
A ameaça de doenças cardíacas — e de morte por elas — está aumentando entre as mulheres jovens.
Pesquisas recentes sugerem que quase um terço de todas as mulheres entre 20 e 44 anos terá alguma doença cardíaca em 2050, um aumento em relação ao um quarto atual. Além disso, mulheres com menos de 55 anos correm maior risco de morrer de ataque cardíaco do que homens da mesma faixa etária.
Apesar de equívocos comuns, “a doença cardíaca é, de fato, uma doença que afeta as mulheres”, afirma Emily Lau, codiretora do programa de saúde cardíaca feminina do Mass General Brigham, em Boston, nos Estados Unidos. No entanto, é possível reduzir esse risco.
Fique atenta aos fatores de risco tradicionais…
Uma das razões para o aumento de doenças cardíacas em mulheres mais jovens é que alguns dos fatores de risco determinantes — incluindo obesidade, pressão alta e diabetes — têm se tornado cada vez mais comuns em idades mais baixas.
Esses fatores se aplicam a todos, mas pesquisas mostram que alguns deles têm um impacto maior nas mulheres. Por exemplo, mulheres com diabetes apresentam um risco maior de desenvolver doenças cardíacas relacionadas à condição do que os homens; o tabagismo também aumenta mais o risco nas mulheres do que nos homens.
Mulheres jovens com pressão alta frequentemente não são diagnosticadas ou tratadas adequadamente. No entanto, o risco de doença cardíaca pode começar a aumentar com níveis de pressão arterial mais baixos nas mulheres do que nos homens, alerta Noel Bairey Merz, diretora do Barbra Streisand Women’s Heart Center, no Cedars-Sinai, em Los Angeles.
Exames de rotina para verificar a pressão arterial, o colesterol, o peso e a hemoglobina glicada (HbA1c — uma medida dos níveis médios de glicose no sangue — são importantes para avaliar o risco. Os médicos recomendam que todos os adultos busquem atingir as seguintes metas:
- Pressão arterial abaixo de 120 mmHg / 80 mmHg
- Lipoproteína de baixa densidade (LDL) abaixo de 100 mg/dL
- Índice de Massa Corporal (IMC) abaixo de 25
- Hemoglobina glicada (HbA1c) de 5,6% ou menos
— Conhecer seus indicadores de saúde é a sua ferramenta mais poderosa — diz Priya Freaney, diretora do programa de cuidados cardíacos femininos da Northwestern Medicine. — E nunca é cedo demais para começar.
Toda mulher deve trabalhar com seu médico “para levar os indicadores que estão fora da meta para a faixa ideal”, afirma Freaney. Isso deve incluir medidas relacionadas ao estilo de vida — adotar uma dieta mediterrânea ou do tipo DASH, não fumar, limitar o consumo de álcool e praticar exercícios tanto aeróbicos quanto de resistência —, bem como o uso de medicamentos, quando necessário.
Um aspecto positivo das diferenças nos efeitos dos fatores de risco entre os sexos é que essa dinâmica também funciona no sentido inverso, observa Freaney. Estudos demonstraram que as mulheres alcançam a mesma redução no risco cardiovascular e na mortalidade que os homens, praticando metade da quantidade de exercícios.
… e fique alerta também aos fatores não tradicionais
Há um reconhecimento crescente de que fatores específicos do sexo feminino também desempenham um papel importante. Entre eles estão a menopausa precoce (antes dos 40 anos) e a síndrome dos ovários policísticos (SOP). Incluem-se também complicações na gravidez, como diabetes gestacional e pré-eclâmpsia, além de doenças autoimunes inflamatórias, como lúpus e artrite reumatoide, que afetam as mulheres de forma desproporcional.
Cada um desses fatores está associado a um risco aumentado de doença cardíaca, embora a relação não seja necessariamente de causa e efeito, afirma Martha Gulati, diretora do Davis Women’s Heart Center, no Houston Methodist. Por exemplo, não está claro se a pressão alta durante a gravidez aumenta, por si só, o risco de doença cardíaca ou se ela apenas evidencia uma anomalia vascular preexistente, explica Gulati. De qualquer forma, ela pode indicar quais mulheres têm maior probabilidade de desenvolver doença cardíaca precoce.
Em pacientes com esses fatores de risco, diz Gulati, “adotamos uma abordagem muito agressiva” no controle da pressão arterial, da glicose e do colesterol.
Não negligencie a saúde do coração durante a idade fértil
Segundo pesquisas, mulheres na faixa dos 20, 30 e 40 anos têm menos probabilidade do que as mais velhas de contar com um profissional de saúde de referência para consultas de rotina, e muitas vezes deixam de buscar atendimento ou o adiam devido aos custos. Algumas recorrem principalmente a ginecologistas-obstetras para cuidados de atenção primária.
Os médicos recomendam encontrar um médico de atenção primária que possa avaliar a presença de doenças cardíacas ou fatores de risco associados durante essa fase da vida.
— Queremos pensar em como ajudar as mulheres a chegar à menopausa com a melhor saúde cardiometabólica possível — diz Lau, uma vez que o risco de doença cardíaca aumenta para as mulheres após esse período.
Converse com seu médico sobre outros exames
Além dos exames de sangue de rotina, os médicos apontam exames adicionais que podem ajudar a avaliar melhor o risco individual. Um deles é o escore de cálcio nas artérias coronárias (CAC), obtido por meio de uma tomografia computadorizada especializada do coração. A formação de obstruções que levam a ataques cardíacos “é um processo extremamente lento e silencioso”, afirma Freaney. O escore de CAC — que indica a presença e a extensão de placas calcificadas nas artérias coronárias — pode ajudar a identificar esse processo antes do surgimento de sintomas, permitindo que os médicos iniciem o tratamento e previnam ataques cardíacos.
As diretrizes também recomendam que todos os adultos verifiquem seus níveis de lipoproteína(a), um tipo específico de colesterol “ruim”, verificado uma única vez. O nível geralmente não muda ao longo da vida, mas a menopausa é uma exceção notável. Gulati avisa que mulheres com níveis limítrofes devem repetir o exame após a menopausa.
Gulati também sugere que as mulheres verifiquem os níveis de proteína C-reativa — um marcador de inflamação — por meio de um exame de sangue. Algumas pesquisas indicam que esse marcador pode prever o risco cardiovascular, embora as evidências ainda não sejam robustas o suficiente para recomendar o exame de forma ampla, observa Bairey Merz.
Fonte: O Globo





