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Quem disse que ter filhos é um seguro contra a solidão na velhice?

“Velha egoísta, infeliz, coitada, sofredora e mal-amada”. Ela ainda acrescentou: “feminista!”

Esse foi o comentário que recebi no meu Instagram depois que postei uma homenagem a Gloria Steinem, que morreu no dia 2 de setembro, aos 92 anos.

Minha seguidora estava indignada porque, como Gloria Steinem, decidi não ter filhos. É impressionante como, até hoje, amigas, colegas de trabalho, mulheres que nunca vi na minha vida não aceitam o fato de eu ter decidido não ser mãe. Por que será que os homens nunca me fazem esse tipo de questionamento?

“Quem vai cuidar de você na velhice?” é a pergunta que mais escuto delas.

Quem vai cuidar de mim? Já sou velha e já estou cuidando de mim. Não acredito que ter filhos é um seguro contra a solidão nem uma garantia de que vou ser cuidada no futuro. Aliás, grande parte da violência física, verbal e psicológica, do abuso financeiro e da negligência contra pessoas idosas tem como autores os próprios filhos.

“Você não tem medo de se tornar uma velha deprimida, desamparada e solitária? Não tem receio de se arrepender e descobrir tarde demais que não teve a experiência mais importante da vida de uma mulher?”

Não me arrependo e não penso em adotar uma criança para compensar um possível fracasso como mulher. Não acredito no “mito da maternidade” e continuo com muito “tesão na alma” pelos meus projetos de vida: escrever, estudar e pesquisar sobre os caminhos para construir uma “bela velhice”.

“Você vai ser a tia dos gatos?”

Já pensei em adotar um gatinho vira-lata, mas como tenho asma, bronquite, sinusite, rinite e alergia, meus médicos me desaconselharam.

Em 2024, segundo o IBGE, 18,6% dos domicílios brasileiros eram unipessoais: quase um em cada cinco. Entre as pessoas que moravam sozinhas, 44,9% eram mulheres. Um dado merece destaque: 55,5% das mulheres que moravam sozinhas tinham 60 anos ou mais.

O Censo 2022 mostrou que 16,1% das mulheres brasileiras entre 50 e 59 anos nunca tinham tido filhos. Em 2000, eram 10%. No Sudeste, esse percentual chegou a 18%.

Segundo pesquisa global realizada pela Bayer em 2019, com apoio da Febrasgo e do Tanco, 37% das brasileiras não querem ter filhos.

Uma projeção da Morgan Stanley aponta que, em 2030, 45% das mulheres americanas entre 25 e 44 anos estarão solteiras.

Os divórcios também estão crescendo. Em 2024, segundo o IBGE, o Brasil registrou mais de 428 mil. A idade média das mulheres no momento do divórcio já passou dos 41 anos.

Na minha pesquisa sobre envelhecimento, autonomia e felicidade, perguntei: “Quem vai cuidar de você na velhice?”

Os homens responderam: minha esposa, minhas filhas e minhas netas.

Já as mulheres responderam: eu mesma. Depois, minhas amigas. Algumas delas, inclusive mulheres que são casadas e têm filhos, sonham em morar com as amigas na velhice.

A minha escolha de não ter filhos não é mais uma exceção. Ela já é realidade para um universo cada vez maior de mulheres que querem ser protagonistas da própria vida.

Apesar de tantas transformações, ainda existem preconceitos e estigmas em torno da mulher que decidiu não ter filhos. Para muitas mulheres, ter filhos parece funcionar como uma espécie de plano de aposentadoria afetiva.Por isso, para algumas, eu devo ser uma “velha egoísta, infeliz, coitada, sofredora e mal-amada”. Além de “feminista”!

Não está na hora de trocar os óculos da “velhofobia” pelos óculos da “velhautonomia” e respeitar as escolhas de cada mulher que quer inventar a própria “bela velhice”, com ou sem filhos?

Por Mirian Goldenberg – Antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autora de “A Invenção de uma Bela Velhice”