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A vez dos 60+ na universidade: por que mais idosos buscam uma graduação? ‘Libertador’

Rosana Arguello, 67 anos, é estudante de psicologia.  Foto: Adriana Victorino/Estadão

Sonhos adiados, busca por realização pessoal, atualização profissional e uma vida mais estável têm levado um número crescente de brasileiros com mais de 60 anos às universidades. Em 2024, o País registrou 67.377 matrículas desse público em cursos de graduação, segundo dados do Censo da Educação Superior do Ministério da Educação (MEC). A alta é de 77% em relação a 2020.

Para Rosa Yuka Sato Chubaci, professora de Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP), o aumento da população idosa e a difusão do conceito de envelhecimento ativo ajudam a explicar a maior procura.

“Pesquisas verificaram que a principal maneira de você manter a saúde na velhice é ser ativo, tanto em atividades físicas, ou seja, biologicamente, como psicologicamente e emocionalmente”, explica.

É nesse contexto que histórias como a de Rosana Arguello, de 67 anos, se tornam cada vez mais frequentes. No primeiro dia de aula, Rosana sentiu-se “a pessoa mais importante do mundo”. Hoje, no último período de Psicologia, ela é uma dos três alunos 60+ da turma.

Ela havia iniciado uma faculdade quando jovem, mas interrompeu os estudos para trabalhar. Casou, teve filhos, mudou para São Paulo e dedicou anos à família. Foi apenas aos 62 anos que decidiu voltar às salas de aula. Antes disso, adiava o projeto por acreditar que já estava “velha demais”.

A mudança veio após ouvir a pergunta da própria terapeuta: “O que você vai fazer nos próximos cinco anos que impede você de entrar para a faculdade agora?”. Já aposentada e com condições de destinar parte da renda ao curso, fez a matrícula sem contar à família. Ao chegar em casa, anunciou: “vocês estão olhando para a mais nova universitária da família.”

Universidades buscam se adaptar

A presença desse público também exige que instituições e professores reconheçam experiências e necessidades diferentes. Abrir as portas não se resume a permitir a matrícula. É preciso criar condições para que esses estudantes participem plenamente da vida acadêmica.

Na Universidade de Brasília (UnB), por exemplo, pessoas com 60 anos ou mais podem ingressar na graduação por meio de processo seletivo específico. As vagas são extraordinárias, oferecidas voluntariamente pelas unidades acadêmicas e não reduzem aquelas destinadas aos demais vestibulares.

Segundo o decano de Ensino de Graduação da UnB, Tiago Coelho, a iniciativa busca ampliar o acesso, mas também promover a convivência entre gerações. “A universidade entende que a aprendizagem não tem idade. Quando jovens e pessoas idosas compartilham o mesmo espaço acadêmico, todos aprendem.”

Desde a primeira edição, em 2024, o processo tem registrado crescimento. O número de cursos participantes passou de 37 para 66 e as vagas aumentaram de 136 para 216. Nas cinco primeiras edições, mais de 700 estudantes ingressaram pela modalidade e cerca de 86% permanecem vinculados à universidade.

Apesar dos resultados, a adaptação ainda exige apoio. Segundo Coelho, os principais desafios envolvem a retomada dos hábitos de estudo após anos longe da sala de aula, o uso das plataformas digitais e, em alguns casos, situações pontuais de etarismo.

“Para reduzir as dificuldades, a UnB tem desenvolvido ações específicas para esse público. Entre elas, estão oficinas de acolhimento a cada semestre, bolsas de tutoria para estudantes 60+, grupos de apoio, disciplinas voltadas ao fortalecimento da leitura e produção de textos acadêmicos, além de campanhas permanentes de conscientização sobre o combate ao etarismo e valorização da convivência intergeracional”, explica.

Projetos visam a ampliar a porta de entrada

Programas voltados ao público mais velho também podem funcionar como porta de entrada. Rosa também é professora do USP 60+ e, segundo ela, o programa reúne entre 3,5 mil e 4 mil estudantes com mais de 60 anos no Estado de São Paulo. Na USP Leste, são cerca de 700 a 800 participantes em mais de 30 oficinas.

A experiência de Maria Vanilda Ferreira de Miranda, hoje com 76 anos, mostra como esse primeiro contato pode despertar a vontade de avançar. Maria estudou apenas até a 4ª série e retomou a formação aos 48 anos, quando fez o supletivo. Mais tarde, mudou-se para o interior e, incomodada com a rotina limitada aos cuidados da casa, conheceu o programa Universidade Aberta à Terceira Idade, da Unifunec, em Santa Fé do Sul (SP).

“Quando me mudei, queria ir embora. Eu pensava: ‘nossa, vou ficar aqui só varrendo folha na calçada? Porque o serviço que tinha era varrer folha e limpar a casa. Foi aí que conheci a Universidade Aberta Terceira Idade”, contou.

A Unati é um programa gratuito de extensão voltado a pessoas com 60 anos ou mais que oferece atividades voltadas à promoção da saúde física e mental, ao aprendizado e à integração social. Em algumas instituições, também permite que os participantes acompanhem disciplinas da graduação como alunos ouvintes.

Maria, porém, não se satisfez em acompanhar as aulas apenas como ouvinte. Queria ser aluna como os demais e conquistar o diploma. Foi por meio do programa que se aproximou do curso de Direito. Aos 56 anos fez a matrícula e se formou aos 61, em 2011.

A busca por emprego havia motivado sua volta inicial aos estudos, mas o aprendizado ganhou, ao longo do caminho, significado próprio. “Não era tanto para trabalhar, mas sim para ter conhecimento e crescimento pessoal, cultural. Queria aprender mais”, conta Vanilda.

