Pular para o conteúdo

A confiança tóxica tomou conta das redes sociais com influenciadores pouco qualificados

Tim Enthoven/The New York Times

Para onde quer que você olhe hoje em dia, o cenário está repleto de homens confiantes: pessoas com pouca experiência conquistando cargos governamentais de alto escalão. Redes comandadas por líderes com pouca experiência em comunicação. Impérios de bem-estar construídos por empreendedores sem formação médica. Um conhecido arrogante cuja presença você talvez ache fascinante.

Talvez você também tenha notado o declínio das demonstrações de falsa modéstia e dos pedidos de desculpas performáticos nas redes sociais. Um aumento simultâneo na autoconfiança inabalável, em conselhos não solicitados e em opiniões polêmicas e provocativas. Os superqualificados não hesitam em lembrar você de seus currículos; os subqualificados se autoproclamam autoridades; os devidamente qualificados afirmam que seu trabalho por email está “salvando vidas”.

Se o ChatGPT pode nos substituir enquanto insiste que a palavra “strawberry” [morango, em inglês] só tem dois “r”, não é de se admirar que alguns vejam a hora de adotar um novo estilo provocativo.

“Todo mundo está tentando influenciar; todo mundo está colocando conteúdo pago no Substack”, diz Gutes Guterman, 29, fundador da revista Byline. “Você precisa parecer um especialista para que as pessoas acreditem em você.”

Amelia Dimoldenberg, uma comediante que construiu uma carreira encantando celebridades em sua série de vídeos no YouTube “Chicken Shop Date”, foi uma das pioneiras. Empregando essa atitude —talvez o registro natural da paquera— com grande efeito, ela convence de forma consistente seus convidados de que eles provavelmente estão um pouquinho apaixonados por ela.

Isso tem um progenitor natural na cultura drag e do hip-hop, em que provocações, faixas de desafio e rivalidades lendárias são fundadas em egos inflados. É a voz interior que leva alguém a lançar uma música intitulada “I Am a God” e partir para conquistar outras indústrias.

Ainda assim, costumava ser a “síndrome do impostor” que dominava as conversas, a postura ansiosa dos millennials com responsabilidades de adulto e das mulheres liderando ambientes corporativos tentando não irritar ninguém. Mesmo que você se sentisse merecedor de elogios, as convenções sociais da época exigiam a expressão de modéstia.

Agora, em uma era de incels agressivamente atraentes e postura política machista, a humildade cultivada parece banal. Uma geração mais jovem, saindo do ensino médio e da faculdade durante o lockdown da Covid, se sente menos obrigada a diminuir seu brilho. Quem tem tempo para mansidão afetada quando bancar o fanfarrão não só faz bem para a alma, mas tem o potencial de convencer os outros da própria grandeza?

“Você está na beirada, se perguntando: ‘Devo pular?'”, disse a atriz e comediante Ivy Wolk em um episódio do popular programa do TikTok “Subway Takes”, resumindo as potenciais armadilhas da autodúvida. Ao mesmo tempo, ela acrescentou, outras pessoas estão vindo atrás de você “prontas para pular”.

Talvez seja divertido?

É em parte um produto de um novo ambiente midiático. Em plataformas como Substack e TikTok, em que o sucesso depende de convencer os outros a investir na sua personalidade singular, mostrar vulnerabilidade ou dúvida pode ser arriscado. Seja postando sobre uma série de leituras no bar do seu bairro ou alcançando notoriedade na internet ensinando jovens a se tornarem “gigachads” [meme da internet que representa a hipermasculinidade], esses empreendimentos exigem ser otimista sobre o próprio valor.

No seu aspecto menos ofensivo, a confiança tóxica é de baixo risco e divertida. São escritores de newsletters enchendo sua caixa de entrada com guias de presentes não solicitados. É aquela atriz medíocre com quem você mal namorou começando um podcast com paywall e se intitulando comentarista política. É a autora Lisa Taddeo direcionando um post no Instagram para os vencedores de uma bolsa que ela não recebeu: “Estarei observando o que vocês fazem. Espero que seja melhor do que o que eu faço. Mas não acho que será. Porque o que estou fazendo vai ser EXCEPCIONAL.”

É o que quer que leve os agentes do caos na sua órbita a se tornarem coaches de vida.

Talvez uma verdade simples seja que a confiança tóxica é charmosa se você gosta da pessoa e intolerável se não gosta.

Considere Amanda Frances, uma nova integrante do elenco de “The Real Housewives of Beverly Hills”, que abraçou o apelido de “Rainha do Dinheiro” e diz que fez sua fortuna vendendo cursos de manifestação de dinheiro.

