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Por que médicos passaram a defender controle mais rigoroso da pressão em idosos

Idoso inclina-se para trás segurando uma barra, enquanto dois profissionais de saúde, um homem e uma mulher, o apoiam sorrindo. Ambiente decorado com bandeirinhas coloridas.
John P. Dessereau/The New York Times

Ao colher o histórico e os sinais vitais, Supiano, geriatra da Universidade de Utah, nos EUA, identifica um sinal preocupante: a pressão arterial da paciente é 148/86, acima do normal apesar de ela tomar dois medicamentos para baixá-la. “Claramente estava alta demais”, diz ele.

Vários fatores podem ter contribuído para a leitura elevada, incluindo o anti-inflamatório que a mulher de 78 anos tomava para dor de artrite, uma dieta rica em sódio e falta de exercícios regulares. Ela também havia contado a Supiano que costumava beber algumas taças de vinho todas as noites.

Depois que Supiano discutiu formas de reduzir o risco, a mulher e o marido se matricularam em uma academia. Ela parou de tomar o anti-inflamatório e reduziu o sal e o álcool, trazendo suas leituras de pressão sistólica para a faixa de 130 a 140 —ainda hipertensão, de acordo com as diretrizes emitidas pela Associação Americana do Coração e pelo Colégio Americano de Cardiologia no final daquele ano, mas mais aceitável. (A pressão sistólica é o número de cima na medição da pressão arterial e o dado clinicamente mais importante.)

Em 2019, porém, a paciente recebeu diagnóstico de comprometimento cognitivo leve, e evidências médicas começavam a apontar para uma conexão entre hipertensão, o termo médico para pressão alta, e demência. “Eu não fui tão agressivo quanto deveria”, lembra Supiano. Ele adicionou um terceiro medicamento ao tratamento da mulher, e as leituras caíram para 120 ou menos.

As diretrizes em constante mudança para o controle da pressão arterial podem lembrar os mais velhos de uma brincadeira da juventude, o limbo. Até onde é possível baixar?

Por mais de 25 anos, uma leitura de 140/90 ou menos era considerada normal, de acordo com as diretrizes da associação e do colégio americanos. Mas a atualização de 2017 introduziu mudanças importantes, respaldadas pelos resultados do estudo Sprint, que acompanhou adultos acima de 50 anos com alto risco cardiovascular.

O estudo descobriu que o tratamento intensivo visando trazer o número sistólico abaixo de 120 reduziu o risco de ataques cardíacos, derrames, outras doenças cardiovasculares e a mortalidade geral de forma tão expressiva que os pesquisadores interromperam o estudo antes do prazo previsto.

Era antiético, concluíram, negar à metade dos participantes os benefícios do tratamento intensivo. As diretrizes de 2017 passaram, então, a recomendar medicação para aqueles com pressão sistólica acima de 130.

As revisões mais recentes, divulgadas no final do ano passado, incentivam um controle ainda mais rigoroso. Elas pedem que pacientes com risco cardiovascular busquem leituras sistólicas abaixo de 120, e também definem essa meta como “razoável” mesmo para quem não está em alto risco. Leituras consideradas normais não muito tempo atrás são agora classificadas como hipertensão.

A pressão arterial normalmente aumenta com a idade porque “com o enrijecimento das artérias, o coração precisa bombear com mais força”, diz Erica Spatz, diretora do programa de saúde cardiovascular preventiva da Escola de Medicina de Yale, nos EUA. De 2021 a 2023, cerca de dois terços dos adultos acima de 65 anos tinham hipertensão, de acordo com a definição operacional vigente à época.

Mas as revisões recentes podem “classificar muito mais pessoas como tendo pressão alta”, diz Rita Redberg, cardiologista da Universidade da Califórnia em São Francisco, também nos EUA.

Para Supiano, estudos recentes nos Estados Unidos e na China que mostram benefícios cognitivos associados a leituras mais baixas “inclinaram a balança” no caso de adultos mais velhos. “O que é bom para o coração é bom para o cérebro”, diz ele, chamando essas descobertas de “uma alavanca para fazer as pessoas prestarem mais atenção à pressão arterial. Elas podem não querer viver mais, mas querem manter sua cognição por mais tempo.”

Quase todas as principais associações médicas, incluindo a Sociedade Americana de Geriatria, da qual Supiano é presidente do conselho, endossaram as diretrizes mais recentes.

“Eu costumava ser mais tolerante com muitos dos meus pacientes mais velhos”, diz John Dodson, cardiologista e pesquisador do NYU Langone Health, em Nova York. “Se eu tratasse demais a pressão alta, coisas ruins iam acontecer.”

A pressão arterial que cai em excesso, hipotensão, pode causar tontura, desmaios ou lesões por quedas.

Agora, diz Dodson, “estou tratando meus pacientes mais velhos de forma mais agressiva”. Estudos mostraram que tratar a hipertensão beneficia até mesmo idosos mais frágeis. E embora pacientes mais velhos no estudo Sprint tenham sofrido mais lesões por quedas, a taxa não foi maior entre os que receberam tratamento intensivo do que entre os que passaram por tratamento padrão. Entre os acima de 75 anos, foi de cerca de 5% nos dois grupos.

Outra mudança relevante: as novas diretrizes recomendam o monitoramento domiciliar da pressão.

“A pressão arterial é complicada”, diz Spatz. “Ela varia ao longo do dia, dependendo se a pessoa acabou de acordar, de comer, ou se está calor lá fora.” As leituras sistólicas podem oscilar 30 pontos ou mais em um único dia.

E quase sempre são mais altas no consultório. “Não quero dar muito peso a uma única leitura”, diz Spatz.

“Talvez o paciente tenha a síndrome do jaleco branco”, acrescenta, referindo-se à ansiedade gerada por consultas médicas, “ou tenha brigado com o manobrista” no caminho.

Ela pede aos pacientes que registrem a pressão arterial duas vezes ao dia por uma ou duas semanas antes das consultas. Alguns médicos prescrevem um monitor domiciliar de 24 horas.

Os pacientes vão aderir ao monitoramento em casa e ao tratamento mais agressivo? Cardiologistas argumentam que a hipertensão, quase sempre assintomática, continua sendo subtratada apesar das diretrizes mais recentes.

O custo provavelmente não será um obstáculo. A maioria dos pacientes precisa de dois ou três medicamentos para baixar a pressão, mas como os genéricos são “muito baratos, cerca de US$ 5 por mês (cerca de R$ 25)” e raramente interagem com outros remédios frequentemente prescritos para idosos, diz Supiano. Um aparelho de pressão para uso doméstico custa US$ 35 (cerca de R$ 175), ou mais para os modelos que transmitem dados digitalmente.

Embora alguns efeitos colaterais sejam sérios, uma queda pode mudar a vida, a maioria das complicações “felizmente são transitórias, reversíveis e bastante leves”, diz ele.

As diretrizes, porém, também têm céticos. Redberg, por exemplo, orienta pacientes mais velhos sobre dieta, exercícios e perda de peso, mas não os encoraja a iniciar medicação para reduzir uma leitura sistólica de 135 para abaixo de 120.

Eles já parecem excessivamente ansiosos com a pressão arterial, diz ela. “Eu os encorajo a sair e se divertir.”

“Faça um curso! Vá a um museu!”, diz ela. “Você não pode fazer isso se estiver em casa medindo a pressão cinco vezes por dia.”

Fone: Folha de S. Paulo