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A aliança com as trevas, omissão, “politicamente correto”

As eleições chegaram, e com elas a velha comédia de sempre: de um lado, igrejas e cristãos que, tomados por um súbito zelo espiritual, preferem não se envolver com política e políticos – “isso é coisa do mundo”, “isso é coisa do demônio”, “aqui não entra” –, como se votar, participar da vida pública ou defender princípios cristãos na sociedade fosse uma perigosa contaminação. Do outro, estão os mais “práticos”, que não apenas abrem as portas, mas escancaram-nas para as velhas raposas da política, estendem o tapete, oferecem o microfone, recebem promessas na ante-sala e, quando possível, negociam cargos, favores e benesses, tudo, naturalmente, em nome da boa causa. Curiosamente, para uns, política é pecado; para outros, pecado mesmo parece ser perder uma oportunidade.

Que época maravilhosa para se viver a fé cristã sem nenhum tipo de aborrecimento! Afinal, hoje em dia aprendemos a versão atualizada e gourmetizada do Evangelho: aquela em que Jesus morreu na cruz para nos garantir o passaporte para o céu, dar passe livre para a nossa carteira de trabalho e, claro, nos ensinar a ser extremamente “politicamente corretos”.

Afinal, quem foi que disse que crente tem que peitar o sistema corrompido? Isso é coisa de fanático! O moderno seguidor de Cristo descobriu que o segredo da piedade está na arte sublime de fechar os olhos. O emprego está em jogo? O político de estimação rouba, mas “faz”? O amigo influente te deu um empurrãozinho no passado e agora exige lealdade incondicional? Puxa vida, o que você pode fazer contra as engrenagens do poder? Afinal, “não posso me prejudicar”. É a famosa prudência moderna: vender a consciência em suaves prestações e continuar achando que está com a vida ganha na eternidade.

O raciocínio dessa corja de crentes acomodados é genial na sua hipocrisia: “Já estou salvo mesmo, aceitei a Jesus na infância, batizei nas águas, frequento o templo três vezes por semana e dízimo em dia. O que eu faço na política, se encubro um corrupto ou faço campanha para o ímpio em troca de um favor ou carguinho, é detalhe. Deus entende o meu lado, afinal, a carne é fraca e o boleto vence todo mês.”

No entanto, ser contra a conivência e o silêncio covarde não significa de modo algum a abstenção da vida pública ou a rejeição da política. O cristão não é chamado a fugir do mundo, mas a ser sal e luz dentro dele (Mateus 5:13-16). É perfeitamente legítimo ser político, ocupar cargos públicos, legislar, concorrer a eleições e exercer autoridade. A grande questão não é estar na política, mas como se está nela.

O verdadeiro crente na política existe para equilibrar a balança da justiça, ser uma voz dissonante contra o erro, votar abertamente contra o mal, expor as injustiças e defender inflexivelmente os ensinamentos cristãos. Estar no poder ou em um cargo não é licença para se curvar ao esquema partidário, mas uma missão de joelhos no chão e coluna erguida contra a corrupção. E, para isso, o cristão tem o dever moral e espiritual de usar o seu voto com discernimento: o cristão deve votar em candidatos que demonstrem temor a Deus, princípios firmes e retidão, e não em ímpios corruptos apenas por conveniência clubística ou promessas de favores futuros.

A Palavra de Deus fundamenta com precisão esse padrão elevado para a atuação pública e a escolha de líderes:

  • Provérbios 29:2: “Quando os justos governam, o povo se alegra; mas quando o ímpio domina, o povo suspira.”
  • Êxodo 18:21: “Procura dentre todo o povo homens de capacidade, tementes a Deus, homens de verdade, que aborreçam a avareza…”
  • Provérbios 24:11-12: “Livra os que estão sendo levados para a morte… Se disserses: Eis que não o sabemos; não o perceberá aquele que pesa os corações?”
  • Tiago 4:17: “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado.”
  • Provérbios 17:15: “O que justifica o ímpio, e o que condena o justo, são abominação ao Senhor.”

Charles Spurgeon já alertava: “Se você professar a verdade de Cristo de forma a se dar bem com o mundo, você pode ter certeza de que há algo errado com a sua fé.” Billy Graham complementava: “A maior ameaça à igreja hoje não vem de fora, mas de dentro: o crente que vende sua consciência no altar da política partidária.”

Conclusão: O cristão pode e deve estar na política para ser sal, luz e correção, votando com o joelho no chão e a consciência limpa. Ou a Igreja abandona de vez a prostituição política com os ímpios, ou continuará fingindo que adora a Deus enquanto serve aos ídolos da conveniência.

Por Naime Márcio Martins Moraes – advogado – professor universitário – planejamento sucessório