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Por que o Papa Leão XIV se tornou um adversário difícil para Trump

Papa Leão XIV, à esquerda, e o presidente dos EUA, Donald Trump, à direita — Foto: ALBERTO PIZZOLI e Brendan SMIALOWSKI / AFP

O embate entre o Papa Leão XIV e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, subiu de tom nas últimas semanas e expôs uma disputa incomum entre dois dos líderes mais influentes do mundo. Em meio à guerra no Irã, o Pontífice tem se colocado como uma das principais vozes críticas à postura de Washington e, até agora, segue sem recuar diante das investidas do republicano. A crise marca um confronto raro na história recente. Desde os tempos de Napoleão Bonaparte, no início do século XIX, poucos líderes políticos desafiaram o Vaticano de forma tão direta. À época, o Papa Pio VII resistiu ao imperador francês e, agora, analistas veem paralelos com a postura adotada por Leão XIV, segundo o Wall Street Journal.

Diferentemente do que ocorre em muitos embates políticos, a pressão pública não tem recaído sobre o líder religioso. Segundo observadores, Trump é quem vem enfrentando maior desgaste entre católicos, tanto nos EUA quanto em outros países, após a troca de críticas.

O presidente acusou o Pontífice de alinhar-se à esquerda e chegou a publicar, em sua rede Truth Social, uma imagem gerada por inteligência artificial em que aparece com vestes semelhantes às de Cristo e poderes de cura. A postagem provocou reação negativa, inclusive entre setores conservadores religiosos, e acabou sendo apagada.

Leão XIV, por sua vez, adotou uma postura direta ao afirmar que não teme Trump e que continuará se manifestando contra o conflito no Irã.

A atuação do Pontífice no cenário internacional também tem se intensificado. Nesta quarta-feira, Leão XIV chegou a Camarões para uma visita de três dias, na segunda etapa de uma viagem pela África que inclui áreas marcadas por conflitos e onde pretende reforçar sua mensagem de paz.

Em discurso ao lado do presidente Paul Biya, no poder há mais de quatro décadas, o Papa defendeu o respeito aos direitos humanos mesmo em contextos de segurança.

— A segurança é uma prioridade, mas deve sempre ser exercida com respeito aos direitos humanos — afirmou. Biya, por sua vez, declarou que “o mundo precisa da mensagem de paz” levada pelo líder religioso.

Estratégia e articulação

Para analistas, uma das principais dificuldades do presidente americano é lidar com um Papa que atua de forma mais articulada e menos personalista que seu antecessor, Papa Francisco.

— O Papa não é um ator solo — diz Francesco Sisci, diretor do Instituto Appia. Segundo ele, isso dificulta tentativas de isolamento político do Pontífice.

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Sisci descreve Leão XIV como um líder metódico, que constrói consensos dentro da Igreja antes de se posicionar publicamente.

— Esse sujeito é sistemático e metódico, atua nos bastidores e, quando fala, é o passo final — explica. — Francisco era uma estrela do rock, mas Leão é o maestro de uma orquestra.

Enquanto Francisco ficou marcado por declarações contundentes, que por vezes geraram atritos internos, inclusive com bispos americanos, Leão XIV vem ampliando sua base de apoio global ao combinar a defesa da paz e do diálogo com maior ênfase nas doutrinas tradicionais da Igreja.

O cenário internacional também contribui para o fortalecimento do protagonismo do Vaticano. Em meio à instabilidade geopolítica, parte dos analistas avalia que a Igreja Católica vê uma oportunidade de recuperar sua autoridade moral, abalada por escândalos de abuso sexual nas últimas décadas.

Para Sisci, o momento é favorável ao atual Pontífice.

— Isso é uma grande bênção. É excelente para a Igreja, no mundo todo, que ele seja alguém capaz de enfrentar Trump — ressalta.

Pesquisas indicam que a posição do Papa encontra respaldo significativo na opinião pública americana. Um levantamento da NBC News, realizado em março, mostra que Leão tem saldo positivo de 34 pontos percentuais entre eleitores registrados, enquanto Trump apresenta saldo negativo de 12 pontos.

Base católica sob pressão

O confronto, no entanto, tem implicações diretas na política interna dos EUA. Católicos representam cerca de um quinto do eleitorado e tiveram papel relevante na vitória de Trump em 2024. Agora, parte desse apoio dá sinais de desgaste.

— O ataque ao Papa está afastando eleitores católicos — afirma o reverendo Robert Sirico, cofundador do Acton Institute. — Ele colocou alguns de seus apoiadores mais fortes em uma posição muito desconfortável.

Fonte: O Globo