
O Brasil é um país cheio de fé. Quando se trata de religião, que é quando se tem fé em um mundo divino e sagrado mesmo sem poder vê-lo ou provar que ele existe, só 9,3% dos brasileiros afirmam não ter essa conexão.
Esse é um dado do Censo de 2022, um levantamento feito no país todo para entender melhor quem são e quais são os hábitos das pessoas que moram aqui. Mas a fé não está necessariamente ligada à religião. A palavra, que tem origem no latim “fides” e significa confiança absoluta, pode estar conectada a várias coisas da vida.
Dá para ter fé na ciência, por exemplo. Durante a pandemia da Covid-19, quando o mundo aguardava ansioso uma solução, muita gente falou publicamente que confiava na capacidade dos cientistas de criar rapidamente uma vacina contra a doença.
Também é possível ter fé na educação, acreditando que ela pode sanar boa parte dos problemas da humanidade. Ou na arte, que com sua beleza pode deixar a vida das pessoas melhor. E há ainda a fé em si mesmo, quando acreditamos fortemente na nossa capacidade de enfrentar os desafios.
“A fé é a confiança. Quando uma criança confia em alguém maior, que pode ser a mãe ou o pai, por exemplo, ela confia e ama de forma incondicional esse alguém. É como se ela desse a mão para essa pessoa maior e fosse dirigida e sustentada por ela. Isso é a fé”, afirma Júlio Lancellotti, pedagogo e padre da Igreja Católica, pároco da Igreja São Miguel Arcanjo, em São Paulo.
No Brasil, segundo o Censo de 2022, 56,7% da população declaram ter fé na religião católica, a mesma do padre Júlio. Depois deles, há 26,8% de evangélicos, 1,8% de espíritas, 1% de pessoas com fé em religiões de matriz africana (umbanda e candomblé), e 4,4% de quem afirma ter outras crenças.
“A fé é como uma luz que mora dentro da gente”, diz o babalaô Luis Guilherme Santos, da Casa Manoel do Congo, em São Paulo. “Às vezes, a gente precisa caminhar por um caminho difícil e parece que está sozinho. Mas, mesmo sem conseguir explicar, sentimos que existe algo que nos acompanha, nos protege e nos dá coragem para continuar. Essa certeza faz com que o medo fique menor e o coração fique mais tranquilo.”
De acordo com quem tem fé, ela é algo muito presente, mas também completamente invisível. Talvez por isso, quem não se identificou até hoje com uma religião ou uma crença específica às vezes pense que não “sabe” ter fé.
Essa sensação é comum, e não há nada de errado com quem se percebe dessa forma. “A fé é uma decisão, um caminho, uma busca”, afirma padre Júlio.
Para Luis Guilherme, é possível aprender a viver a fé, mas essa é uma decisão individual, que não pode ser imposta por ninguém –até porque, ninguém pode acreditar e confiar no lugar da gente. “Na umbanda, entendemos que a fé nasce do encontro entre a nossa consciência, a nossa experiência e a nossa entrega. Quanto mais nos abrimos para viver esse caminho, mais percebemos a presença do sagrado em nossa vida. Por isso acredito que todos nós nascemos com a capacidade de desenvolver a fé.”

Padre Júlio concorda que não existe uma fé automática, ou ainda uma fé que seja possível “comprar”. É, isso sim, algo que se vive no dia a dia, como acontece com o amor, por exemplo. Para ele, é parecido com se sentir amado por alguém e, por isso, passar a amar também. “A fé ajuda a enfrentar os desafios da vida, o cansaço, o sofrimento, a falta de esperança, o desalento, a doença”, completa.
Luis Guilherme acredita que um bom começo para quem se interessa em encontrar a fé é observar como ela acontece dentro de casa, em meio à família. “Aprendemos observando nossos pais, nossos avós ou as pessoas que nos ensinam a rezar, a agradecer, a respeitar a natureza e a confiar na vida. Esse é o nosso primeiro contato com a fé.”
Fonte: Folha de S. Paulo