Volta aos estudos reúne diferentes objetivos

Marília Berzins, especialista em gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia do Estado de São Paulo, identifica diferentes motivações entre esses estudantes.

“Acontecem muitas coisas durante o envelhecimento, desde incapacidade até a redescoberta e a possibilidade de novos propósitos na vida. Ao envelhecerem, ao estarem numa situação de vida diferente, com tempo livre, vão em busca de um sonho que não foi alcançado”, explica.

Entre as motivações, estão realizar um desejo que não pôde ser concretizado antes, quando o acesso à educação era mais limitado, ou as necessidades da família e do trabalho ocupavam o primeiro plano.

Há também quem permaneça no mercado e procure qualificação para prolongar a vida profissional. Outro grupo escolhe uma área diferente daquela em que trabalhou, em busca de satisfação pessoal.

Rosana, por exemplo, começou a se movimentar em um período de transição pessoal.

“Os filhos crescem, começam a sair de casa, e o papel de mãe fica obsoleto”, conta. “Nunca tive estímulo para fazer as coisas, me sentia dependente financeiramente e achava que não ia conseguir”, prossegue Rosana.

A autonomia financeira conquistada e a aposentadoria permitiram que tomasse a decisão sem depender dos outros. A faculdade melhorou sua autoestima e abriu novas possibilidades.

“Foi libertador. A hora que cheguei na sala de aula, me senti a pessoa mais importante. Pensei: ‘não acredito, eu estou aqui e vou até o final’. Estou muito feliz coma minha decisão de voltar a estudar. Durante muito tempo eu fui guiada, tomando decisões com base no que os outros queriam, mas eu tenho que atender às minhas próprias demandas. E foi isso que me guiou e que eu estou conseguindo cumprir”, contou.

Conquista ainda enfrenta barreiras

O ingresso de estudantes idosos, porém, não elimina o preconceito etário. Rosana conta que, durante um evento, uma professora dirigiu-se aos alunos dizendo que, por serem jovens, teriam muito tempo para fazer uma pós-graduação.

“Era como se eu não estivesse ali. A gente sabe que existe um etarismo estrutual, todo mundo acha que velho não pode mais fazer nada”, contou.

Para Marília, a troca entre gerações é um dos aspectos mais importantes dessa presença na universidade. Embora os idosos ainda representem uma parcela pequena dos estudantes, a convivência com os mais jovens ajuda a romper a ideia de que a velhice corresponde ao fim da vida social, afetiva ou produtiva.

“Eles estão dialogando com as pessoas que são mais novas, dizendo: ‘olha, na velhice eu posso estudar, namorar, casar, eu posso construir uma outra relação com a vida, comigo, e com os outros’”.

Apesar do episódio isolado, Rosana conta que sempre teve apoio dos colegas. “Eu tenho amigas de 50 anos e de 22. Ela não me vê como velha e eu a vejo como muito competente apesar da pouca idade”, disse.

Maria também conta que preservou amizades feitas durante a graduação, inclusive com colegas bem mais novas, e também recorda a admiração demonstrada por professores e alunos. Para ela, o retorno aos estudos significa conhecimento, convivência e saída do isolamento. “É importante sair do isolamento porque nós idosas somos isoladas. O estudo te abre portas, te abre horizontes. Mesmo que você não trabalhe, você vê a vida de outra forma.”

Maria Vanilda Ferreira de Miranda, 76 anos, concluiu o curso de Direito aos 61.
Maria Vanilda Ferreira de Miranda, 76 anos, concluiu o curso de Direito aos 61. Foto: Arquivo pessoal

Benefícios cognitivos

Além dos ganhos sociais e emocionais, Marília afirma que estudar pode funcionar como “um escudo para o cérebro”, ao fortalecer a reserva cognitiva.

“Favorece a independência e autonomia, que são duas palavras estruturantes no envelhecimento. A autonomia é a capacidade de decisão do sujeito em relação à sua vida. E a independência é este fato de ele ir, vir e, fazer o que quiser como ir para uma universidade ou fazer a distância, porque aliás, a maioria dos nossos idosos que estão em cursos superiores são EAD”, explica.

Os dados mostram que mais de dois terços das matrículas de pessoas com 60 anos ou mais estavam no EAD. Segundo o Censo da Educação Superior, dos mais de 67 mil matriculados em cursos superior com mais de 60 anos, 46.482 estão na educação a distância, modalidade que exige maior autonomia e organização dos estudantes.

Para Marília, isso não acontece por acaso. A modalidade permite que os alunos organizem os próprios horários, avancem no ritmo que considerarem adequado e tenham acesso a cursos disponíveis em diferentes regiões do País. “A gente pode chamar isso de autonomia”, afirma. Ela destaca ainda que o EAD incentiva a inclusão digital.

“É uma forma legal de ter contato com o mundo digital que ele não tinha tanto acesso no passado. Isso traz um desafio de aprendizado e de troca mesmo com essas novas possibilidades”, explica.

Continuidade dos estudos

Hoje, além de estar perto da formatura, Rosana já deu palestras sobre dependência de álcool e foi convidada a falar para adolescentes. As colegas dizem que ela é um exemplo, mas ela prefere entender a conquista como uma batalha pessoal. “Eu sou exemplo para mim mesma”.

A estudante também não pretende encerrar sua formação ao concluir a graduação. Seu trabalho de conclusão de curso aborda a psicanálise como ferramenta de desenvolvimento de mulheres maduras. No próximo ano, pretende fazer uma pós-graduação em Psicologia Humanista Existencial.

Fonte: Estadão