
Mudanças no cérebro que podem levar à demência podem começar muitos anos antes de surgirem sintomas perceptíveis, como problemas de memória, esquecimentos de compromissos ou dificuldade para encontrar palavras.
É nesse contexto que os biomarcadores sanguíneos vêm ganhando importância. Biomarcadores são sinais mensuráveis da atividade biológica do organismo. Nas pesquisas sobre demência, alguns biomarcadores presentes no sangue podem fornecer pistas sobre processos biológicos relacionados às alterações cerebrais. Entre eles estão mudanças em proteínas associadas à doença de Alzheimer, danos às células nervosas ou alterações nas células responsáveis por dar suporte e proteção aos neurônios.
No entanto, esses biomarcadores não conseguem prever com certeza se uma pessoa desenvolverá demência. Níveis mais elevados podem indicar um risco maior, mas algumas pessoas com esses sinais biológicos nunca desenvolvem a doença, enquanto outras acabam sendo diagnosticadas. Isso levanta uma questão importante: depois que as primeiras alterações cerebrais começam, o estilo de vida ainda pode influenciar o risco de demência?
Alimentação e demência
Nossa pesquisa sugere que a alimentação ainda pode fazer diferença. Acompanhamos quase 1.900 adultos com 60 anos ou mais na Suécia por até 15 anos. Nenhum deles apresentava demência no início do estudo. Ao longo desse período, 240 participantes desenvolveram a doença.
A alimentação dos participantes foi avaliada em diferentes momentos. Em seguida, analisamos se padrões alimentares mais saudáveis estavam associados a um menor risco de demência em pessoas com diferentes níveis de biomarcadores sanguíneos relacionados à doença de Alzheimer, ao dano às células nervosas e ao estresse biológico no cérebro.
Descobrimos que pessoas com padrões alimentares mais saudáveis apresentavam, de modo geral, menor risco de desenvolver demência. O mais importante é que essa associação também foi observada entre indivíduos cujos biomarcadores indicavam maior risco biológico, incluindo alterações relacionadas ao Alzheimer.
Em vez de focar em alimentos ou nutrientes específicos, analisamos os padrões alimentares como um todo. Essa abordagem é útil porque as pessoas consomem combinações de alimentos, e não nutrientes isolados. Estudos anteriores do nosso grupo também associaram a qualidade da alimentação a biomarcadores relacionados ao Alzheimer em idosos cognitivamente saudáveis.
A qualidade da dieta foi avaliada de três formas: o grau de adesão à dieta mediterrânea, a proximidade da alimentação com as recomendações gerais para uma dieta saudável e o potencial inflamatório da dieta — ou seja, o quanto ela tende a estimular processos inflamatórios no organismo. Isso permitiu investigar se diferentes aspectos da qualidade alimentar eram mais relevantes para pessoas com perfis biológicos distintos.
O resultado mais forte e consistente entre os participantes com maior risco biológico envolveu justamente o potencial inflamatório da dieta. Entre aqueles com níveis mais elevados desses biomarcadores de risco, dietas com menor potencial inflamatório foram associadas a uma redução relativa de até 30% no risco de desenvolver demência. Vale destacar que uma redução relativa compara diferenças entre grupos e não permite afirmar se um indivíduo específico deixará de desenvolver a doença.
Esse achado também traz uma ressalva importante. Nosso estudo foi observacional, ou seja, ele pode identificar associações entre alimentação, biomarcadores e risco de demência, mas não comprovar uma relação de causa e efeito.
Ainda assim, os resultados sugerem que a inflamação pode ser um dos mecanismos pelos quais a alimentação continua sendo relevante, mesmo depois do início das alterações relacionadas à doença.
Dieta com menor potencial inflamatório
Uma dieta com menor potencial inflamatório não é uma dieta médica específica, mas sim um padrão alimentar. Nesse tipo de pesquisa, isso geralmente significa consumir mais vegetais, frutas, grãos integrais, leguminosas, chá e café, e reduzir o consumo de carnes vermelhas e processadas, grãos refinados e bebidas açucaradas. Estudos semelhantes também relacionaram dietas menos inflamatórias a um menor risco de demência em idosos com doenças cardiometabólicas, como diabetes tipo 2, doenças cardíacas e histórico de AVC.
Mas por que isso poderia afetar o cérebro? A inflamação faz parte do sistema natural de defesa do organismo, ajudando o corpo a responder a infecções e lesões. O problema é quando ocorre uma inflamação crônica e de baixo grau, que permanece ativa durante anos.
Os cientistas estão cada vez mais interessados em entender como esse tipo de inflamação prolongada pode contribuir para o envelhecimento cerebral e para a demência. Ela pode afetar o cérebro diretamente, por meio da atividade das células do sistema imunológico ao redor dos neurônios, e também de forma indireta, ao comprometer os vasos sanguíneos, favorecer a resistência à insulina e prejudicar a saúde cardiovascular.
Os demais padrões alimentares apresentaram um cenário diferente. A dieta mediterrânea e uma alimentação saudável baseada nas recomendações nutricionais gerais estiveram mais fortemente associadas à redução do risco de demência entre pessoas com níveis mais baixos de biomarcadores.
Mesmo assim, essas dietas também podem ser importantes para indivíduos com maior risco biológico. Os resultados sugerem que diferentes aspectos da qualidade da alimentação podem atuar de maneiras distintas, dependendo do perfil biológico de cada pessoa.
Nosso estudo apresentou diversos pontos fortes. Utilizamos avaliações repetidas da alimentação, acompanhamos os participantes por muitos anos, identificamos cuidadosamente os casos de demência e comparamos diferentes padrões alimentares dentro do mesmo grupo de idosos.
Também houve limitações. A alimentação foi avaliada por meio de questionários, que são úteis, mas não perfeitos. Além disso, os participantes eram de uma única área urbana da Suécia e, em média, tinham boa saúde e alto nível de escolaridade. Portanto, os resultados podem não se aplicar da mesma forma a todas as populações.
A principal mensagem deve ser interpretada com cautela: uma alimentação saudável não elimina o risco de demência. Idade, fatores genéticos, saúde cardiovascular, condições sociais e até o acaso também desempenham papéis importantes.
Ainda assim, nossas descobertas sugerem que a alimentação pode continuar sendo importante para a saúde do cérebro, mesmo quando já existem sinais biológicos precoces associados a um risco maior de demência. O próximo passo é identificar quais alimentos e nutrientes estão por trás dessas associações, para que as recomendações voltadas à prevenção da demência se tornem mais precisas e eficazes.
Fonte: O Globo





