
O envelhecimento da população brasileira avança em ritmo acelerado, mas a longevidade conquistada no País ainda não se traduz, necessariamente, em mais anos vividos com saúde e qualidade de vida, tampouco em uma visão única sobre o que é ser uma pessoa idosa no Brasil.
O alerta foi o ponto central da apresentação da psicóloga, sanitarista e consultora nacional para o Envelhecimento Saudável e Saúde Mental da Organização Pan-Americana da Saúde da Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), Maria Cristina Hoffmann, durante palestra magna na abertura do Summit Saúde 2026, que acontece nesta terça-feira, 27, com realização do Estadão, e que tem longevidade como tema principal.
Não existe um único tipo de envelhecimento, uma única forma de envelhecer. Envelhecer é heterogêneo, existem tantas velhices quantos habitantes existirem.
Maria Cristina Hoffmann, consultora OPAS/OMSMúltiplos olhares para o envelhecimento
Segundo Maria Cristina Hoffmann, o envelhecer não pode ser compreendido como um evento isolado nem associado automaticamente à perda de utilidade. “Falar de envelhecimento é falar de um processo. A gente não envelhece quando faz 60 anos”, afirmou em sua palestra.
Ela destacou que o fenômeno do envelhecimento da população brasileira ocorre em meio a transformações simultâneas na sociedade. “Em geral, quando a gente fala de envelhecimento, de longevidade, a gente escuta muito falar de transição epidemiológica e demográfica, mas junto com ela tem muitas outras, como transições climáticas, econômicas, políticas e tecnológicas.”
Além disso, analisa, o cenário carrega fatores estruturais da sociedade, como o recorte de gênero. “A maioria das pessoas idosas são mulheres, mas não porque os homens morrem quando já atingiram, às vezes, a idade do envelhecimento. Os homens tendem a morrer e mais jovens por conta de violência, por conta de acidentes.”
Em contrapartida, pondera ela, as mulheres chegam à velhice enfrentando o impacto de uma vida inteira marcada pela sobrecarga de cuidados não remunerados. O resultado é uma lacuna acentuada entre a expectativa de vida total e os anos vividos com saúde, uma diferença que chega a 12 anos entre as mulheres e nove anos entre os homens no Brasil.
Prevenção da demência e atenção à saúde mental
Durante a palestra, a consultora ressaltou que grande parte dos agravos comuns na velhice pode ser evitada com políticas públicas integradas e intervenções precoces ao longo do curso da vida.
Nesse sentido, citou evidências científicas que mostram como o controle de fatores de risco modificáveis, entre eles poluição do ar, sedentarismo, depressão, isolamento social, alfabetização e perda auditiva não tratada, têm o potencial de reduzir em até 48,2% os casos de demência no País.
Hoffmann destacou ainda que a saúde mental da população idosa também exige atenção prioritária dos gestores públicos. A palestrante chamou a atenção para o fato de que a segunda maior taxa de suicídio no Brasil é registrada entre homens com mais de 70 anos (18%), ficando atrás apenas dos índices observados entre adolescentes indígenas (24%).
Autonomia, idadismo e o papel das cidades
Outro aspecto destacado na apresentação foi a urgência de desconstruir o preconceito etário, também chamado de idadismo, e distinguir os conceitos de dependência e perda de autonomia. Na mesma perspectiva, ela disse que garantir o respeito à autonomia da pessoa idosa envolve escutá-la em suas escolhas e decisões cotidianas, seja no ambiente familiar ou dentro dos consultórios médicos.
A gente associa o envelhecimento à doença e à dependência. Essa não é a realidade. Ter uma doença, um comprometimento, não necessariamente lhe tira a sua qualidade de vida. Porque quando a gente fala de qualidade de vida da pessoa idosa, a gente tem que falar de autonomia e de independência.
Maria Cristina Hoffmann, consultora OPAS/OMSPor fim, a consultora defendeu que o cuidado com a saúde dos idosos não depende apenas de hospitais de excelência ou de condutas individuais, mas do ambiente em que essas pessoas circulam. Calçadas esburacadas, transporte público desadaptado e a falta de acessibilidade funcionam como barreiras invisíveis que isolam os indivíduos e comprometem sua autonomia, afirmou.
“Eu posso ter o melhor profissional, o melhor hospital de excelência. Se eu não conhecer a realidade daquela pessoa, as condições à margem onde ela vive e circula, eu posso não ter o sucesso que gostaria”, concluiu a palestra, convocando a sociedade e os gestores a assumirem a responsabilidade coletiva por cidades mais acolhedoras e amigáveis ao envelhecimento.
Fonte: Portal VIVA





