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Me deixem envelhecer em paz!

“Nossa, o que aconteceu com a Amanda Peet? Você viu como ela envelheceu? Ela era tão linda. Está irreconhecível. Demorei a perceber que era a mesma atriz do filme ‘Alguém Tem que Ceder'”.

Nos feriados, assisti com meu marido a todos os episódios da deliciosa série “Seus Amigos e Vizinhos”.

Não vou dar spoiler nem analisar a trama do ricaço ambicioso que, ao perder o emprego, passa a roubar as casas dos seus vizinhos milionários.

Apesar de ter gostado da série, o que mais me impactou foi a observação do meu marido. “Você viu como ela envelheceu? Ela era tão linda”.

O impacto foi ainda maior quando, em seguida, assistimos novamente ao filme “Alguém Tem que Ceder” (2003).

Lógico que a atriz estava bastante diferente no filme e na série. Não apenas porque mais de 20 anos se passaram, mas principalmente porque ela não se rendeu ao botox, cirurgias plásticas e outros procedimentos da indústria da juventude eterna.

Amanda Peet disse, em 2016, que estava se sentindo sendo expulsa de Hollywood por causa da concorrência com atrizes mais jovens.

“Procedimentos como plástica e botox seriam um pouco mais ousados para mim. Até gostaria de parecer mais jovem, mas tenho medo… Tenho 44 anos e cada vez mais cara de mãe. A concorrência é injusta”.

Em entrevistas recentes para divulgar a nova série, ela revelou que, em 2025, descobriu um tumor nos seios. No momento em que descobriu o câncer, ela cuidava dos pais. O pai morreu no ano passado, e a mãe em janeiro de 2026.

Ao ser questionada sobre a sua reação ao descobrir o câncer, ela disse que sentiu terror e pensou imediatamente nos três filhos.

A atriz apontou a dificuldade de envelhecer em um mundo que valoriza a juventude acima de tudo. Disse que a competição em Hollywood gera um ambiente onde o desespero e a comparação doentia dominam as atrizes. Confessou também a sua ambivalência: ao mesmo tempo em que sofre com as comparações com mulheres mais jovens, teme perder a identidade com procedimentos invasivos.

“Eu não fiz nenhum procedimento na minha face. Não preciso nem explicar isso, pois é evidente para todo mundo. Tenho muitas amigas que fizeram, muitas que não fizeram. Fico pensando na minha identidade, em quem eu sou. Se eu faço ou não faço procedimento, o que isso importa?”

Em vez de ceder às pressões, ela prefere se dedicar a projetos que realmente tragam um propósito pessoal e que sejam úteis para a sociedade de alguma forma. “A idade me trouxe mais paz interior”, disse.

Após mais de três décadas de pesquisas sobre envelhecimento, autonomia e felicidade, tenho a certeza de que, apesar dos sofrimentos inevitáveis com a velhice, o importante não é preservar a qualquer custo a aparência jovem, mas os propósitos que dão significados às nossas vidas.

Envelhecer, em uma cultura velhofóbica, é uma espécie de morte simbólica. É sinônimo de feiura, decrepitude e doença. Infelizmente, muitas mulheres reproduzem a velhofobia quando criticam outras mulheres, famosas ou não, que querem envelhecer sem se submeter às pressões da ditadura da juventude.

Há, não apenas em Hollywood, a cobrança de que “consertemos” nossas faces envelhecidas pelas rugas, manchas, pálpebras caídas e bigode chinês… E também papada no pescoço, flacidez nos braços, celulites nas pernas, pelancas na barriga e muito mais.

Até quando vamos aceitar um ideal de juventude que aprisiona mulheres de todas as idades?

Me deixem envelhecer em paz!

Por Mirian Goldenberg – Antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autora de “A Invenção de uma Bela Velhice”