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Especialistas alertam para os impactos do etarismo na saúde dos idosos

Reprodução

O preconceito contra pessoas idosas, conhecido como etarismo ou idadismo, vai muito além de comentários considerados inofensivos. Segundo especialistas, esse tipo de discriminação pode comprometer a autoestima, favorecer o isolamento social, aumentar o risco de depressão e ansiedade e até atrasar o diagnóstico de doenças, afetando diretamente a qualidade de vida na terceira idade.

Presente no ambiente de trabalho, nos serviços de saúde, nas relações familiares e nas interações cotidianas, o etarismo se manifesta por meio de estereótipos que associam o envelhecimento à incapacidade, fragilidade ou inutilidade, limitando a autonomia e a participação social das pessoas idosas. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 6,3 milhões de casos de depressão no mundo podem estar relacionados ao preconceito contra a idade, que também está associado ao aumento de casos de ansiedade, baixa autoestima, isolamento social, declínio cognitivo e redução da qualidade de vida.

A professora de Psicologia da Afya Centro Universitário Itaperuna, Mariana Ramos, explica que esse tipo de preconceito interfere diretamente na forma como o idoso se percebe. Segundo ela, a identidade também é construída pelas mensagens recebidas ao longo da vida, e quando alguém escuta repetidamente que está velho demais ou que já não é útil, essas ideias podem ser incorporadas como verdades, o que reduz a autoestima, enfraquece a confiança nas próprias capacidades e favorece sentimentos de tristeza, solidão e desesperança.

A psicóloga ressalta que o problema nem sempre aparece de forma explícita. Atitudes como interromper a fala do idoso, decidir por ele sem consultá-lo, infantilizar sua comunicação ou presumir que ele não consegue aprender novas tecnologias também configuram formas de etarismo. Mesmo quando motivadas pela intenção de proteger, essas ações acabam transmitindo a mensagem de que a opinião da pessoa idosa deixou de importar, o que compromete sua autonomia, identidade e sentimento de pertencimento.

Além dos impactos emocionais, o preconceito contra idosos pode reduzir a participação em atividades de lazer, afastar a pessoa do convívio social e diminuir a sensação de utilidade, fatores que favorecem o isolamento. Para a geriatra Karoline Fiorotti, professora da pós-graduação em Geriatria da Afya Vitória, saúde física e mental caminham juntas durante o envelhecimento. Segundo ela, o preconceito relacionado à idade restringe a participação da pessoa idosa na sociedade e pode levar à atribuição de dificuldades diversas apenas ao envelhecimento, favorecendo o estresse crônico, sintomas de ansiedade e depressão, além de reduzir a motivação para manter hábitos saudáveis, praticar atividade física e seguir corretamente os tratamentos. Esse processo, segundo a especialista, também aumenta o risco de dependência, piora de doenças crônicas e até de demência.

Outro reflexo do etarismo é a tendência de considerar certos sintomas como consequência natural do envelhecimento. Karoline alerta que alterações persistentes de memória, tristeza constante, perda de peso, indisposição, fraqueza, sonolência ou palpitações não devem ser encaradas automaticamente como parte da idade. Segundo ela, muitos idosos deixam de procurar atendimento médico ou evitam relatar sintomas por acreditarem que essas mudanças são inevitáveis, o que pode atrasar diagnósticos importantes e reduzir as chances de um tratamento mais eficaz.

As especialistas destacam que preservar a autonomia da pessoa idosa traz benefícios que vão além da saúde mental. Idosos que permanecem inseridos na família, na comunidade e em atividades sociais costumam apresentar melhor funcionalidade, maior adesão aos tratamentos, diagnóstico precoce de doenças, menor risco de quedas, preservação da massa muscular e redução da mortalidade. A inclusão digital também é apontada como ponto importante, já que ensinar pessoas idosas a usar aplicativos bancários, plataformas de saúde, telemedicina e redes sociais amplia a independência e fortalece a participação social.

Para as especialistas, enfrentar o etarismo exige mudanças culturais e coletivas, como valorizar a experiência acumulada pelos idosos, incentivar sua participação em decisões familiares e sociais, preservar a autonomia sempre que possível, promover ambientes acessíveis e inclusivos, estimular a inclusão digital e combater estereótipos ligados ao envelhecimento. Mariana Ramos destaca que envelhecer não significa deixar de aprender, sonhar ou construir novos projetos de vida, e que cada pessoa idosa carrega uma trajetória única, com valores, desejos e competências próprias, sendo esse reconhecimento o ponto de partida para o respeito.

Karoline Fiorotti reforça que o envelhecimento é uma etapa natural da vida, e que o convívio entre diferentes gerações beneficia toda a sociedade, sendo fundamental construir ambientes mais acolhedores e inclusivos que valorizem as capacidades dos idosos e permitam que continuem participando ativamente da vida em comunidade.

Fonte: Portal O Capixaba