
Hoje com 69 anos, a professora aposentada Edna Ramos criou cinco filhos esticando o orçamento. Agora, quando o silêncio do lar ou a monotonia das ruas ameaçam pesar, ela arruma as malas. Seja para mergulhar nas águas térmicas de Caldas Novas (GO), seja para caminhar e rezar pelas ruas de Aparecida (SP), Edna viaja para não adoecer. “Isso me dá ânimo e uma vontade maior de viver”, resume. Contudo, para grande parte da população, a velhice urbana é uma experiência de confinamento em bairros sem praças, árvores, segurança ou calçadas contínuas. Há um descompasso entre a biologia dos seres humanos e a física dos espaços públicos, o que impacta na saúde mental.
Uma pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) traduziu esse cenário: 34% dos idosos que vivem em áreas urbanas no Brasil apresentam sintomas depressivos, uma taxa que escala para 43,8% quando se trata apenas da população feminina. E a tendência é que esse desafio ganhe ainda mais peso com o passar do tempo, à medida que a população idosa aumenta. Em apenas doze anos, o índice de envelhecimento no estado quase dobrou, saltando de 36,3 idosos para cada 100 crianças em 2010 para 68,6 em 2022, conforme dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A pesquisa é uma tese de doutorado desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da UFMG, com base em dados do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (Elsi-Brasil), conduzido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a UFMG. O levantamento ouviu mais de 7 mil brasileiros com 50 anos ou mais e identificou uma associação entre características do ambiente urbano e a presença de sintomas depressivos. Entre os entrevistados, a prevalência foi de 24% entre aqueles que viviam em bairros considerados pouco agradáveis, com escassez de áreas verdes e menor apelo visual, e de 22% entre os que percebiam sinais de desordem física na vizinhança, como lixo, entulho e abandono de espaços públicos. A exposição crônica à poluição sonora no ambiente residencial também esteve associada a uma prevalência de 27% de sintomas depressivos.
A criminalidade apareceu como outro fator. Entre os que haviam sido vítimas de furto, roubo ou invasão domiciliar, a prevalência de sintomas depressivos chegou a 31%. Já em locais com menor coesão social, caracterizados pela falta de confiança, apoio mútuo e senso de comunidade entre vizinhos, o índice chegou a 26%. Segundo a pesquisa, esses fatores ganham importância entre idosos, que podem passar grande parte do tempo na própria vizinhança em razão de limitações financeiras.
Despreparo
O aumento da população idosa acontece em um país que ainda não conseguiu adaptar suas cidades, políticas públicas e opções de lazer às necessidades de quem envelhece, segundo especialistas. Para Rodrigo Caetano Arantes, ex-presidente do Conselho Estadual do Idoso de Minas Gerais (CEI-MG) e doutor em demografia, o problema não está apenas na quantidade de atividades disponíveis, mas também em quem consegue, de fato, ter acesso a elas. “O Brasil não está preparado para o envelhecimento crescente da população”, frisa ele.
Embora já existam iniciativas voltadas à terceira idade, elas ainda não acompanham o crescimento desse público. No setor privado, por exemplo, Arantes vê espaço para ampliar a oferta de serviços pensados especificamente para os idosos, como viagens e passeios adaptados. “No que se relaciona à área de lazer e bem-estar iniciativas já são vistas, mas pelo contingente de idosos cada vez maior, segundo as pesquisas demográficas, poderia haver iniciativas em nível privado, por exemplo, como maior número de agências de turismo direcionadas aos gostos e preferências em viagens e passeios para idosos”, afirma.
A questão financeira torna esse acesso ainda mais desigual. Para quem tem dinheiro, há uma variedade maior de possibilidades de entretenimento, cultura, viagens e atividades esportivas. Já para os idosos de menor renda, muitas dessas opções simplesmente ficam fora do orçamento. “Existe uma discrepância ao acesso quando se analisa essa questão por renda também. Idosos com maior renda têm maior acesso a lazer e cultura, quando comparados aos de menor renda. A maior barreira, creio eu, seja a econômica”, afirma ele.
