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Todos envelheceremos, não importa em quem você votou

No Brasil, entre 1940 e 2024, a expectativa de vida ao nascer saltou de 45,5 para 76,6 anos – oneinchpunch/Adobe Stock

As eleições terminaram, mas as trincheiras ideológicas e o tiroteio online ainda dividem o Brasil e, tragicamente, corroem a possibilidade de se criar consensos sobre o presente e o futuro. Em seu novo livro “Sem respeito: uma crise social”, o filósofo Byung-Chul Han argumenta que a incapacidade de respeitar o outro está minando a convivência humana. Respeito exige distância reflexiva, algo central para se olhar mais longe.

Enquanto na superfície nos desgastamos na lógica da hiperproximidade, do desempenho sem descanso e da acelerada comunicação digital, uma transformação profunda e inevitável avança: o rápido envelhecimento da população brasileira. Diante de um tecido social esgarçado, uma provocação necessária: um projeto de longevidade é capaz de repactuar e unir uma nação?

Todos envelheceremos —não importa em quem você votou, ou em quem você jurou jamais votar— ainda que não o façamos com as mesmas condições sociais e privilégios. Se há um tema que deve nos unir, é a necessidade de buscarmos, coletivamente, um envelhecimento e uma longevidade dignos. Esse esforço exige políticas públicas responsáveis, participativas e com uma perspectiva de longo prazo, para além das agendas ideológicas ou partidárias.

A mudança demográfica que levou séculos na Europa, ocorreu em poucas décadas no Brasil. Entre 1940 e 2024, a expectativa de vida ao nascer saltou de 45,5 para 76,6 anos. Hoje, quem chega aos 60 anos vive, em média, mais 22,6 anos (sobretudo mulheres). A população com mais de 60 anos já representa 16% dos brasileiros. Em 2070, ela será 40%. Mas o envelhecimento não é neutro: fatores socioeconômicos, culturais e políticos o atravessam —o que, em um país desigual como o Brasil, ganha contornos extremos.

A ciência do envelhecimento diferencia a expectativa de vida (lifespan) da expectativa de vida saudável (healthspan). Dados da The Lancet Public Health mostram que a diferença entre os dois no Brasil —portanto, os anos de vida em más condições de saúde— é de assustadores 12,5 anos, na média. O mesmo estudo aponta que vivemos um número de anos comparável a países como EUA, mas, se olharmos os anos de vida saudável, estamos mais próximos da Líbia. Este cenário, porém, pode ser modificável. O desafio não é apenas viver mais, mas melhor por mais tempo, se possível livre de doenças, ou que estas tenham menor impacto na autonomia e qualidade de vida.

A ciência mostra que podemos alterar nossa trajetória de envelhecimento e de riscos de doenças com modificações de estilo de vida. Muitas delas já conhecemos bem: alimentação saudável, exercício físico, relacionamentos sociais de qualidade, cuidado com a saúde mental, combate ao uso de álcool e outras drogas, e manejo de risco cardiovascular e metabólico (como colesterol, diabetes, hipertensão). A evidência científica também mostra que a prevenção é a estratégia mais eficiente para envelhecer bem. Portanto, essa não é apenas uma agenda para a população com mais de 60 anos. Cuidar do envelhecimento nos obriga a olhar para o desenvolvimento humano ao longo da vida e dialogar com grupos mais jovens, com ênfase na população com 40 anos ou mais.

Colocado nesses termos, o debate sobre o envelhecimento deixa de se limitar a escolhas individuais e passa a ser compreendido como uma construção coletiva de longo prazo. Do lado do governo, um projeto nacional sobre longevidade digna não pode se limitar a questões específicas de previdência e saúde, ou a uma agenda partidária de projetos breves, sujeitos a travas burocráticas e poucos recursos. É preciso um olhar transversal que perpasse as diferentes instâncias do Estado —economia, segurança pública, educação, trabalho, urbanismo, transporte, saúde e assistência. O ponto de partida são as conquistas das últimas décadas —o SUS (Sistema Único de Saúde), a Farmácia Popular e o Plano Nacional do Cuidado (incluindo Brasil que Cuida)— e a busca por trazer à realidade brasileira as melhores experiências internacionais.

Países que perceberam essa urgência já começaram a desenhar arquiteturas institucionais focadas na governança transversal, transformando o envelhecimento em uma pasta estratégica. Isso não necessariamente significa onerar mais o Estado, mas torná-lo mais eficiente. Por exemplo, uma agência ou ministério extraordinário pode ser enxuto, com orçamento pequeno, para garantir o envelhecimento como agenda nas discussões nacionais, acolher demandas e articular a efetivação de políticas na área.

Um bom exemplo é o Japão, uma das nações mais longevas do mundo, que estabeleceu um cargo de ministro para Medidas contra a Queda da Natalidade e Sociedade Envelhecida. Essa instância articula políticas que unem o Ministério das Finanças ao da Saúde, redesenhando desde a infraestrutura de transporte público até programas de reinserção de idosos no mercado de trabalho e incentivos à robótica assistiva. No Reino Unido, a criação de uma Secretaria para a Solidão melhorou métricas fundamentais sobre o isolamento social, que afeta drasticamente a população com 60 anos ou mais. Outros países, como Coreia do Sul, Cingapura e Israel têm iniciativas similares.

Transformar o envelhecimento e a longevidade em um projeto nacional envolve um pacto amplo de saúde com políticas públicas e requer participação social, acesso à informação e cuidado intergeracional. Não podemos esquecer da relevância em se melhor aliar saúde à educação ao longo da vida (um fator de prevenção de Alzheimer e demências associadas). Precisamos ainda aprender a direcionar recursos de um país para garantir que o bônus demográfico dos anos vividos seja valorizado e não se transforme em um ônus de solidão, adoecimento, desamparo e aumento de mortalidade. E devemos continuar o combate ativo ao idadismo que nos convoca a reinventar nosso próprio envelhecimento em diferentes gerações.

Sobretudo, o envelhecimento acelerado do Brasil nos obriga a repensar e escolher. Podemos continuar no caminho da divisão partidária e ideológica, que dificultam a governança e políticas de Estado. Ou podemos nos unir em torno de um desafio comum, amparados pela boa ciência, pelas conquistas institucionais das últimas décadas e por excelentes modelos globais de governança: um projeto sobre respeito à população brasileira, ao cuidado e à nossa convivência humana.

Por Sharon Sanz Simon – psicóloga, neurocientista, professora na Universidade Rutgers (EUA), e autora do livro ‘Longevidade Hoje’ & Leandro Minozzo – É médico geriatra e idealizador da Lei Nacional de Alzheimer – via Folha de S. Paulo