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A idade que realmente importa

atividade física — Foto: Freepik

Conheço pessoas de 75 anos que caminham quilômetros, viajam, brincam com os netos, carregam as malas no aeroporto e sobem escadas sem pensar duas vezes. Também conheço pessoas de pouco mais de 50 que evitam qualquer esforço porque vivem cansadas, têm medo de cair ou já perderam boa parte da força física.

As primeiras parecem jovens. As outras envelheceram cedo. Não estou falando da aparência. Rugas, cabelos brancos ou alguns quilos a mais não definem juventude. Estou falando da capacidade do organismo responder aos desafios da vida. E é justamente isso que chamamos de idade funcional — ou, como prefiro dizer, a nossa idade real.

É possível ter exames praticamente normais e, ainda assim, apresentar um organismo envelhecido. Da mesma forma, uma pessoa de 70 anos pode ter uma capacidade física comparável à de alguém muito mais jovem.

A medicina do envelhecimento saudável começa justamente aí: avaliando não apenas a ausência de doença, mas a presença de função. Quando analisamos essa função, três capacidades se destacam pela enorme quantidade de evidências científicas acumuladas: capacidade cardiorrespiratória, força muscular e equilíbrio.

A primeira delas é medida pelo VO₂ máximo, que representa a quantidade de oxigênio que seu organismo consegue utilizar durante um esforço intenso. Traduzindo: mostra o quanto coração, pulmões, vasos sanguíneos e músculos conseguem trabalhar juntos de forma eficiente. Pode parecer apenas um número para atletas, mas não é. Hoje sabemos que ele talvez seja o melhor marcador isolado da capacidade funcional do organismo.

Num estudo feito com mais de 120 mil pessoas acompanhadas por anos, os indivíduos com maior capacidade cardiorrespiratória apresentaram um risco muito menor de morrer por qualquer causa. O mais interessante é que essa proteção apareceu mesmo entre pessoas com hipertensão, diabetes ou doenças cardiovasculares já instaladas.

O segundo pilar é a força muscular. Muita gente ainda associa musculação só à estética. É um enorme equívoco. Força significa independência. É ela que permite levantar da cadeira sem apoiar as mãos, subir escadas, carregar as compras do mercado, recuperar o equilíbrio após um tropeço e continuar vivendo sem depender de terceiros.

A força também conversa diretamente com a longevidade. O estudo PURE, realizado em 17 países e publicado na The Lancet, mostrou que uma simples medida de força de preensão das mãos prediz infarto, AVC e mortalidade de forma semelhante — ou até superior — a alguns fatores de risco tradicionais.

O terceiro é o equilíbrio. Quedas representam uma das principais causas de perda de autonomia entre idosos. Mas o equilíbrio não serve apenas para evitar acidentes. Ele reflete a integração entre cérebro, sistema nervoso, visão, ouvido interno e musculatura. Quando essa integração começa a falhar, normalmente o envelhecimento funcional já está avançando. Curioso estudo realizado por pesquisadores brasileiros e publicado no British Journal of Sports Medicine mostra que pessoas incapazes de permanecer apenas dez segundos apoiadas sobre uma única perna apresentavam risco significativamente maior de morrer na década seguinte.

O bom é que a idade funcional não é determinada apenas pelos genes. Ela responde rapidamente ao estilo de vida. Exercícios aeróbios aumentam o VO₂ máximo. O treinamento de força preserva músculos e ossos. Exercícios que desafiam a estabilidade melhoram o equilíbrio. Dormir bem, alimentar-se adequadamente e controlar o estresse potencializam esses efeitos.

Talvez a pergunta mais importante não seja “quantos anos você tem?”. A pergunta que interessa é: seu corpo funciona como o esperado para sua idade? Se quiser calcular sua idade real, www.marcioatalla.com.br

Fonte: O Globo