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A desonra inadmissível: violência contra o professor

Professora — Foto: Freepik

O quinto mandamento diz: honrarás teu pai e tua mãe. Deveria haver um adendo: e também teus mestres. Não há profissão mais importante e dedicada à infância.

No entanto, o oposto vem acontecendo nas escolas brasileiras. Não basta a falta de estrutura, currículos inchados, salários mirrados, sobrecarga, trabalho levado para casa, alunos com questões de comportamento e saúde mental; os professores agora têm que aguentar agressões. Violências que vêm de alunos, famílias, e das próprias políticas educacionais. E que me deixam profundamente indignado.

Uma professora da rede municipal de São José dos Campos quase engoliu um pedaço de vidro em seu copo d’água, diante de gracejos dos alunos. Michele Ramos registrou ocorrência e fez um sentido desabafo nas redes, visto mais de 700 mil vezes.

Ela não é exceção. Pesquisa do Centro do Professorado Paulista com 1.144 docentes revela que 65% já sofreram agressão na escola — verbal, psicológica, institucional ou física — e 74% não se sentem seguros em sala. Em estudo da OCDE com 280 mil professores de 55 países, o Brasil foi o pior: 47% dos nossos docentes apontam intimidação ou abuso verbal de alunos, contra média de 18%.

Uma nova forma de agressão vem surgindo: o teacher-baiting. Um grupo de alunos provoca e agride o professor enquanto outro filma escondido. Na edição, corta-se todo o desrespeito, e sobra a reação exasperada do docente, que circula nas redes como entretenimento ou denúncia, destruindo sua reputação e saúde. E isso ocorre mesmo após o banimento do celular.

E o que é mais triste: a agressão não vem só dos alunos, mas de quem deveria ensinar o respeito ao outro – as famílias. Em SP, uma professora com 26 anos de magistério foi ameaçada de morte pelo pai de um aluno, que a culpava pelas dificuldades do filho. Um policial levou colegas fardados e armados a uma escola de educação infantil porque a filha teve uma atividade sobre cultura afro-brasileira — conteúdo obrigatório por lei. Ele foi indiciado por intolerância religiosa.

Esse clima opressivo foi construído aos poucos por um projeto político da extrema direita. O movimento Escola sem Partido plantou a suspeita sistemática contra o educador; militantes do MBL intimidam alunos e professores; parlamentares extremistas repetem a lenda dos “professores doutrinadores”. Em vez de aliado na criação dos filhos, o professor vira suspeito a ser vigiado, filmado e denunciado, enquanto tenta fazer seu melhor com crianças que vêm de casa muitas vezes sem as regras essenciais de ética e convívio.

Enquanto isso, estados como São Paulo e Paraná adotam plataformas digitais, modelos cívico-militares e privatizações, levando à perda de autonomia, sobrecarga, adoecimento, insegurança funcional e enfraquecimento da gestão democrática da escola.

A conta chega: uma categoria 78% feminina adoecendo em massa. Só na rede estadual paulista foram 42 mil licenças por transtornos mentais em 2024 — 115 por dia. Ser professor não deveria significar adoecer.

A família pode discordar da escola, mas o caminho é o diálogo e a colaboração, jamais a ameaça ou o desrespeito. O professor é parceiro da família. É absolutamente imperioso que pais ensinem a importância de respeitar os mestres. A integração entre escola e comunidade também é fundamental.

Na esfera do poder público, é preciso valorizar os docentes: bons salários, carreira, turmas menores, menos sobrecarga, descanso e capacitação. Para responder à violência: notificação e monitoramento dos casos, programas de gestão de conflitos e cultura de paz. Punições exemplares devem ser aplicadas. E deve ser garantida a proteção jurídica, médica e financeira dos educadores. A educação brasileira só vai mudar se quem ensina for honrado, respeitado e valorizado.

Por Daniel Becker