
O uso de canetas emagrecedoras em idosos que lutam contra o sobrepeso ou a obesidade é bem visto por especialistas, mas não sem cuidados especiais inerentes à idade avançada. O excesso de peso está quase sempre acompanhado de doenças associadas, como diabetes e males cardiovasculares. E o emagrecimento proporcionado pelas canetas acena com duplo benefício: o emagrecimento e o combate dessas doenças.
No entanto, devido à idade avançada, idosos são também mais sujeitos a limitações de uso e efeitos adversos em decorrência a variados fatores pré-existentes. A lista inclui outras doenças, uso de muitos medicamentos, fragilidade, limitações nutricionais e de mobilidade. Tudo isso, dizem especialistas, faz com que o uso de canetas nessa faixa da população precise ser acompanhado de perto por médicos.
A presidente da regional do Rio de Janeiro da Sociedade Brasileira de Diabetes, Joana Dantas, destaca que o idoso é um público que merece atenção especial.
— Idosos já têm limitações naturais, como problemas de mobilidade, por exemplo. É um público que demanda mais cuidados e uma avaliação criteriosa de riscos e benefícios — diz Dantas, médica do hospital Pró-Cardíaco, da Rede Américas.
A endocrinologista Lívia Lugarinho, chefe do Serviço de Obesidade do pelo Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (IEDE), no Rio de Janeiro, salienta o fato de pessoas idosas com obesidade terem mais dificuldades para conseguir tratamento.
— Por exemplo, é quase impossível alguém de mais de 65 anos conseguir fazer uma cirurgia bariátrica pelo SUS. E atualmente nenhuma droga contra a obesidade está incorporada no SUS — frisa ela.
O que se sabe sobre a eficácia das canetas em pessoas com mais de 65 anos?
Ensaios clínicos grandes de semaglutida (programa STEP) e tirzepatida (SURMOUNT), que incluíram subgrupos com mais de 65 anos, mostram que idosos perdem peso de forma muito semelhante à de adultos mais jovens, com melhoras comparáveis em pressão e indicadores cardiometabólicos. E uma revisão da literatura científica específica sobre canetas e pessoas acima de 65 anos, publicada na revista Nutrients, em fevereiro passado, também concluiu que as canetas são eficazes para perda de peso e controle metabólico nessa faixa etária, com efeitos de tamanho similar aos observados em indivíduos mais jovens.
As canetas podem provocar mais efeitos colaterais em idosos?
Com orientação médica e cuidados adequados, não necessariamente. Revisões de estudos comparando idosos e não idosos com diabetes tipo 2 mostraram que não houve aumento relevante de hipoglicemia e reforçaram que a segurança é preservada. O padrão de efeitos adversos em idosos é o mesmo do de outras faixas etárias (náuseas, vômitos, diarreia, constipação). A principal diferença é uma probabilidade maior de interromper o tratamento por intolerância digestiva.
E os efeitos extras das canetas, como redução de risco cardíaco, também se aplicam aos idosos?
Numerosos estudos mostram que elas reduzem a ocorrência de infarto, acidente vascular cerebral e mortalidade por doenças cardiovasculares em pessoas mais velhas. Não há redução aparente de benefício com a idade, indica pesquisa da Universidade Nacional de Seul (Coreia do Sul), publicada em 2025, na revista Journal of Clinical Medicine. Estudos com pacientes de 80 anos ou mais sugerem que as canetas diminuem o risco de doenças cardiovasculares e renais.
Músculos e fragilidade
Parte significativa da perda de peso (de 25% a 40% do total) com canetas é de massa magra, o que gera preocupação especial em idosos, posto que eles já têm risco maior de sarcopenia e fragilidade devido ao envelhecimento.
Por outro lado, dados iniciais sugerem que, em alguns contextos, a gordura visceral cai proporcionalmente mais que o músculo, e pelo menos um estudo em idosos encontrou redução de gordura sem piora de sarcopenia, mas as evidências ainda são escassas.
Lívia Lugarinho alerta que para os idosos que já sofrem de obesidade sarcopênica as canetas podem não ser recomendadas.
E o que é obesidade sarcopênica?
É um distúrbio caracterizado pela gordura excessiva e baixa massa muscular. Não necessariamente afeta as pessoas de maior peso. Muitas vezes acomete pessoas que nem parecem tão pesadas, pois o que importa é a relação entre músculo e gordura. A pessoa com obesidade sarcopênica tem muita gordura, mas seus músculos têm pouca força e pior desempenho de funções. Vale lembrar que os músculos atuam no metabolismo, na imunidade e na cognição. É um distúrbio grave que aumenta o risco para uma série de outras complicações, a começar por quedas e fraturas.
