
Aos 20 anos, a pernambucana Janaína Almeida se casou com quem achava ser um companheiro para toda a vida. Pouco depois, vieram as agressões. “Sofri todo o tipo de violência”, lembra. “É humilhante. Você se sente ninguém. Se sente no lixo.”
Aos 43 anos, trabalha como representante de um aplicativo que alerta mulheres sobre a aproximação de agressores com medida protetiva.
“Eu levanto a bandeira contra a violência doméstica porque eu sei como as coisas acontecem. Dói bastante. Já senti isso”, diz. Na época, fugiu e deixou tudo para trás.
No ano passado, 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio —quatro por dia; 65% eram negras, e 62% foram mortas em casa. Para cada feminicídio, houve 501 ameaças e 182 agressões físicas registradas. Ou seja, em 2025, foram mais de 788 mil registros de ameaças e 286 mil de agressões físicas.
Foram registrados 231 estupros de mulheres por dia; 77% das vítimas tinham até 13 anos. Especialistas estimam que só uma parcela dos casos é registrada em boletins de ocorrência.
Os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública evidenciam a exposição das mulheres à violência.
A Folha ouviu 15 mulheres de diferentes origens, perfis e inclinações políticas para saber o que levam em consideração ao votar e qual país desejam. Seus retratos foram concebidos em fotos de múltipla exposição combinadas com imagem gerada por inteligência artificial a partir de informações sobre esses sonhos.
Os três primeiros capítulos da série Voto das Mulheres trataram da voz política e da representatividade das mulheres, do mercado de trabalho e da influência da fé. A segurança, assim como o medo e a coragem que as cercam, atravessou as entrevistas com todas elas.
Mãe de cinco filhos, Janaína é liderança na Assembleia de Deus que frequenta, em Olinda (PE). Transformou o medo em coragem para combater aquilo que a feriu. “Eu não tenho traumas”, afirma. “Não posso carregar essas dores”. Hoje ela é casada e vive uma relação que ressalta ser de amor recíproco.
Janaína votará em Flávio Bolsonaro (PL), embora diga ter mais entusiasmo pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe. Ela se identifica com o discurso focado na defesa da “pátria, da família e da fé”. Discorda, porém, de propostas da família, como a flexibilização de posse e porte de armas.
“Arma deveria estar na mão só de quem está preparado para usá-la. Não acredito que todo cidadão esteja pronto”, diz. Para ela, segurança feminina está acima de posições ideológicas. “Menos violência contra a mulher, menos feminicídio, é uma pauta de todas.”
Seu sonho é andar tranquilamente com os filhos “em um caminho iluminado, festivo, com girassóis”, suas flores favoritas.
Segundo a professora da UnB Flávia Biroli, mulheres tendem a confiar mais no Estado e a desconfiar de medidas baseadas apenas em punições mais severas.
“Homens morrem mais e matam mais que mulheres, mas são seus filhos e companheiros”, diz. “As pesquisas mostram que as mulheres têm uma expectativa diferente em relação ao Estado porque falam a partir deste lugar de perda. Para elas, o Estado é garantidor da creche, do transporte, da saúde e, portanto, a promessa de um Estado punitivista parece colar menos.”
Entre eleitoras, a rejeição a Flávio é maior que a de Lula (PT), mas seu desempenho tem melhorado. Ele cresceu seis pontos nas intenções de voto de mulheres entre agosto e 1º de outubro, segundo o Datafolha (de 29% para 35%). Lula subiu de 41% para 45%.
A segurança pública é tema prioritário e uma das áreas mais difíceis para Lula na tentativa de reeleição, embora boa parte seja da alçada dos estados. O combate ao crime organizado ganhou atenção após o governo Donald Trump classificar facções como terroristas, em sintonia com a família Bolsonaro.
Para mulheres, a violência opera em ambiente de machismo estrutural. Enquanto 54% dizem ter sofrido alguma violência prevista na Lei Maria da Penha, só 11% dos homens admitem ter agredido parceiras ou ex-parceiras, segundo pesquisa de julho dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva.
A mestre de obras mineira Cenir Aparecida da Silva, 58, mãe solo de quatro filhos, preferia deixá-los sozinhos, sob os cuidados da mais velha, a ter um homem em casa, por falta de creches.
“Não tenho medo de homem. Tenho medo do que eles são capazes de fazer com uma criança”, diz. Cenir cresceu em uma casa violenta e só adulta, após terapia, percebeu que fora violentada na infância. “Sem saber, eu protegia meus filhos do que aconteceu comigo.”
Ela diz ver nos Bolsonaro o reflexo de “todo tipo de machismo” que resulta em violências de gênero. Vai votar em Lula.
Outro levantamento, dos institutos Update e Fogo Cruzado, mostrou que 92% dos entrevistados reconhecem que mulheres estão mais expostas à violência. Na parte qualitativa, elas relatam viver em estado de alerta permanente.
A assistente social Patrícia Maria da Cruz Silva Oliveira, 44, de Recife, cria sozinha dois filhos. “Tenho medo de andar na rua. Evito.”
Viúva há nove anos, Patrícia passou a ser vista sob a ótica de que lhe faltava alguém. “Senti essa história do machismo, do patriarcado, de olharem para a mulher sempre a partir de um homem. Ouvi que eu era ‘a viúva do fulano’. Não! Este é meu estado civil. Eu sou a Patrícia”, explica.
Ficar solteira se tornou, para ela, ato político e de defesa. São 3,3 milhões de viúvas aptas a votar, contra 685 mil viúvos.
Patrícia votará em Lula pelos efeitos das políticas sociais dos governos petistas e pela aversão ao bolsonarismo. “É um lado violento que chega a ser assustador.”
Mesmo convicta, vê distância entre a política do governo e as necessidades das mulheres. “Está muito distante da realidade, do que assusta as mulheres, do que gostaríamos de ter assegurado, que é apenas segurança, inclusive para voltar para casa.”
Seu Brasil ideal é simples: “Ter tempo para mim e para os meus filhos, descansar, não ter medo de andar na rua. E viajar para um lugar onde não seja tão difícil sonhar”.
A pecuarista Antonia Scalzilli, 45, é separada e mãe de duas adolescentes em Bagé (RS). Tornou-se liderança nas discussões de segurança no campo após uma sequência de roubos de gado em suas terras, a partir de 2013.
Ela diz que o furto dos animais passou a envolver facções criminosas. “Quando eles se organizam para assaltar, levam dois caminhões de gado. A minha propriedade fica a 40 km da cidade, o tempo de resposta é muito longo.”
Antonia faz a ponte entre produtores e poder público e esteve à frente da implantação de delegacias especializadas em crimes rurais. Ainda que circule entre policiais, sente-se vulnerável. Sua preocupação aumentou ao perceber homens rondando sua casa.
“Sou uma mulher e estou no campo, longe da cidade, longe dos recursos. Se cortam a minha internet, não consigo nem pedir socorro”, diz.
Antonia está em dúvida sobre o voto. “Ainda não consegui me apaixonar por um projeto, mas o meu projeto é de centro-direita, é não permitir que venha mais um ano de PT.” Para ela, o agronegócio é demonizado pela esquerda, que ela diz apostar em assistencialismo e pautas ideológicas.
Se Flávio e Lula chegarem ao segundo turno, votará no candidato do PL.
Seu sonho é ter sucesso nos negócios, um pasto no pampa com muitos gados e voz para influenciar nas decisões políticas que a afetam.
Fonte: Folha de S. Paulo





