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As mãos que sustentam o futuro também tremem

Toda sociedade sonha com jovens capazes de transformar o futuro. Poucas se perguntam quais condições oferecemos para conseguirem fazê-lo. O talento pode nascer em qualquer lugar, as oportunidades, infelizmente, ainda não.

Uma jovem de 19 anos de classe média baixa inicia um projeto comunitário para oferecer aulas de vôlei a crianças de 7 a 12 anos em seu bairro. Do outro lado da cidade, um jovem da mesma idade, morador de um bairro nobre, funda sua primeira startup com o apoio do pai, um empresário de alta renda.

Há também outra jovem da mesma faixa etária que trabalhava no comércio em uma pequena cidade do interior do Nordeste. Ela administrava o estoque, atendia a clientes e organizava os funcionários.

Diante da insegurança provocada pela escassez de oportunidades, encontrou nos concursos públicos uma possibilidade de mobilidade social, mesmo concorrendo a cargos que não correspondiam às suas habilidades nem aos sonhos que acabaram ficando pelo caminho.

O que diferencia essas trajetórias? Todos possuem potencial de liderança e, de alguma forma, já o exercem na prática. O que os diferencia é o ponto de partida e a quantidade de recursos financeiros, sociais e acadêmicos aos quais cada um teve acesso.

Lideranças não nascem prontas. Elas são construídas, desenvolvidas e sustentadas ao longo da vida.

De um lado, temos jovens profundamente impulsionados pela tecnologia, cercados pelo discurso da inovação e do impacto social. Do outro, existem inúmeros talentos ainda encobertos pela precarização, desigualdade social e escassez de recursos, agravadas pela falta de prioridade dada ao desenvolvimento dessas lideranças.

Há também a romantização dos “CEOs de si”, em que a precarização é frequentemente apresentada como empreendedorismo e a sobrevivência passa a ser confundida com liberdade.

Segundo estudo do Sebrae sobre empreendedorismo, o Brasil já conta com aproximadamente 4,9 milhões de jovens empreendedores, contingente que cresceu 25% em pouco mais de uma década. Hoje, 93% desses jovens empreendem sozinhos e apenas 7% alcançam a posição de empregadores.

O preço de liderar ainda jovem é muito alto, pois o custo invisível não está apenas nas horas de trabalho ou nas responsabilidades assumidas precocemente. A solidão, a renúncia ao tempo livre, as noites em claro, a pressão constante por corresponder às expectativas e a sensação de que não há espaço para errar compõem esse custo invisível.

A solução começa por escutá-los. Começa quando compreendemos que por trás de cada liderança existe alguém que sente medo, cansaço, insegurança e, muitas vezes, solidão.

Desenvolver uma jovem liderança exige mais do que discursos de incentivo. Exige acolhimento, apoio emocional, oportunidades reais, financiamento, mentorias comprometidas e redes de confiança que permaneçam mesmo quando os holofotes se apagam.

Cada jovem talento que não encontra condições para se desenvolver representa uma possibilidade de futuro que o país escolheu não construir. Quantas lideranças o Brasil nunca chegou a conhecer porque lhes faltaram oportunidades?

Escrevo esta reflexão não apenas como uma jovem líder, mas como alguém que acompanha diariamente outras jovens lideranças brasileiras na Rede Autoestima-se e conhece de perto o custo invisível de continuar acreditando.

As mãos que hoje tremem, os olhos que lacrimejam e o coração que bate de medo podem seguir com tranquilidade se aquilo que lhes falta for suprido. Ainda há tempo de construir um país onde jovens não precisem escolher entre sobreviver e sonhar, entre liderar e adoecer, entre transformar o mundo e desistir de si.

Porque, toda vez que uma liderança encontra as condições para prosperar, não é apenas uma história individual que muda. É um país que escolhe investir no próprio futuro.

Por Mariana Nunes – Fundou a Rede Autoestima-se, um dos destaques da categoria Jovens Transformadores do Prêmio Empreendedor Social 2024