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Até quando uma pessoa idosa pode dirigir um automóvel com segurança?

A definição de quando parar de dirigir não depende da idade cronológica Foto: And.one/Adobe Stock

Minha avó e eu envelhecemos juntos. Quando eu era criança, era ela quem ocupava o banco do motorista, me levando ao cinema, ao zoológico e aos passeios de fim de semana.

O tempo passou e, aos poucos, a dinâmica começou a mudar. Alguns pequenos acidentes — felizmente sem gravidade, apenas alguns amassados e um vidro traseiro quebrado — somados ao impacto da pandemia fizeram com que ela tomasse uma decisão difícil: entregar o carro para mim e passar a se locomover utilizando carros por aplicativo.

A escolha da minha avó leva a uma pergunta inevitável: até quando uma pessoa idosa pode dirigir um automóvel com segurança?

Como tudo na geriatria e gerontologia, a resposta não depende da idade cronológica. Dirigir é uma atividade complexa. Exige atenção sustentada, memória, julgamento, velocidade de processamento, visão, audição, força muscular, mobilidade e capacidade de tomar decisões.

No caso da minha avó, foram principalmente a perda progressiva da visão, causada por uma degeneração de retina, e a diminuição da força muscular que colocaram um freio em sua permanência ao volante. Felizmente, essa decisão aconteceu antes que um acidente grave ocorresse.

Essa prevenção faz diferença. Embora pessoas idosas geralmente adotem um comportamento mais prudente no trânsito, como evitar grandes avenidas, apresentam um risco aumentado de se envolverem em acidentes e, quando os mesmos ocorrem, o risco de sofrerem lesões graves é maior.

Mas talvez o maior desafio dessa discussão seja outro: como equilibrar segurança e autonomia?

Retirar as chaves de alguém nunca significa apenas impedir que dirija. Muitas vezes representa limitar sua liberdade, reduzir sua participação social, dificultar consultas médicas, encontros familiares, atividades de lazer e até aumentar o risco de isolamento e depressão. O automóvel, para muitas pessoas idosas, simboliza independência.

Por isso, não podemos cair em dois extremos igualmente perigosos. O primeiro é impedir precocemente alguém de dirigir apenas porque envelheceu. O segundo é ignorar e negligenciar sinais evidentes de insegurança por receio de gerar conflitos familiares.

Esse equilíbrio torna-se ainda mais delicado quando falamos das demências. No Brasil, estima-se que cerca de 80% dos casos permaneçam sem diagnóstico. Em outras palavras, muitas pessoas podem estar vivendo com doença de Alzheimer em fase inicial sem que elas próprias ou seus familiares percebam.

Nas fases leves da demência, dirigir ainda pode ser possível para algumas pessoas, desde que haja avaliação criteriosa. No entanto, a pergunta deixa de ser “se” essa pessoa deixará de dirigir e passa a ser “quando” isso precisará acontecer. Trata-se de um processo inevitável da evolução da doença, que exige planejamento e acompanhamento.

Nesse cenário, a avaliação periódica realizada pelo Detran, embora importante, nem sempre é suficiente para identificar alterações sutis de cognição, percepção ou julgamento. Em muitos casos, uma avaliação multidisciplinar é capaz de oferecer uma visão mais completa da capacidade funcional para dirigir.

Além disso, familiares e profissionais de saúde devem estar atentos a alguns sinais de alerta:

  • perder-se em trajetos conhecidos;
  • dificuldade para interpretar placas e sinais de trânsito;
  • mudanças importantes no padrão de condução;
  • envolvimento em colisões ou pequenos acidentes repetidos;
  • aumento recente no número de multas;
  • relatos de insegurança feitos por passageiros;
  • erros observados por terceiros.

Talvez o aspecto mais importante seja compreender que deixar de dirigir não precisa acontecer de forma abrupta. Sempre que possível, vale discutir uma redução gradual da direção, evitar trajetos mais complexos ou noturnos, reavaliar periodicamente a capacidade de dirigir e, sobretudo, construir alternativas antes que a interrupção definitiva seja necessária.

Isso inclui organizar uma rede de apoio familiar, oferecer caronas, facilitar o acesso ao transporte público quando possível e incorporar táxis e aplicativos de transporte como aliados da autonomia — e não como símbolos de perda.

Minha avó fez exatamente isso. Hoje utiliza carros por aplicativo e táxis com naturalidade e mantém sua rotina com independência. O carro saiu da garagem, mas sua liberdade permaneceu.

Talvez essa seja a verdadeira lição. O que precisamos preservar é algo muito maior: a possibilidade de continuar vivendo com autonomia, segurança e dignidade. Porque, às vezes, entregar as chaves não significa perder a liberdade. Significa apenas encontrar um novo caminho para continuar seguindo em frente.

Fonte: Estadão –  Milton Crenitte – Médico geriatra, doutor em ciências pela Universidade de São Paulo (USP) e consultor em longevidade