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Um bom começo

Os cuidados na primeira infância repercutem por toda a vida — Foto: Freepik

Agosto é o Mês da Primeira Infância — uma celebração oficializada por lei e um convite à sociedade para olhar com mais atenção, cuidado e responsabilidade para os primeiros seis anos, os mais decisivos da vida humana.

Este ano a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV), dedicada ao tema, lançou a campanha “A primeira infância é pra vida toda”. A frase diz tudo: precisamos difundir a ideia de que as vivências e os cuidados oferecidos nessa fase repercutem intensamente ao longo de toda a nossa existência.

A primeira infância é uma janela de oportunidades. De 0 a 6 anos, o cérebro humano pode formar até um milhão de conexões por segundo. É nesse período que se constroem os alicerces da saúde física, mental, emocional e social, da cognição e do aprendizado, das múltiplas habilidades necessárias para viver em sociedade.

Segundo James Heckman, Prêmio Nobel de Economia em 2000, cada dólar investido na primeira infância gera retorno de 7 dólares. Os resultados em saúde, habilidades, aprendizagem e cidadania são tão bons que configuram uma “pré-distribuição de renda”, reduzindo custos com programas compensatórios no futuro.

Mas ainda estamos longe de compreender a importância desse período. Uma pesquisa da FMCSV com o Datafolha, recém publicada, mostra que 42% das pessoas não sabem o que significa primeira infância. Só 4% dos responsáveis por crianças acertam a faixa etária correspondente. Impressionantes 84% não consideram essa fase como a mais importante: para 41%, o auge do desenvolvimento ocorre na idade adulta, e para 25%, na adolescência.

Quase 30% dos cuidadores ainda admitem usar palmadas ou beliscões como forma de disciplina. Em torno de 50% gritam, ameaçam, castigam — estratégias ineficazes, mas profundamente enraizadas em nossa cultura. Por outro lado, apenas 63% dos entrevistados apontam o brincar livre como prática importante para o desenvolvimento, como é amplamente demonstrado pela ciência.

A pesquisa mostra também a trágica magnitude do uso excessivo de telas: 78% das crianças de até 3 anos e 94% das de 4 a 6 anos passam em média de 2 a 3 horas por dia em contato com TV, celular, tablet ou computador.

O Brasil já dispõe de uma ampla gama de mecanismos para a promoção da primeira infância segura e saudável. O artigo 227 da Constituição Federal afirma que Estado, família e sociedade devem garantir, com absoluta prioridade, os direitos fundamentais das crianças, e protegê-las de negligência, discriminação, exploração, violência e opressão. O ECA, uma grande conquista da infância, regulamentou o artigo 227; e o Marco legal da Primeira Infância, de 2016, estabeleceu as diretrizes para a criação de políticas que apoiem o desenvolvimento das crianças nessa faixa etária.

E no último dia 5 de agosto o governo federal lançou a Política Nacional Integrada para a 1ª Infância (PNIPI), propondo a integração intersetorial de políticas de saúde, educação, assistência social e segurança de municípios, estados e União, com foco no cuidado integral da criança e na família. Um banco de dados unificado vai permitir acompanhar o desenvolvimento infantil, gerar alertas para vacinação, retorno ao pediatra, matrícula em creches e campanhas regionais.

Muitas cidades já implementam excelentes Planos Municipais de 1ª Infância, com resultados concretos. Estratégias como essas consolidam o cuidado com a criança como prioridade de Estado, e posicionam o Brasil como referência global no tema.

Investir em políticas públicas para a primeira infância e educar as famílias para cuidar melhor dos pequenos pode romper de ciclos de pobreza, de violência, de exclusão. Permite que uma criança cresça com vínculos seguros, alimentação adequada, estímulo, proteção e afeto e leve os benefícios desse cuidado para o resto da vida. Indivíduos e sociedade só têm a ganhar, e muito.

Por Daniel Becker – via O Globo