
Aracy de Teixeira Lyra vai três vezes por semana à escola Américo de Oliveira, na zona norte do Rio, para trabalhar. Levanta cedo, chega ao colégio por volta das 9h e, antes das 14h, já está voltando para casa para descansar. “Ainda me sinto jovem para trabalhar”, brinca ela, prestes a completar 102 anos, em novembro.
A rotina se repete todas as segundas, quartas e sextas-feiras. Aracy é a diretora da escola que ela mesma fundou há 73 anos, em 1953. O nome é uma homenagem ao pai, Américo de Oliveira, que ela aprendeu a admirar por ser um homem que prezava pela educação.
“Gosto muito de dar aula, de conversar, orientar, dirigir crianças e fazer delas pessoas responsáveis para que as vidas que vão atravessar sejam boas”, diz a educadora centenária à reportagem.
A escola fica em Marechal Hermes, na zona norte do Rio. Lá, Aracy é celebridade e recebe homenagens com frequência. Formou gerações da mesma família e serviu de inspiração para alunos que hoje viraram colegas de profissão.
Uma situação recente dá a medida do prestígio que ela tem entre as famílias da região. Era final de setembro e o Américo de Oliveira dava uma festa para comemorar os 73 anos de fundação. Uma aluna de 6 anos, então, corre em direção a Aracy. “Essa menininha então virou para mim e falou: ‘Meu avô foi seu aluno. Como ele faz para entrar em contato com a senhora?’”, lembra.
Hoje, Aracy se locomove com a ajuda de um andador, mas preserva uma voz firme e um raciocínio articulado. Lúcida, gosta de dizer que o trabalho é uma “obra de Deus” e garante que cuidar da escola que fundou não a deixa cansada.
Apesar disposição, Aracy já não está mais à frente das salas de aula. Suas tarefas costumam ficar restritas a questões administrativas da escola e orientações pedagógicas. Sempre que pode, encontra brechas no dia para fazer o que mais gosta: receber os alunos na sua sala e dar conselho aos que precisam de ajuda.

“É de mãozinha dada, de passar a mãozinha na cabeça deles e agir. Para mim, os jovens hoje não são ruins. São ótimos. Mas o que a vida está oferecendo a eles está um pouco difícil”, conta.
Ela lembra de uma história: um jovem da escola não fazia os deveres de casa. Conversando com o menino, descobriu que depois de escola, a criança tinha que acompanhar a mãe em outras atividades fora de casa. Quando tinha tempo para fazer a lição, já era tarde e acabava dormindo.
Aracy escutou com atenção. Chamou a mãe na escola e propôs uma saída: “Sabe quem está cuidando das crianças hoje? As avós.”
A história deu a deixa para a diretora do Américo de Oliveira criticar o excesso de tarefas que sobrecarregam as mulheres hoje em dia. “Elas estão muito sacrificadas. Além dos trabalhos dentro de casa, que são imensos, elas estão na rua trabalhando também.”
Quando não vai para o Américo de Oliveira, a educadora frequenta o centro espírita Maria Angélica às terças-feiras e, às quintas, passa por sessões de fisioterapia e hidroterapia.
Além do cuidado espiritual e físico, ela segue uma dieta nutricional adventista: come apenas carne de peixe, muitos legumes, saladas e não costuma colocar sal na comida nem beber líquidos durante as refeições. “Sem uma boa alimentação não se chega a lugar nenhum.”
História
Aracy nasceu em Vitória, no Espírito Santo, em 1924. Na época, ensinar era um caminho natural em uma região que oferecia poucas oportunidades de trabalho às mulheres. “Cabia a escolha apenas entre enfermagem e professora. Então, escolhi (ser) professora.”
Formada e casada, mudou-se para o Rio de Janeiro. Começou a dar aulas no quintal de casa, já em Marechal Hermes, para estudantes interessados em ingressar no Colégio Militar. Seu filho, Ubiratan Lyra, hoje também diretor do Américo de Oliveira, era um dos seus alunos.
Com o alto nível de aprovação dos estudantes que passavam pelas mãos de Aracy, a professora capixaba passou a ficar conhecida no bairro. “Começou esse alvoroço em Marechal Hermes. Quem é a Dona Aracy?”, lembra o filho dela.
A professora capixaba passou a receber mais alunos e deixou de fazer só a preparação dos estudantes para o Colégio Militar. Começou a dar aulas de ensino básico para algumas turmas. Com a ampliação das classes e a constante procura pelos seus serviços, ela resolveu fundar a escola Américo de Oliveira, em 1953, e batizá-la com o nome de seu pai para homenageá-lo.
“O homenageei pela educação que ele nos deu. Educação rigorosa, exigente, mas também com muito amor. Devo muito a ele e à minha mãe tudo o que eu recebi”, diz.
A escola, que antes funcionava no quintal de uma casa, passou para um sobrado, se transferiu para um prédio adquirido e hoje está com duas unidades na região. Para dar conta de tudo isso, Aracy tem a ajuda do filho Ubiratan, que largou a profissão de engenheiro da Marinha no início da década de 1990 para se dedicar de forma exclusiva à direção e à coordenação do colégio.
“Peguei experiência com a pessoa que entende, né”, diz Ubiratan, que nunca tinha tido nenhuma experiência com educação antes. “E até hoje eu pego experiência e aprendi com ela. Caráter, dignidade, força de vontade. Não é fácil chegar aos 101 anos — vai fazer 102 em novembro — com essa energia e essa vontade de trabalhar.”
Sobre o filho, Aracy também é só elogios: “Ele é excelente, (tem muita) dedicação. Sou muito grata a tudo o que ele vem fazendo. Faço tudo isso com muito amor. E agora, com a presença do filho, está tudo completo.”
Fonte: Estadão





