
O Sistema Único de Saúde (SUS) registra hoje uma média de 285 atendimentos diários por quedas em idosos no Brasil. Segundo o Ministério da Saúde, 63% dos idosos brasileiros já sofreram com esse tipo de acidente – uma taxa superior à média mundial. Uma das consequências frequentes das quedas é a fratura de quadril, que pode levar a complicações como infecções, trombose e pneumonia, elevando o risco de mortalidade, principalmente a partir dos 80 anos.
Alessandro Pereira da Silva acredita que pode ajudar a mudar esses números. O engenheiro biomédico, líder do Laboratório de Ambientes Virtuais e Tecnologia Assistiva (LAVITA) da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), começou a desenvolver em 2012 uma plataforma de prevenção e tratamento de quedas em idosos.
“A proposta veio de uma tese de mestrado de um de meus alunos”, diz Silva, em entrevista a Época NEGÓCIOS. “Naquela época, os médicos e fisioterapeutas faziam diagnósticos em plataformas estáticas. E daí pediam para o paciente se inclinar em diferentes ângulos: ele era o elemento de perturbação do equilíbrio. Mas na vida real não é assim, é o chão que cria o desequilíbrio. Então decidimos fazer o chão se mover.”
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Para isso, foi criada uma plataforma móvel com um sistema de rotaciona em diferentes ângulos e velocidades distintas, ao mesmo tempo em que o paciente recebe estímulos visuais, usando ferramentas de realidade virtual. “Dessa maneira, conseguimos ter respostas bem detalhadas e fazer um diagnóstico mais preciso”, diz o engenheiro.
Equilíbrio distante
Ao longo dos anos, diferentes equipes participaram do trabalho, agregando valor ao equipamento. Hoje, um dos parâmetros analisados é o centro de pressão (COP), que mostra como o corpo distribui o peso. O sistema também mede a velocidade de deslocamento, a distribuição da carga corporal, a ativação muscular (por meio da eletromiografia, ou EMG) e a atividade cerebral (pelo eletroencefalograma). “Conseguimos identificar, por exemplo, se a pessoa descarrega mais peso no lado direito do corpo do que no esquerdo. Isso pode indicar fraqueza muscular, alterações vestibulares ou compensações posturais importantes”, diz Silva.
Em um segundo momento, foram desenvolvidos jogos com ferramentas de realidade virtual, para criar uma imersão mais intensa. “Esses jogos ajudam a determinar as causas da falta de equilíbrio. É uma falha sináptica pela idade, uma sarcopenia, um problema no sistema de ajuste corporal antecipatório? Ou um conjunto dessas coisas?”, diz Silva.
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No jogo Waterfall, em que o paciente se vê navegando por um rio, a máquina capta o sinal cerebral pouco antes do barco chegar a uma queda d’água. “Daí calculamos quanto tempo demorou para o neurônio motor ser ativado, ou seja, o controle antecipatório. Na sequência, avaliamos o tempo de ativação compensatória dos músculos para garantir o equilíbrio. E com isso conseguimos definir métricas importantes.” Um dos diferenciais da tecnologia, segundo o professor, é a sincronização de todos esses dados em uma mesma linha temporal. “Outras plataformas podem coletar esses dados, mas não de forma sincronizada como a nossa”, afirma.
Em um de seus experimentos, a equipe de Silva decidiu testar a hipótese de que as mulheres idosas teriam menos equilíbrio que os homens. “Em uma análise preliminar, constatamos que esse desequilíbrio é causado por um prejuízo do sistema de ajuste postural antecipatório, um problema que tende a afetar mais as mulheres do que os homens”, afirma.
Pronto para o mercado
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Falta pouco para a plataforma desenvolvida na UMC chegar ao mercado. “No ano passado, surgiu a possibilidade de nós entrarmos no processo PIPE (Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas), da FAPESP. E aí conseguimos transformar esses estudos em um produto real, um protótipo, que depois foi aprimorado para uso comercial”, diz Silva. Esse processo foi realizado dentro da startup Kerygma Technology, que foi incubada dentro da universidade, tendo Alessandro como cofundador e CEO. Agora, a plataforma aguarda a aprovação do Inmetro e da Anvisa.
O produto será produzido sob demanda para cada cliente, em um prazo de 25 dias. Depois, poderá ser vendido ou alugado. “O cliente pode optar por ficar apenas com um relatório simplificado, que a própria plataforma gera, ou ter acesso a uma análise mais completa, realizada com o apoio de inteligência artificial”, afirma o professor.
O preço inicial para compra deve ficar entre R$ 180 mil e R$ 250 mil. “Uma plataforma similar nos Estados Unidos custa em torno de US$ 200 mil, mais de R$ 1 milhão. Então estamos cobrando um quarto do que eles cobram”, afirma Silva, avisando que a plataforma deve ser aperfeiçoada ao longo do tempo. “Agora estou trabalhando com a proposta de agentes de inteligência artificial que sejam capazes de analisar esses dados, avaliar a terapia em curso e buscar alternativas que atendam melhor o paciente, de maneira individual”, afirma.
O desenvolvimento, diz ele, deve ser contínuo. “Sempre me incomodou o abismo entre a academia e o mercado. E é isso que a gente quer mudar na Kerygma. Nosso maior desejo é gerar tecnologia para ajudar os brasileiros na prevenção e no cuidado com a queda”, diz o engenheiro.
Fonte: Época





