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Parar de dirigir deve ser decisão do idoso ou da família? Como falar disso com respeito?

Quando a família percebe que o ideal é um idoso parar de dirigir, é preciso abordar a questão de forma acolhedora Foto: Curto/Adobe Stock

Eu gosto muito de entender a origem e o significado das palavras – desde brincar com seus sons até descobrir novos sentidos ao ouvir, ler e falar. Algo exemplificado com maestria na obra de Guimarães Rosa. Mas, recentemente, tive a alegria de me emocionar no espetáculo de Gregório Duvivier, “O céu da língua”, no qual ele mistura etimologia e psicanálise para nos guiar pela potência da linguagem.

Digo isso porque uma de minhas últimas colunas, na qual discuto sobre o momento em que um idoso deveria parar de dirigir, gerou grande interesse entre os leitores e, diante da repercussão, me veio à mente uma palavra que muitas vezes é utilizada de maneira violenta: teimosia.

O Dicionário Houaiss trata o termo “teimoso” como de origem controversa, ou seja, não há consenso etimológico absolutamente seguro. Porém, ao longo da história a palavra passou a carregar a ideia de uma persistência que ultrapassa o limite da razão ou da flexibilidade, num significado ligado à obstinação e resistência à mudança.

É importante refletir sobre essa palavra porque, em um debate complexo e difícil, sempre o teimoso é o outro. Temos essa tendência de simplificar ou criar barreiras para uma comunicação e, quando a discussão não é encerrada da maneira que gostamos, emendamos como mensagem final: “Mas é porque ele é teimoso!”.

Como mencionei no texto anterior, dirigir é um ato complexo, que envolve diversas funções do nosso corpo, e apenas a idade não pode definir se uma pessoa pode ou não realizá-lo. Ele envolve visão, audição, memória, capacidade executiva, motricidade, entre tantas outras capacidades.

E onde a comunicação entra nessa história?

Muitos se perguntam se a decisão sobre aposentar o carro seria uma decisão da família ou da pessoa idosa, o que podemos responder com certa facilidade: depende!

Primeiro porque, em caso de síndromes demenciais – como aquelas provocas pelo Alzheimer –, é possível que a pessoa não tenha a crítica do prejuízo. Nesse contexto, o apoio multiprofissional e também da família pode, em nome da segurança, recomendar outras estratégias de transporte que não envolvam a condução de veículos.

Agora, nos casos em que a pessoa está com a memória em dia, mas tem certa dificuldade na direção e se recusa a parar de dirigir, a comunicação efetiva precisa entrar em campo. E lembrando que comunicação é muito mais do que aquilo que dizemos: envolve o que não falamos e também o que está por trás (ou nas entrelinhas) de nossas falas. Por exemplo: ao invés de brigar, alterar o tom de voz e nomear pais, avós, tios e tias de “teimosos” porque insistem em dirigir, por que não começar perguntando os motivos por trás dessa relutância em abrir mão do volante?

Recentemente, li num livro a mensagem de que na fragilidade podemos estar mais propensos ao deslumbramento e, talvez, esse seja um caminho possível para trabalharmos com aqueles que amamos: o da ambivalência, da surpresa e do possível deslumbramento. Na prática, quando tento convencer alguém da minha ideia, também sou teimoso aos olhos daquele que pretendo persuadir – por mais que eu esteja embasado em dados reais. Por isso, ninguém ganha nesse dueto de teimosia. Só há um caminho: ouvir, ouvir e ouvir. E, ao escutar, é preciso acolher o sofrimento, a fragilidade e o luto por algo que aquela pessoa está perdendo contra a sua vontade.

Em outras palavras, é muito mais fácil chamar o idoso que não quer parar de dirigir de “teimoso”. Porém, dizer algo como “sinto muito por isso, eu gostaria que fosse diferente” não só é mais acolhedor como abre as portas para uma conversa realmente frutífera.

E, para quem perguntou a idade de minha avó, que cito no texto anterior, quero contar que ela completou 87 anos no último dia primeiro, com drinques, feijoada e um bom samba – e transportada por um carro de aplicativo na ida e na volta.

Foto do autor
Por Milton Crenitte – Médico geriatra, doutor em ciências pela Universidade de São Paulo (USP) e consultor em longevidade