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População envelhece e muda perfil etário de trabalhadores

Foto : Marcos Santos / USP Imagens / CP

O envelhecimento da população brasileira vem alterando a composição da força de trabalho. Com menos jovens ingressando no mercado e um contingente de pessoas vivendo por mais tempo, trabalhadores com 50 anos ou mais passaram a ocupar parcela cada vez mais relevante da população economicamente ativa. Conforme verificou o IBGE, a redução da fecundidade e o aumento da expectativa de vida vêm modificando a estrutura etária. Como consequência, a idade média da força de trabalho aumenta, o que é observado em outras economias com envelhecimento populacional. Empregos com carteira assinada entre os 50+ saltaram de 12% em anos anteriores para quase 19% do estoque total mais recentemente no país, representando ainda 20% da renda. Entretanto, pesquisas mostram que a permanência no mercado não se dá de forma homogênea.

Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indica que trabalhadores mais velhos enfrentam mais dificuldade de recolocação quando perdem o emprego. Em muitos casos, a reinserção ocorre com ocupações informais ou com trabalho por conta própria, com menor estabilidade e proteção social.

O Brasil registrou no ano passado o maior contingente de ocupados desde o início da série histórica ao mesmo tempo em que a população em idade de trabalhar cresceu. Por isso a participação de trabalhadores mais velhos ganha importância para sustentar a oferta de mão de obra. Pesquisadores do Ipea confirmam que o processo não decorre só de mudanças individuais, mas de transformações estruturais da sociedade. Em estudos sobre mercado de trabalho e envelhecimento, o Instituto aponta que a combinação entre maior longevidade, queda da natalidade e alterações nas regras previdenciárias prolonga a permanência na atividade econômica. Além disso, há aposentados que seguem trabalhando para complementar a renda ou manter o padrão de vida.

O Ipea também observa que o envelhecimento da população exige adaptações nas políticas de emprego e qualificação. Com carreiras mais longas, torna-se mais relevante investir em atualização de competências ao longo da vida e criar condições para que trabalhadores experientes permaneçam produtivos.

DEMANDA

A procura por recolocação entre trabalhadores acima dos 50 anos também aparece na movimentação do Sine Municipal de Porto Alegre. Em maio de 2026, o primeiro Mutirão da Maturidade 50/60+ reuniu 410 pessoas em busca de recolocação profissional ou qualificação. Foram realizadas cerca de 530 entrevistas com empresas parceiras, com estimativa de 40% de possibilidades de contratações reais e imediatas.

A demanda se repetiu no mês seguinte: em junho, a segunda edição do Mutirão da Maturidade disponibilizou cerca de 300 vagas para pessoas com mais de 50 anos e registrou mais de 450 entrevistas. Os dados indicam que existe uma parcela significativa de trabalhadores maduros procurando novas oportunidades, ao mesmo tempo em que empresas passam a criar mecanismos específicos de recrutamento para esse público.

AGEÍSMO

A discriminação por idade aparece de forma recorrente na produção acadêmica. Pesquisa conduzida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), publicada na Revista de Gestão, identificou evidências de ageísmo nas práticas de recrutamento e seleção de empresas brasileiras. O estudo conclui que a idade ainda influencia decisões de contratação, mesmo quando os candidatos apresentam experiência e qualificação compatíveis com as vagas.

Resultado semelhante foi encontrado em pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF), que entrevistou profissionais de recursos humanos de empresas dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Os autores verificaram que poucas organizações possuem políticas estruturadas voltadas à contratação, retenção e desenvolvimento de profissionais acima dos 50 anos, embora reconheçam a necessidade de preparar as empresas para uma força de trabalho mais envelhecida.

Na avaliação da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP), o envelhecimento da população tende a modificar a gestão de pessoas nas próximas décadas. Estudos desenvolvidos pela instituição apontam que carreiras mais longas exigem modelos de capacitação contínua, revisão das políticas de desenvolvimento profissional e ambientes capazes de integrar diferentes gerações no mesmo local de trabalho.

A tendência acompanha as projeções demográficas do IBGE, que indicam aumento contínuo da participação de pessoas idosas na população brasileira nas próximas décadas. Com isso, especialistas em demografia e economia do trabalho apontam que a presença de profissionais maduros deixará de ser uma característica pontual para se tornar um dos elementos permanentes do mercado de trabalho brasileiro.

Fonte: Correio do Povo