
Toda indignação moral esconde uma disputa por poder, pregava o filósofo Friedrich Nietzsche, no final do século 19. Como podemos levar esse dito para a crise aguda que envolve o Supremo Tribunal Federal nesta semana? Basta ver os movimentos. De um lado, quem tenta abafar a escalada do escândalo, após as revelações deste O Estado de S. Paulo, de novos diálogos parciais entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro do Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, alegando, de forma contundente, que ritos formais não foram obedecidos. De outro, representantes de grupos políticos também envolvidos com o Banco Master se mostram chocados, como se não tivessem relação com algo que também os envolve.
O movimento coordenado agora é tentar desmoralizar o ministro André Mendonça. Alegar que a divulgação dos diálogos parciais entre Moraes e Vorcaro foi irregular e se presta apenas a alterar o resultado das eleições presidenciais. A fragilidade do argumento é que daí não se segue que as conversas não existiram — assim como o descobrimento de irregularidade dos investigadores da operação Lava Jato não fez todos os crimes desaparecerem.
A relação entre o magistrado e o mafioso, em si, é explosiva. É insuficiente justificar apenas que são indícios a investigar. Não custa dizer também que é uma acusação que ainda pesa contra Moraes: a de que costuma atropelar os ritos em nome de um bem maior, como a “democracia”. Vide o caso do inquérito da fake news. Como sair deste nó entre fatos e formalismos?
Para utilizar um clichê, deve passar um filme na cabeça em certas lideranças e militância. “E se Mendonça se tornar um novo Moro, que conseguiu até mesmo prender o Lula e por pouco não dizimou o Partido dos Trabalhadores?”. É um risco já identificado. Por isso, toda a energia para buscar intimidar o próprio ministro.
Já encontraram algo, inclusive: encontros pessoais de Vorcaro com Mendonça. Aparentemente sem consequências, porém a estratégia é buscar equiparar uma conversa informal com um suposto suborno de milhões. Vai colar? Difícil. De qualquer maneira, é impressionante a teia de relações de Vorcaro. Parece ter trocado áudios com toda a República.
Anteriormente, tivemos o já célebre áudio entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro, a pedir recursos milionários sobre o filme sobre pai, pelo qual não apresentou uma prestação de contas factível. Hoje, quem caiu na teia foi o deputado mais votado do País e expoente do bolsonarismo, Nikolas Ferreira. Ninguém sabe onde isso vai parar. A bomba está com o próprio Supremo. Quem não está envolvido, que jogue as outras pedras.






