
Faltam dez dias para o segundo turno das Eleições 2026, quando Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disputam a Presidência da República. Mais de 33 milhões de eleitores não compareceram às urnas no primeiro turno, cerca de 21,08% do eleitorado, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Entre as pessoas com 70 anos ou mais, para quem o voto é facultativo, a abstenção chega a cerca de 50%. Essa população, estimada em 17 milhões de pessoas aptas a votar, representa uma parcela significativa do eleitorado brasileiro e pode influenciar o resultado da disputa presidencial.
Especialistas ouvidos pelo VIVA apontam que a participação de eleitores mais velhos nas votações pode ser ainda mais desafiadora para quem vive em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs).
Dificuldades de locomoção, dependência de terceiros para o transporte e falta de informação sobre os serviços de acessibilidade podem impedir que residentes interessados em votar exerçam esse direito.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2022, indicam que mais de 160 mil pessoas vivem em ILPIs no Brasil.
Em todo o Estado de São Paulo, existem mais de 1.100 instituições. Na capital, a rede socioassistencial do município conta com 20 ILPIs, que acolhem mais de 600 pessoas, de acordo com a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS).
Questionada pelo VIVA sobre o número de residentes que votaram, a pasta informou que apenas dois moradores de uma mesma instituição manifestaram interesse em ir às urnas.
A secretaria afirma que, quando uma pessoa idosa manifesta interesse em votar, é viabilizado seu deslocamento até o local de votação. No entanto, o dado chama a atenção para a necessidade de identificar se os residentes conhecem seus direitos, têm interesse em participar das eleições e encontram condições para chegar às urnas.
Dificuldade de locomoção limita participação eleitoral
Segundo o médico geriatra Paulo José Fortes Villas Boas, membro da Comissão de ILPI da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), a idade avançada, as limitações funcionais e as alterações cognitivas são frequentes entre as pessoas que vivem nessas instituições.
São pessoas idosas, com uma faixa etária média de 80 anos. Via de regra, têm alguma incapacidade funcional, entre elas a dificuldade de locomoção.
Paulo José Fortes Villas Boas, membro da SBGG
De acordo com o especialista, cerca de metade dos residentes apresenta alterações cognitivas, embora a proporção possa variar conforme a instituição. Entre essas condições estão as síndromes demenciais, como a associada à doença de Alzheimer.
Ele destaca que essas características não significam, necessariamente, que a pessoa não possa decidir se deseja votar. O problema está nas condições necessárias para transformar essa vontade em participação efetiva.
De acordo com o médico, o transporte é outro entrave. A saída dos residentes costuma depender dos familiares, e as instituições nem sempre dispõem de estrutura para transportar pessoas com mobilidade reduzida até as seções eleitorais.
A falta de acessibilidade nos próprios locais de votação também pode dificultar a participação. Escolas com escadas, andares superiores sem acesso adequado e percursos incompatíveis com as necessidades de pessoas com mobilidade reduzida são exemplos de obstáculos que precisam ser considerados.
Direito ao voto e respeito
O senador Paulo Paim (PT-RS), autor da proposta que deu origem ao Estatuto da Pessoa Idosa, destaca que morar em uma ILPI não retira os direitos políticos de ninguém.
O direito ao voto é um dos pilares da democracia e não pode ser limitado pela idade, pela condição de saúde ou pelo fato de uma pessoa viver em uma Instituição de Longa Permanência para Idosos.
Paulo Paim, senador
Instituído pela Lei nº 10.741, de 2003, o Estatuto estabelece garantias relacionadas à liberdade, à dignidade e à cidadania. Para Paim, esses princípios também precisam orientar as condições de participação política das pessoas acolhidas em instituições.

“Não é apenas uma lei de proteção: é um instrumento de garantia de direitos e de respeito à autonomia de cada pessoa”, diz.
O parlamentar ressalta que a autonomia precisa ser respeitada na decisão sobre o voto. O incentivo à participação deve ocorrer sem pressão de familiares, cuidadores ou responsáveis pelas instituições.
dente se deseja votar e criar condições para que essa vontade seja respeitada, sem qualquer tipo de pressão ou interferência na escolha do candidato.
O senador também defende o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), dos conselhos de direitos e das políticas de cuidado de longa duração. Segundo ele, o envelhecimento da população exige planejamento e recursos permanentes, e não apenas iniciativas em períodos eleitorais.
Ele cita um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), baseado em dados do Censo do Sistema Único de Assistência Social (Censo SUAS), que identificou um aumento de 14,6% no número de unidades de acolhimento para pessoas idosas entre 2019 e 2023.

Falta de informação afasta pessoas idosas das urnas
De acordo com Paulo José Fortes Villas Boas, da SBGG, ampliar a participação eleitoral desse público depende de mudanças que envolvam toda a organização do processo de votação, desde a divulgação das informações até o acesso físico às seções eleitorais.
O desafio não é apenas incentivar as pessoas idosas a votar, explica o especialista. Ele ressalta que é preciso garantir que aquelas que desejam participar das eleições tenham condições reais de exercer esse direito. “Se o público 70+ for estimulado, ele participa”, diz.
Ao VIVA, o TSE informou que uma das alternativas para reduzir essas barreiras é o programa Seu Voto Importa, voltado à ampliação das condições de participação de eleitores com deficiência ou mobilidade reduzida, além de um Manual do Eleitor com orientações para pessoas idosas ou PcD.
No manual, é possível consultar orientações sobre o transporte especial oferecido pela Justiça Eleitoral, a possibilidade de receber auxílio de outra pessoa, inclusive para digitar os números na urna, o direito ao uso de tecnologias assistivas e os recursos de acessibilidade disponíveis, entre outros aspectos.
O órgão também destacou a existência de seções eleitorais instaladas em centros de convivência e instituições para idosos, além de 220.752 seções com recursos de acessibilidade nas eleições de 2026.
Entretanto, Villas Boas afirma que a divulgação desses serviços ainda é falha e precisa alcançar diretamente as pessoas idosas, seus familiares e as equipes responsáveis pelo cuidado nas instituições. “Raramente a gente escuta alguma propaganda, seja na televisão, no rádio ou mesmo na internet, sobre isso. O TSE e os TREs precisam fazer essa divulgação.”
O médico defende que a Justiça Eleitoral amplie a comunicação sobre os recursos disponíveis, para que os eleitores saibam como solicitar apoio antes da votação.
Ele também diz que a mobilização não deve ficar restrita às instituições. A participação depende de uma articulação entre os próprios residentes, familiares, gestores das ILPIs e órgãos eleitorais.
“No Amapá, houve uma iniciativa institucional organizada em parceria com o TRE, que ofereceu transporte gratuito para que as pessoas idosas residentes fossem da instituição até as urnas eleitorais. Nessa instituição, especificamente, 18 residentes participaram da eleição”, diz o especialista da SBGG.
Para Villas Boas, o exemplo mostra que a participação pode ser ampliada quando existe planejamento para atender às necessidades dos eleitores, respeitando a decisão individual de cada residente.
Fonte: Portal Viva





