Quando chegar o dia da eleição e você estiver diante da urna, pare por alguns segundos e faça uma pergunta simples: que país estou ajudando a construir para meus filhos e meus netos?
O voto leva poucos segundos. O mandato dura quatro anos. E algumas decisões políticas podem produzir consequências por décadas. Na urna, todos são iguais. O voto do rico vale o mesmo que o do pobre. O do jovem vale o mesmo que o do idoso. Não importa sexo, origem, religião ou condição social. É um voto para cada cidadão.
Talvez por isso o voto seja tão valioso. Mas também é curioso observar o comportamento de parte dos eleitores. Durante quatro anos reclamam da saúde, da segurança, dos impostos, da corrupção, das estradas, da educação e da falta de oportunidades. Quando chega a eleição, porém, votam exatamente nos mesmos grupos políticos. Depois voltam a reclamar. Quatro anos depois, repetem o processo. É quase um ciclo perfeito: reclama, vota nos mesmos, reclama novamente e depois pergunta por que nada muda.
Em alguns lugares, a política parece até patrimônio familiar. Sai o pai, entra o filho. Sai o marido, aparece a esposa. Quando não é um, surge outro sobrenome conhecido, apresentado como grande novidade. Muda a fotografia. O grupo permanece. E o eleitor confirma. Por isso, antes de votar, talvez seja preciso olhar no espelho e perguntar: estou realmente escolhendo ou apenas obedecendo ao costume?
O cabresto moderno raramente aparece feito de couro. Muitas vezes ele vem disfarçado de amizade, favor, promessa, emprego, conveniência ou tradição familiar. “Minha família sempre votou nele.” “Ele conhece meu pai.” “Talvez consiga alguma coisa para mim.” “É melhor não mexer nisso.” E assim o voto deixa de ser escolha e passa a ser hábito.
Só que eleição não é torcida de futebol. Político não é time. E muito menos religião. O eleitor não precisa defender candidato como se defendesse um parente. Pelo contrário. Quanto mais você gosta de um político, mais deveria fiscalizá-lo.
O Brasil também está inserido em uma disputa internacional cada vez maior. Estados Unidos, Europa, China, Rússia e outras potências disputam mercados, tecnologia, influência política, energia e recursos estratégicos. O Brasil, pela dimensão econômica, pela agricultura, pelas riquezas naturais e pela posição geográfica, está no centro dessa disputa. Não significa que o país precise escolher um único parceiro comercial. O Brasil pode e deve negociar com diferentes nações quando isso for de interesse nacional.
Mas existe uma diferença importante entre comércio e modelo de sociedade. O eleitor precisa perguntar quais valores deseja preservar. Queremos liberdade de expressão? Liberdade religiosa? Eleições livres? Alternância de poder? Imprensa independente? Direito de criticar governos? Segurança jurídica? Respeito às instituições? Essas perguntas ultrapassam esquerda e direita. São perguntas sobre democracia. É nesse contexto que escolher presidente, governador, senador ou deputado se torna algo muito mais sério do que apertar números na urna.
Estamos autorizando alguém a administrar bilhões de reais, criar leis, fiscalizar governos e tomar decisões que afetarão milhões de pessoas. São quatro anos de poder concedido pelo eleitor. Por isso, também é preciso abandonar a ideia de que político faz favor. Hospital, escola, estrada, segurança pública e obras não são presentes de políticos. São obrigações custeadas pelo dinheiro da própria sociedade.
Da mesma forma, eleitor não deveria vender sua consciência por promessa, cargo, amizade ou benefício pessoal. Quando surgirem denúncias ou investigações envolvendo candidatos, é preciso equilíbrio. Onde há fumaça, há fogo. Não corra riscos com o futuro do país: candidato sob suspeita não merece a sua confiança nem o seu voto.
Também vale procurar novos nomes. Pessoas mais jovens ou que estejam entrando na política podem trazer renovação, independência e disposição para enfrentar estruturas antigas. Há jovens com boas práticas e pessoas experientes com comportamento digno. O que importa é analisar trajetória, coragem, independência, propostas, coerência e comportamento público. Renovação verdadeira significa trocar de práticas. Por isso, antes de votar, faça outra pergunta: Por que estou votando nessa pessoa? É porque acredito no projeto? Porque ela demonstrou capacidade? Porque fiscalizou? Porque apresentou resultados? Porque enfrentou interesses poderosos? Ou simplesmente porque sempre votei nesse grupo? Talvez essa seja a pergunta mais importante de todas.
Quando for votar, reflita: você está escolhendo o futuro ou apenas repetindo o passado?






