
O acordo que o Palácio do Planalto tenta fechar com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), passa pelo apoio à sua tentativa de reeleição ao comando da Casa, em 2027. Se vencer a disputa de outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalizará mais uma gestão de Hugo Motta (Republicanos-PB) à frente da Câmara, mas também pretende dar respaldo a Alcolumbre, desde que ele colabore com o Palácio do Planalto.
A nova correlação de forças no Congresso depende do resultado das urnas em uma temporada de tensões entre os Poderes. As investigações da Polícia Federal envolvendo emendas parlamentares, o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, e o escândalo do Banco Master, que atinge políticos de vários espectros ideológico, compõem esse cenário.
Embora o desfecho das eleições seja imprevisível, as negociações de partidos do Centrão com Lula foram travadas tendo no radar a perspectiva de vitória do petista e um Congresso com perfil mais à direita.
O senador Ciro Nogueira, presidente do PP, conseguiu arrancar de Lula, por exemplo, o compromisso para que ele apoie um novo mandato de Motta ao comando da Câmara, em 2027, caso os dois saiam vitoriosos nas urnas. Apesar de Motta ser filiado ao Republicanos, o padrinho político dele é Ciro.
A garantia dada por Lula ao senador, alvejado pelo escândalo do Banco Master, foi um dos fatores que pesaram para que o PP e o União Brasil de Alcolumbre – unidos em uma federação – decidissem pela neutralidade nas eleições de outubro. Na prática, todo o Centrão se descolou da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) ao Planalto.
Além disso, nos bastidores, o PT fez um acordo de cavalheiros com Ciro Nogueira: não vai atrapalhar sua campanha à reeleição pelo Piauí, Estado administrado pelo partido. Em contrapartida, Ciro – que foi ministro da Casa Civil no governo de Jair Bolsonaro – não fará mais oposição a Lula.
O novo modelo de aliança com o Centrão em um possível novo mandato do presidente foi um dos temas discutidos no jantar que reuniu Lula e Alcolumbre, na terça-feira, 4, na casa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, em Brasília.
Houve ali uma espécie de “acerto de contas” entre os dois nos primeiros momentos do encontro, mediado por Moraes – amigo de Alcolumbre – e pelo também ministro do STF Cristiano Zanin, que foi advogado de Lula.
O presidente não escondeu a contrariedade com o fato de Alcolumbre ter imposto uma derrota fragorosa ao governo, no fim de abril, quando o Senado rejeitou a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma cadeira no STF. Na avaliação de Lula, o fiasco só ocorreu porque o presidente do Senado pediu votos contra Messias.
Alcolumbre, por sua vez, disse que estava cansado de atuar como se fosse líder do governo para arregimentar a base aliada em votações e reclamou do PT. A portas fechadas, o senador afirmou que militantes do partido pedem a votação do aumento dos pisos salariais de diversas categorias e depois vão às redes sociais acusá-lo de apoiar uma “pauta bomba” para derrubar o ajuste fiscal.
Ao fim de uma primeira rodada marcada por cotoveladas de parte a parte, Lula e Alcolumbre combinaram outra reunião para a próxima semana, quando o Congresso voltará do recesso, na tentativa de conversar sobre as votações de interesse do governo.
O presidente do Senado já avisou, porém, que votações de propostas de emenda à Constituição (PEC), como as que preveem o fim da escala 6×1 e o envio de recursos de bets e do fundo social do pré-sal para o financiamento da segurança pública, ficarão para depois das eleições.
“Quem quer jogar isso para depois da eleição quer apostar no esquecimento do eleitor”, afirmou o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, ao ser questionado sobre o assunto. Na sua avaliação de Boulos, a estratégia tem o objetivo de criar compensações para os empregadores ou até mesmo reduzir salários.
“Eu ainda não chamei Alcolumbre de ‘inimigo do povo’, mas vou chamar, se ele não colocar a proposta do fim da escala 6×1 em votação”, insistiu o deputado Pedro Uczai (SC), líder do PT na Câmara.
Eu ainda não chamei Alcolumbre de ‘inimigo do povo’, mas vou chamar, se ele não colocar a proposta do fim da escala 6×1 em votação
Pedro Uczai, líder do PT na Câmara
Alcolumbre tentará um novo mandato como presidente do Senado em um cenário político conturbado. Em junho, o ex-governador de Minas Romeu Zema, candidato do Novo à Presidência, chegou a acusá-lo de impedir a instalação de uma CPI para investigar o Master por ter recebido dinheiro de Daniel Vorcaro, dono do banco. Furioso, o presidente do Senado foi à tribuna negar a acusação e divulgou nota sustentando que “jamais” recebeu valores de Vorcaro, hoje preso, seja no Brasil ou no exterior.
Na lista dos colegas que pretendem enfrentar Alcolumbre na disputa pelo comando do Senado estão o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, e a ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina (PP-MS).

A senadora chegou a aceitar convite para ser vice na chapa de Flávio, mas o PP, seu partido, vetou a composição. Em um comunicado sucinto, Ciro Nogueira destacou que a sigla já havia decidido pela neutralidade nas eleições.
“Com a neutralidade desses partidos e a possibilidade de uma vitória nossa, temos de construir uma correlação de forças diferente no pós-eleição”, disse ao Estadão o titular das Relações Institucionais, José Guimarães. “A concertação começou com a reunião entre o presidente e Alcolumbre”, completou.
Para o ministro, a governabilidade no Congresso passa pela eleição das presidências das duas Casas (Legislativas), por negociações sobre o destino das emendas parlamentares e composição da base governista.
O acerto do Planalto com Alcolumbre deverá prever, ainda, uma nova indicação do nome de Messias para o STF. Se uma votação assim ocorresse agora, Messias seria novamente rejeitado. Mas o cálculo no governo é que, se Lula ganhar as eleições, terá forças para costurar outro acordo, desta vez oferecendo dividendos políticos para Alcolumbre, que estará de olho em sua recondução ao cargo.
Em discurso na convenção do PT, no último dia 2, Lula também citou outro ponto de atrito na relação com o Congresso e declarou guerra ao orçamento secreto. Disse, por exemplo, que não vai mais ficar “chorando atrás da miséria que sobra do Orçamento” e anunciou novamente a intenção de mudar esse modelo.
“Vai ter briga com emenda parlamentar. Vai ter briga com o papel que tem o Poder Legislativo”, insistiu o presidente, numa referência aos R$ 50 bilhões previstos para emendas no Orçamento de 2026.
O programa de governo do PT, ao qual o Estadão teve acesso, diz ser preciso enfrentar essa “grave distorção”, mas não detalha o que fazer nem como mexer nesse vespeiro. Até agora, o assunto não passou pelo “pacto” do Planalto com Motta e Alcolumbre.
“Acho que isso é uma questão que tem de ser discutida”, afirmou Motta ao Estadão, em junho, quando questionado se a Câmara avaliaria eventual projeto enviado pelo governo para alterar os valores destinados às emendas. E concluiu: “Mas também acho muito difícil isso ser resolvido sem haver a concordância e anuência do Congresso”.
Fonte: Estadão





