Presidente do CEDEDIPI-MT defende que população avalie propostas e compromisso dos candidatos com políticas públicas para o envelhecimento

O papel da pessoa idosa como eleitor e a necessidade de avaliar o compromisso dos candidatos com políticas públicas voltadas ao envelhecimento estiveram entre os pontos abordados pelo presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa de Mato Grosso (CEDEDIPI-MT), Isandir Rezende, em entrevista concedida nesta terça-feira (18) ao programa Giro Massa, com Laura Campos.
Ao falar sobre a realidade enfrentada pela população idosa, Isandir elencou dificuldades que passam pelo acesso a serviços públicos, inclusão digital, saúde, assistência e acolhimento. São questões que precisam ganhar espaço no debate político e também ser consideradas na escolha dos representantes.
Em Mato Grosso, esse público representa uma parcela expressiva do eleitorado. Dados divulgados pelo Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso (TRE-MT) nas Eleições de 2024 mostram que 418.441 eleitores tinham entre 60 e 79 anos, o equivalente a 16% das pessoas aptas a votar no estado. Outros 49.709 eleitores tinham 80 anos ou mais. Somadas as faixas, Mato Grosso contava com 468.150 eleitores idosos, com 60 anos ou mais.
O número ajuda a dimensionar a participação da população idosa nas decisões políticas do estado. A partir dos 70 anos, o voto é facultativo, mas o eleitor continua com o título válido e pode participar normalmente das eleições. Para as Eleições Gerais de 2026, Mato Grosso tem, ao todo, mais de 2,6 milhões de pessoas aptas a votar.
A digitalização dos serviços públicos foi um dos exemplos usados para demonstrar como decisões administrativas impactam diretamente a vida de quem envelhece. Aplicativos e plataformas passaram a concentrar procedimentos que antes eram realizados presencialmente, enquanto parte da população ainda encontra dificuldades para utilizar essas ferramentas sem ajuda.
A situação se torna ainda mais complexa para quem vive longe dos centros urbanos. Ao citar o acesso aos serviços previdenciários, Isandir questionou como trabalhadores rurais idosos conseguem solicitar a aposentadoria e reunir, por meio digital, toda a documentação necessária para comprovar anos de atividade no campo.
“Quem mora na zona rural, como vai fazer o pedido de aposentadoria? Como vai entrar no aplicativo e juntar os documentos que tem que provar que ele é rural? Essa mulher rural, como vai fazer?”, questionou.
O problema, no entanto, não se limita ao campo. Mesmo nos centros urbanos, a falta de familiaridade com sistemas digitais pode transformar o acesso a um direito em um percurso difícil, especialmente quando o cidadão precisa identificar sozinho quais documentos devem ser apresentados em um processo administrativo.
“O da zona rural não sabe e o da zona urbana também não sabe”, afirmou.
A inclusão digital, nesse contexto, deixa de ser apenas uma questão de adaptação à tecnologia e passa a interferir diretamente no exercício da cidadania. Serviços previdenciários, benefícios e diferentes procedimentos públicos migraram para o ambiente virtual, nem sempre acompanhados de alternativas de atendimento acessíveis a quem não domina essas ferramentas.
“O idoso hoje está fora de um sistema macro do mundo virtual, em que ele não se faz presente. E o pior de tudo é que tudo que o governo federal vem construindo e os governos estaduais também vêm construindo está onde? No aplicativo”, pontuou.
As dificuldades relatadas não terminam no acesso aos serviços digitais. Em Mato Grosso, o envelhecimento da população também amplia a necessidade de estruturas específicas nas áreas de assistência e acolhimento. Na Capital, Isandir citou regiões populosas e distantes da área central para questionar a ausência de serviços como Centros-Dia, destinados a oferecer atendimento e suporte à pessoa idosa durante o dia.
A demanda por Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) também entrou na discussão. O presidente do CEDEDIPI-MT lembrou a articulação que resultou na destinação de R$ 60 milhões para a construção de cinco unidades em polos de Mato Grosso. O investimento representa um avanço na estrutura de acolhimento, mas, conforme ponderou, ainda está longe de atender toda a necessidade existente.
“Isso é suficiente? Não, isso não é suficiente”, ressaltou.
Na saúde, a preocupação segue a mesma lógica. O aumento da longevidade exige uma rede preparada para necessidades específicas dessa fase da vida, enquanto o estado ainda carece, conforme apontado na entrevista, de uma estrutura hospitalar especializada voltada à população idosa.
É justamente a distância entre as demandas existentes e os serviços disponíveis que Isandir relaciona ao debate político. Transformar necessidades sociais em políticas públicas depende de planejamento, definição de prioridades e previsão de recursos no orçamento. “Para fazer política pública social, você precisa de planejamento e de orçamento”, afirmou.
A proximidade do processo eleitoral amplia essa discussão. Para uma parcela expressiva do eleitorado que depende diretamente de políticas de saúde, assistência, mobilidade, proteção social e acesso a serviços públicos, o voto também pode funcionar como instrumento de cobrança e de definição de prioridades para os próximos anos.
A participação política, no entanto, não se encerra nas urnas. Conselhos de direitos, entidades e a própria sociedade exercem papel importante na formulação de propostas, fiscalização das ações governamentais e cobrança por respostas do poder público.
“Para ser político, você precisa ter um mandato. Agora, para nós sermos um político, como sociedade, participando, eu não preciso de mandato, eu preciso de vontade”, completou.





