foram cinco tentativas. O país que se acostumou a tratar a Copa como extensão natural de sua grandeza agora olha para a própria história e descobre que nunca esperou tanto.

É que a seleção vive há anos entre a preparação para o futuro e a eterna reestreia do passado. A cada eliminação, o Brasil anuncia um começo. Promete modernidade, estrutura, método, coragem, identidade. A cada ciclo, encontra um jeito de voltar aos mesmos reflexos, aos mesmos vícios, às mesmas certezas antigas embrulhadas como novidade. O futuro surge como projeto. O passado, como hábito.

Toda queda do Brasil em Copa carrega três relógios. Há o tempo do jogo, o mais imediato. Foi nele que Ancelotti demorou a mexer, que a seleção pareceu apática, que Neymar não serviu de nada e que a Noruega encontrou em Haaland a figura literal e simbólica de um gigante diante de um Brasil encolhido. Há o tempo do ciclo, esses quatro anos de política turbulenta, troca de comando e soluções adiadas até que virassem urgência. Mas o tempo mais doloroso é outro. É o tempo de 28 anos. O tempo de uma geração inteira que cresceu ouvindo que o Brasil é o país da Copa e envelheceu vendo o país tentar explicar por que perdeu de novo.

Esse é o ponto mais melancólico da eliminação. O Brasil segue tratando cada fracasso como acidente grave, mas isolado, quando o conjunto já aponta para uma rotina. Depois de 2006, era preciso renovar. Pós 2010, recuperar o encanto. Em 2014, a missão era reconstruir depois do abismo. Em 2018, transformar boa competição em vitória real. Em 2022, reorganizar tudo. Em 2026, o discurso já chega cansado. O país que prometeu aprender com todos os erros e dores desenvolveu uma capacidade estranha de lembrar o trauma e esquecer a lição.

A camisa brasileira e as cinco estrelas ainda emocionam, mas peso de camisa não marca, não pressiona, não organiza uma confederação, não cria convicção tática, não resolve o atraso de uma estrutura. Durante décadas, o Brasil viveu protegido por uma grandeza que parecia automática. Hoje, a grandeza segue ali, mas exige trabalho. Admitir isso não diminui nada. É a primeira forma adulta de respeito a ela.

A eliminação para a Noruega também carrega um recado esportivo duro: o Brasil sequer ficou entre os oito. A seleção que passou décadas medindo Copas por títulos agora precisa medir também por ausências: das finais, das semifinais, e agora, até de uma quarta de final. E acima de tudo, de uma memória que as novas gerações possam chamar de sua. A Copa seguirá sem o Brasil, como tem seguido cedo demais. E a cena já provoca menos surpresa que saudade antecipada de algo que muita gente nunca viveu.

O Brasil precisa entender seu lugar no mundo de hoje, o tamanho real da distância até o topo e o preço de encarar essa distância sem nostalgia e sem soberba. Porque, enquanto prometia o futuro e reencenava o passado, a seleção foi perdendo também o presente. E é isso que doeu mais neste domingo: perceber que o jejum deixou de ser uma fase. Virou uma idade.

Por Thales Machado – editor de Esportes do GLOBO