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Por que o Brasil tem tantos golpes virtuais e roubos de celular?

Cartaz alerta população sobre assaltos em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. Foto: Acervo Pessoal

O Brasil passa por uma epidemia de golpes, com 2,26 milhões registros desse tipo em 2025. Com modus operandi em que bandidos por vezes recorrem à inteligência artificial e burlam até ferramentas de biometria facial, os crimes desse tipo assustam pela sofisticação, e aumentam o medo de ter o celular roubado – o aparelho das vítimas é o principal meio utilizado pelos estelionatários.

As imagens de telefones levados por ladrões – em ações rápidas e, muitas vezes, violentas – se multiplicam. As ocorrências, mesmo em queda, seguem em patamar elevado. Foram cerca de 830 mil de roubos e furtos de celular por ano – 95 aparelhos por hora -, segundo o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, publicado nesta quinta-feira, 23. Especialistas afirmam ainda que, tanto para golpes quanto para roubos de celular, há alto índice de subnotificação.

Propostas para enfrentar desafios como esse serão discutidas no terceiro encontro do Brasil Adiante, série de eventos promovida pelo Estadão nos meses que antecedem as eleições de outubro, para construir uma agenda integrada e executável de soluções para os primeiros 24 meses do próximo governo (leia mais abaixo).

“É um dos graves problemas da segurança pública no Brasil: uma explosão do crime cibernético. O criminoso percebe que vale muito mais a pena cometer golpes porque a chance de ser pego é pequena, e o investimento do Estado é muito baixo para isso”, afirma Rafael Alcadipani, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Conforme pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em parceria com o Instituto Datafolha, 15,8% dos brasileiros – ou cerca de 26,3 milhões de pessoas – relatam que foram “vítimas de um golpe e perder dinheiro pela internet ou celular”. Idosos e pessoas mais pobres estão entre os mais vulneráveis a esses crimes.

As polícias, por outro lado, têm dificuldade de se atualizar e se desprender da lógica de patrulha nas ruas. “É necessário mudar toda a competência de como se investiga os crimes, na medida em que precisa de uma outra habilidade de investigador”, acrescenta o pesquisador.

Para especialistas, é fundamental que o governo seja proativo na oferta de formações (com uso de softwares e IA de ponta) e articulação de trocas de experiências, com o objetivo de capacitar policiais na prevenção e investigação desses delitos, que têm estratégias renovadas rapidamente.

Diante do alto número de boletins de estelionatos registrados, o uso da tecnologia também contribui para uma triagem efetiva e na identificação de padrões adotados pelos bandidos.

Para facilitar a integração de dados, a União tem ainda papel importante na criação de protocolos e integração de esforços de diversos órgãos públicos, como as agências nacionais de Proteção de Dados (ANPD), de Telecomunicações (Anatel) e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), e no diálogo com entidades privadas, como a Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

Segundo Alcadipani, o próprio arcabouço legal para lidar com esse problema tem limitações. “Se a pessoa fizer um estelionato com você e usar conta em dez lugares, é preciso ter dez quebras de sigilo para saber onde chegou o dinheiro”, afirmou o professor. “Isso tem de ser mudado urgentemente.”

A falta de fronteiras dos crimes cibernéticos também dificulta o combate. Como é frequente o uso de empresas ou contas sediadas no exterior, justamente para despistar as autoridades, é necessário prever cooperações internacionais para localizar suspeitos e cumprir mandados.

Os lucros de parte dos golpes, segundo alertam investigadores, têm sido usados para diversificar ainda mais o rol de receitas das facções, como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho.

Telefones viram caixa de banco – e entram na mira

A facilidade de golpes virtuais, para especialistas, desenha uma tendência de progressiva migração dos crimes patrimoniais nas ruas – como roubos comuns e ataques a agências bancárias – para delitos online. A exceção está na subtração de celulares. A popularização do Pix e dos aplicativos bancários aumentou o apelo em relação a esses aparelhos, ao elevar os lucros dos bandidos e os prejuízos das vítimas.

“A pessoa tem a carteira dela no telefone. Isso resulta em um negócio interessante (para o crime): primeiro tem o valor do próprio aparelho e, depois, o que há dentro dele, principalmente os aplicativos de banco”, diz o especialista em segurança Jorge Lordello.

Entre as modalidades mais comuns, estão a abordagem por gangues de moto ou bicicleta, com ladrões disfarçados de entregadores. Em alguns casos, o interesse em obter o celular desbloqueado resulta em violência maior e parte dos casos termina em latrocínio.

Em São Paulo, operações da Polícia Civil miram quadrilhas de roubo e furto de celulares Foto: Divulgação/Polícia Civil de São Paulo

“Ainda que os roubos de celulares tenham caído, os patamares são muito altos e a gente sabe que esse crime gera muita sensação de insegurança, então ele precisa ser uma prioridade”, afirma Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz.

Fonte: Estadão