No entanto: “Eu não tinha nenhuma experiência formal em negócios”, ela disse à sua colega de elenco Bozoma Saint John, a primeira executiva negra de alto escalão na Netflix, durante um almoço. “Descobri que tinha um dom em relação, tipo, à parte energética do dinheiro.”

Depois, Saint John fofocou com outra colega de elenco, Rachel Zoe, sobre a interação: “Você nunca teve um emprego antes, então como está dizendo às pessoas como conseguir dinheiro?”

Toda essa bravata provavelmente deve algo ao presidente Donald Trump, que é conhecido por — entre outras demonstrações arrogantes — usar superlativos para se gabar de sua inteligência.

“Ninguém sabe mais sobre impostos do que eu, talvez em toda a história do mundo”, ele afirmou certa vez, por exemplo.

Ego emprestado

Se ocasionalmente nos vemos fascinados por vigaristas, pode ser porque desejamos um pouco do que eles têm.

Admirar alguém ousado e atrevido pode dar à pessoa “aquela sensação de emprestar força do ego”, diz Rachel Easterly, psicoterapeuta radicada no Brooklyn. Ela se referiu ao narcisismo em crianças, uma fase normal do desenvolvimento infantil.

“É muito assustador ser uma pessoa pequena e indefesa”, diz Easterly. “Você está em um mundo onde não tem muito poder, então compensa com essa defesa. Isso pode acontecer em nível social.” Quando Freud, Donald Winnicott e outros estavam desenvolvendo suas teorias sobre por que as pessoas eram atraídas por cultos à personalidade, ela disse, era “no contexto de colapso social e guerra”.

“Estamos sentindo tipos semelhantes de pavor existencial como adultos agora”, acrescenta, “em termos de niilismo em nossa cultura, mudanças climáticas, desigualdade de renda”.

Talvez seja por isso que tantos foram atraídos por “Marty Supreme”, o grande sucesso do ano passado sobre um prodígio ambicioso do tênis de mesa, e ficaram cativados pela ousadia de Timothée Chalamet ao promovê-lo.

“Esta é provavelmente minha melhor atuação, sabe, e já faz uns sete, oito anos que sinto que venho entregando performances realmente muito comprometidas, de primeira linha”, disse Chalamet, protagonista do filme, em uma entrevista no ano passado.

“Isso é realmente coisa de alto nível”, acrescentou, usando um palavrão.

Chalamet recebeu um Globo de Ouro e um Critics Choice Award por sua interpretação de Marty. Mas quando chegou a época do Oscar, ele havia ficado um pouco confortável demais com o abraço da cultura à sua confiança tóxica, e isso rapidamente se tornou icariano.

Em uma conversa com o ator Matthew McConaughey, Chalamet afirmou que “ninguém se importa com” ópera e balé. Não pareceu lhe ocorrer voltar atrás ou tentar tranquilizar os membros dessas comunidades sobre sua admiração. Em vez disso, ele dobrou a aposta, mirando na falta de renda dos artistas: “Acabei de perder 14 centavos em audiência”.

Atacar os mais fracos é uma maneira de tornar esses altos níveis de confiança menos charmosos. Aqueles que conseguem fazer isso funcionar tendem a ser os que não estão aproveitando seu sucesso às custas de outros. Provocações leves são aceitáveis.

Nas Olimpíadas de Inverno em Milão, a esquiadora chinesa de estilo livre Eileen Gu exibiu uma versão mais efervescente de confiança tóxica ao descrever como era estar dentro de sua própria cabeça (“não é um lugar ruim para estar”) e o que diria para si mesma mais jovem (“Eu me amaria, e essa é a maior ostentação de todos os tempos”). Ela também foi honesta sobre as rotinas intensivas que mantém para poder competir nas Olimpíadas, estudar física quântica em Stanford e ser modelo da IMG —e a enorme pressão que coloca sobre si mesma para manter tudo isso.

Isso torna difícil argumentar que momentos como este não são merecidos: depois que GuGu ganhou ouro no halfpipe feminino e duas medalhas de prata adicionais neste inverno, um repórter perguntou se ela considerava suas conquistas “duas pratas ganhas” ou “dois ouros perdidos”.

Ela caiu na gargalhada: “Sou a esquiadora de estilo livre mais condecorada da história”.

Para aqueles que não são atletas olímpicos multitalentosos, é possível que por trás do verniz polido de uma aparente segurança absoluta permaneça a mesma pessoa ansiosa e insegura, apenas seguindo os novos ditames sociais do momento.

“Eu genuinamente não sei se todo mundo acredita em si mesmo tanto quanto diz, mas acho que é meio que a única opção”, diz Guterman, a fundadora da revista, que se descreveu como “adequadamente” confiante. “Porque se você não acredita de verdade em si mesma agora, você não tem nada a seu favor.”

Fonte: Folha de S. Paulo