O outro lado
Para quem teve condições de chegar à velhice com alguma segurança financeira, porém, o cenário é outro. Muitos idosos que conseguem aproveitar o lazer nesta fase da vida afirmam que se descobriram ao deixarem para trás a rotina estritamente voltada para o trabalho. Diante da realidade socioeconômica do país, eles também destacam que se sentem privilegiados por terem conseguido, ao longo dos anos, construir uma reserva financeira que lhes permite desfrutar do presente.
“Viajo demais”, resume Edna, ao falar sobre seu estilo de vida. Antes de viver os ‘dias de glória’, ela relembra as dificuldades que enfrentou. “Eu tinha 36 anos quando fiquei viúva. Meu marido morreu e eu tinha cinco filhos para criar. Lutei demais. Depois voltei a estudar, consegui o cargo de professora e foi nessa profissão que me aposentei”, diz ela, que também trabalhou no Banco do Estado de Minas Gerais.
Edna se define como uma pessoa financeiramente equilibrada. “Honro as despesas da casa e as minhas viagens. Tenho uma amiga que trabalha com turismo e ela sempre me consegue uma oferta ou um descontinho. Então consigo pagar aos poucos, viajar e me divertir.” Os destinos mais frequentes da professora viajante são Caldas Novas (Goiás), Cabo Frio (Rio de Janeiro) e Aparecida (São Paulo). “Recentemente ganhei uma viagem de presente de aniversário de um dos meus filhos e fui para Salvador (Bahia). Falou em viajar e passear, é só me chamar”, diz, aos risos.
Conhecer novos lugares e retornar àqueles já conhecidos traz uma sensação de renovação. “O lazer na terceira idade me proporciona experiências maravilhosas. Eu tenho me sentido muito bem, volto de alma lavada. É incrível conhecer novas pessoas a cada passeio. Isso me dá ânimo, pois ficar presa dentro de casa atrai doenças. Quanto mais isolada a pessoa fica, menor é a sua qualidade de vida”, pondera.
A sala de aula foi, durante muitos anos, o local onde Vera Costa, de 65 anos, se encontrou. O convívio com os alunos e colegas de profissão fez com que a professora temesse o momento da aposentadoria, acreditando que não conseguiria seguir adiante. No entanto, mais de uma década após deixar o ambiente escolar diário, a insegurança deu lugar ao redescobrimento de si mesma.
Assim que a publicação de sua aposentadoria foi oficializada, Vera virou a chave e passou a se dedicar a novas áreas. “Eu digo que me redescobri. Passei a participar ativamente da vida da igreja e comecei a passear — e passear muito. Depois que meu marido faleceu, fiquei muito sozinha e, cada vez mais, tenho descoberto que é preciso e necessário aproveitar a vida.”
Os passeios de Vera costumam incluir o Santuário Nacional de Aparecida (São Paulo), a Canção Nova em Cachoeira Paulista (também no estado vizinho), além de Caldas Novas e Holambra. “A minha qualidade de vida melhorou muito. Antes, eu só me dedicava ao trabalho, não ia a uma festa, não vivia. Ao me aposentar, consegui realizar o sonho de conhecer João Pessoa, na Paraíba. Foi maravilhoso ir para lá, andar de avião, ainda mais tendo familiares e amigos como companheiros.”
Vera se define como uma pessoa controlada financeiramente. “Administro muito bem o benefício que recebo. Sou feliz e realizada.” A aposentadoria, contudo, não fez com que a professora deixasse de sonhar. “Fico me imaginando fazendo uma viagem internacional. Sonho em conhecer o Santuário de Fátima, em Portugal. Deus vai me abençoar e eu conseguirei ir”, conclui.

Desigualdade por toda a vida
A diferença econômica dos idosos não pode ser analisada isoladamente. O envelhecimento brasileiro ocorre em meio a desigualdades sociais que acompanham o indivíduo ao longo da vida e continuam determinando suas possibilidades na velhice. “O envelhecimento populacional no Brasil e maior número de idosos se dá em uma situação de desigualdades sociais, outro fator que faz com que ainda estejamos despreparados para o maior contingente de idosos no país”, diz Arantes.
