
A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira (7) uma operação em 12 estados para combater a produção e a venda ilegal de canetas emagrecedoras, em um mercado que cresceu com a popularização de substâncias como semaglutida (Ozempic e Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro).
Batizada de Heavy Pen, a operação contou com o apoio da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para cumprir 45 mandados de busca e apreensão, além de fiscalização.
A ação mirou alvos nos estados do Acre, Espírito Santo, Ceará, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Roraima, Rio Grande do Norte, São Paulo, Sergipe e Santa Catarina.
Segundo a PF, são investigados grupos suspeitos de atuar em diferentes etapas da cadeia ilegal, desde a importação irregular dos insumos até a produção clandestina e a comercialização de medicamentos sem autorização.
A apuração se concentrou em produtos à base de semaglutida e tirzepatida, substâncias indicadas para tratamento de obesidade e diabetes, além de retatrutida, ainda sem autorização para venda no Brasil.
Segundo a Anvisa, notas fiscais apreendidas em uma importadora da região metropolitana de São Paulo sinalizam R$ 4,8 milhões em possíveis transações irregulares. O valor inclui 3,5 kg de tirzepatida, suficientes para produção de 1 milhão de dispositivos injetáveis, além de 14 g de retatrutida.
Também foi apreendida carga de retatrutida ilegal em Goiás, adquiridas por notas fiscais de fábricas de São Paulo. As equipes da Anvisa ainda localizaram 17 mil frascos de tirzepatida manipulados irregularmente, além de 509 g do ingrediente usado para os produtos injetáveis.
“No Pará, foram apreendidos relógios, veículos e motos de alto padrão, propofol e fentanil e anestésicos de alta letalidade. Também foi encontrada tirzepatida em um consultório odontológico que funcionava nas dependências de uma academia”, afirmou a Anvisa.
Durante as diligências, policiais e fiscais da Anvisa inspecionaram laboratórios de manipulação, clínicas estéticas e empresas suspeitas de operar fora das regras sanitárias, com fabricação, fracionamento ou venda de medicamentos sem registro ou de origem desconhecida.
De acordo com a PF, o material apreendido deve reforçar inquéritos em andamento. Os investigados podem responder por crimes como falsificação de medicamentos, comércio irregular e contrabando.
Segundo dados da Polícia Federal, as apreensões de medicamentos tiveram um salto nos últimos anos, passando de 609 unidades em 2024 para 60.787 em 2025 —e já alcançando 54.577 unidades até março de 2026.
Na segunda-feira (6), a Anvisa anunciou medidas que endurecem as regras e podem coibir a atuação ilegal nesse mercado. Para isso, começou a corrigir brechas que levaram à explosão da fabricação de canetas emagrecedoras em farmácias de manipulação.
Os diretores da agência anunciaram que farão cobranças mais rígidas sobre o insumo farmacêutico importado para a fabricação das canetas nesses estabelecimentos, além de medidas para garantir que as doses só sejam fabricadas após a apresentação de prescrição médica.
Entre novembro de 2025 e abril de 2026 houve importação de ao menos 100 kg de tirzepatida. O volume é suficiente para a fabricação de cerca de 20 milhões de canetas de 5 mg, segundo dados apresentados pela Anvisa.
A agência diz que o volume importado é “incompatível com o mercado nacional”, mas os diretores disseram desconhecer quantas unidades foram fabricadas irregularmente.
As canetas manipuladas costumam ser vendidas em clínicas médicas, com preços inferiores aos medicamentos registrados pela Anvisa. O produto das grandes indústrias é submetido a controles mais rígidos da agência sanitária, e o uso desenfreado das versões feitas em farmácias preocupa entidades médicas.
A venda por farmácias de manipulação não é ilegal, mas os estabelecimentos só podem produzir em pequena escala e para atender a demanda de prescrições médicas individualizadas. Ou seja, é vedado formar estoque ou fazer uma espécie de comercialização no atacado para clínicas médicas.
As chamadas canetas emagrecedoras são medicamentos agonistas de GLP-1, hormônio produzido naturalmente pelo corpo humano e que atua no controle dos níveis de glicose no sangue e nos mecanismos de saciedade.
Existe forte pressão de consumidores, de parte da indústria e do mundo político para ampliar a oferta e baixar custos dos emagrecedores.
No ano passado, a disputa por este mercado ganhou novo rumo com atuação direta do governo Lula (PT). A Anvisa atendeu a um pedido do Ministério da Saúde e passou na frente da sua fila de análise 20 pedidos de remédios emagrecedores contendo liraglutida ou semaglutida.
A semaglutida perdeu a patente no Brasil no fim de março, mas ainda não há concorrentes dos produtos da Novo Nordisk registrados no país (Ozempic e Wegovy). A EMS —que lançou as primeiras canetas de produção nacional, mas de liraglutida (geração anterior à semaglutida)— e outras empresas aguardam aval da Anvisa para comercialização.
Fonte: Folha de S. Paulo