Todo idoso pode usar canetas?
Não. Geriatras chamam atenção para o fato de que muitos idosos com diabetes e obesidade também são frágeis, com apetite reduzido, sofrem de múltiplas doenças e tomam muitos medicamentos. Tudo isso influencia o balanço entre risco e benefício. As canetas são mais recomendáveis para idosos com indicação de risco cardiometabólico e capacidade de seguir um plano alimentar com ingestão de proteína elevada e exercícios de força. Canetas podem não ser apropriadas para pessoas muito frágeis, malnutridas (estão acima do peso, mas não têm reserva de nutrientes devido a uma série de fatores, a começar pela alimentação de má qualidade, com “calorias vazias”) ou com perda muscular acentuada.
Idoso vai perder mais massa muscular com a caneta?
Como devido ao envelhecimento, os idosos já têm uma perda maior de massa muscular, é esperado que isso ocorra e isso é um ponto de atenção. Vale lembrar que se perde, em média, 0,8% dos músculos por ano a partir dos 40 anos. E o emagrecimento intenso e rápido promovido pelas canetas tende a acelerar essa perda associada ao envelhecimento. Além disso, idosos são naturalmente mais vulneráveis à sarcopenia (perda severa de músculos, quase sempre associada ao envelhecimento).
Mas não se trata de regra nem destino. É possível evitar que isso ocorra, afirma Clayton Macedo, coordenador do Ambulatório de Endocrinologia do Exercício da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da diretoria da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
A receita é conhecida: acompanhamento médico, alimentação adequada e proteica, atividade física. Ele cita o caso de uma senhora de 74 anos, atendida no Hospital Einstein, em São Paulo. Com Wegovy (semaglutida), ela perdeu 10 kg, sendo apenas meio quilo de músculo.
Como usar canetas em idosos?
Médicos sugerem que idosos comecem com doses mais baixas e subam mais lentamente que adultos jovens. É necessário monitorar de perto hidratação, função renal, peso, apetite, sintomas digestivos, força e capacidade funcional, e ajustar outras medicações (especialmente insulina) para minimizar hipoglicemia.
Também é preciso combinar o remédio com reforço de ingestão proteica e atividade física, sobretudo musculação, para proteger músculo. Juliana Coelho, nutricionista do IEDE, esclarece que a dieta hiperproteica precisa ser individualizada.
Nos idosos, os cuidados com desidratação devem ser redobrados, pois as canetas tiram a sede e idosos já tendem naturalmente a sentir menos sede. Também é preciso atenção com doença renal, pois proteínas podem sobrecarregar os rins. E reavaliar se a perda de peso ultrapassar o esperado ou vier acompanhada de declínio funcional.
Outros possíveis benefícios
Especialistas esclarecem que a força e a mobilidade podem até melhorar em pessoas obesas após a perda de peso, apesar da redução de massa muscular. E inclusive em idosos, observa Clayton Macedo. A perda de peso melhora a “qualidade” do músculo remanescente ao reduzir a gordura intramiocelular e intermuscular.
Uma pessoa que tinha um excesso significativo e perde muito peso passará a conseguir a se movimentar melhor porque precisará sustentar menos carga. Passará a fazer coisas que não podia antes. Porém, a medida de força não avalia os outros papeis dos músculos, como o metabólico e o imunológico, destaca Carla Prado, diretora da Unidade de Pesquisa em Nutrição Humana da Universidade de Alberta, no Canadá.
Canetas emagrecem, mas não operam milagre
Metanálises mostram que a perda de peso com as canetas tende a atingir um platô entre 60 semanas a 80 semanas, com manutenção enquanto a droga é usada. Mas há sinais de atenuação da resposta glicêmica após cerca de 2 anos em diabéticos. Ainda não está claro se, com muitos anos de uso, pode ocorrer uma redução progressiva do efeito, exigindo escalada de dose, troca de fármaco ou associações sistemáticas. Essas questões são impossíveis de responder neste momento. Um dos motivos é o fato de que não houve tempo suficiente para compreender todos os efeitos em “estudos da vida real”, baseados em grandes análises populacionais.
O que falta saber
As principais revisões de estudos concluem que as canetas são, em geral, seguras e eficazes em idosos, mas os cientistas pedem mais ensaios especificamente dedicados a esse grupo e que integrem desfechos de função física, qualidade de vida, sarcopenia e quedas. E que testem estratégias, combinando remédio, nutrição e exercício para um emagrecimento seguro na velhice.
Fonte: O Globo