Para a parcela que não consegue pagar por atividades privadas, as opções dependem, em grande medida, daquilo que é oferecido gratuitamente pelo poder público. Centros de convivência, atividades em unidades de saúde e iniciativas comunitárias podem se tornar importantes espaços de encontro. “[Há] o lazer através de iniciativas públicas em Centros de Convivências Públicos (municipais, a exemplo) ou mesmo nas Unidades Básicas de Saúde em atividades em grupos realizadas pelos profissionais que trabalham nesse setor de atenção à pessoa idosa. Podemos ver, também, em algumas cidades casas de forró que atendem exclusivamente o público idoso com preços de entrada mais acessíveis”, ressalta o especialista.
O acesso ao lazer, porém, está longe de ser apenas uma questão de diversão. A possibilidade de sair de casa, encontrar outras pessoas e participar de atividades coletivas pode ter impacto importante na saúde e no bem-estar emocional durante a velhice. “Quando se fala em qualidade de vida, os aspectos de lazer e da convivência social têm grande importância, diz Arantes, que chama atenção ainda para a relação entre isolamento social e depressão: “O índice de depressão é alto em idosos e a manutenção da convivência social é um fator protetor no que se refere à melhoria desses índices”, afirma.
A análise de Arantes é corroborada pela vivência que a aposentada Edna Ramos tem. “Sei que sou privilegiada por ter a possibilidade de fazer as viagens, pois, infelizmente, muitos idosos não têm condições. Mas o que sempre digo aos amigos que não podem viajar é que tentem aproveitar os espaços públicos que temos na cidade. Uma caminhada na Lagoa da Pampulha já renova as energias. Sair de casa é importante, ver as pessoas, a vida em movimento. Acredito que, se não tivesse uma vida ativa, já teria entrado em um quadro depressivo. Agradeço a Deus pelo momento que vivo, pois a aposentadoria, sem dúvida, foi a melhor coisa que me aconteceu”, complementa.
Aposentados são o terceiro grupo com mais suicídios em MG
Opções de lazer, entretenimento e convívio dialogam diretamente com ter uma vida saudável. A ausência dessas vivências, por outro lado, adoece. Em última instância, pode representar o fim. Conforme dados da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), os aposentados representam o terceiro grupo com o maior número de mortes por suicídio. Foram 1.497 casos desde 2010. A maioria das vítimas tinha entre 60 e 69 anos.
Para a psicóloga Norma Moreira de Oliveira, de 62 anos, coordenadora de Desenvolvimento de Voluntários do Centro de Valorização da Vida (CVV), essa vulnerabilidade extrema tem relação direta com a perda do papel social. O fim da rotina profissional costuma impor um corte violento. “Vem a sensação de solidão, inutilidade, menos valia. Isso leva a um processo de entristecimento, angústia muito grande. Agora o que eu vou fazer? Que grupo pertenço? Qual minha validade? Isso pode levar a um processo de adoecimento emocional”.
A dor do não pertencimento é o desabafo mais comum que ecoa nos canais do CVV, que oferece acolhimento gratuito e sigiloso pelo telefone 188. “As falas dos idosos são de não pertencimento, de não valer nada. Isso dói porque o ser humano faz parte, pertence. A partir do momento que para toda uma atividade, você começa a ter essa sensação de que não vale a pena”, descreve. Ela observa que o sofrimento se acentua porque a pessoa passa uma vida inteira trabalhando e, ao se aposentar, “começa uma outra história que ela não se preparou para viver”.
É nesse espaço que as viagens e o lazer em grupo deixam de ser mero entretenimento e assumem o papel de ferramentas de preservação da vida. “Qualquer movimento de pertencimento, de se relacionar, trocar emoções, é um processo de valorização da vida”, defende. Quando os aposentados se reúnem para viajar, conversar ou participar de rodas de conversa, eles quebram a barreira do isolamento doméstico e resgatam a sensação essencial de que continuam ativos e pertencentes ao mundo.
Fonte: Jornal O Tempo





