
Sete dos dez Estados mais violentos estão localizados no Nordeste; outros três ficam na Região Norte. Nessas unidades, as disputas entre facções criminosas, avanço das rotas do tráfico e, em alguns casos, a letalidade policial sustentam índices que estão acima da média nacional.
A conclusão está na 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgada nesta quinta-feira, 23, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
No topo do ranking estadual aparece o Amapá, com taxa de 42,5 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes. Em seguida vêm:
- Bahia (36,8);
- Ceará (34,7);
- Alagoas (33,1);
- Pernambuco (33);
- Maranhão (29,7);
- Rio Grande do Norte (29,1);
- Pará (28,4);
- Rondônia (28,1);
- Paraíba (24,6).
As mortes violentas intencionais (MVI) reúnem homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenção policial, em serviço e fora dele.
O Nordeste fechou 2025 com taxa média de 31,6 mortes por 100 mil habitantes, bem acima da média nacional (19,1 vítimas). O Norte aparece em seguida (25,3); Centro-Oeste (17,3), Sudeste (12,6) e Sul (11,9) vêm depois.
Para os especialistas do Fórum, esse desenho reflete, entre outros fatores, a expansão territorial das organizações criminosas, que disputam rotas do tráfico, mercados ilegais e áreas estratégicas para suas operações.
Facções nacionais x grupos locais
No Amapá, essa dinâmica é mais específica. A fronteira com a Guiana Francesa, a rede de rios e a dificuldade de fiscalização transformaram o Estado em corredor para o tráfico internacional de drogas e armas. A disputa entre facções nacionais e grupos locais pelo controle desses caminhos se soma a uma das maiores taxas de letalidade policial do País.
Na Bahia, a violência avança pelo interior. O Estado reúne cinco das dez cidades mais violentas do Brasil e viu os confrontos entre facções ultrapassarem a Região Metropolitana de Salvador. A elevada letalidade policial, a baixa capacidade de elucidação de homicídios e as desigualdades sociais ajudam a manter o cenário de alta violência.
Um dos episódios que exemplifica a violência no Estado aconteceu em março de 2025, com repercussão nacional. Uma operação da Polícia Militar no bairro de Fazenda Coutos, na região periférica de Salvador, terminou com 12 suspeitos mortos. Segundo a Secretaria de Segurança Pública da Bahia, a ação ocorreu após a invasão do bairro por uma facção rival. A operação reacendeu o debate sobre a elevada letalidade policial no Estado. O governo da Bahia afirma as ocorrências de mortes por intervenção legal de agentes do Estado apresentam redução de 12%, em 2026. E que o policiamento orientado pela inteligência fechou o cerco contra as facções nos últimos anos, reduzindo as mortes violentas (leia mais abaixo).
O Ceará completa o grupo dos três primeiros colocados. Ali, o controle de territórios urbanos e das rotas marítimas do tráfico alimenta conflitos constantes entre organizações criminosas. Boa parte dos indicadores é puxada por municípios da Região Metropolitana de Fortaleza, onde os confrontos permanecem frequentes.
O avanço das facções foi além da disputa pelo tráfico. No ano passado, uma série de ataques contra provedores de internet na Região Metropolitana de Fortaleza revelou a tentativa de organizações criminosas de controlar também a oferta de serviços essenciais. Os métodos usados eram a extorsão e destruição da infraestrutura das empresas.
Piora no Rio Grande do Norte
O Rio Grande do Norte foi um dos poucos Estados que pioraram de forma expressiva. A taxa de MVI aumentou 19,6%, impulsionada pelo crescimento dos homicídios dolosos, que passaram de 655 para 843 vítimas em um ano.
“O que está acontecendo ali, como em vários outros Estados, tem a ver com o crime organizado. Lá é o PCC com o que eles chamam de SDC, o Sindicato do Crime. Isso tem gerado muitas disputas e muitas mortes”, afirma Samira Bueno, diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Em Rondônia, a alta foi influenciada por outro fator: o aumento das mortes decorrentes de intervenção policial. O número de casos saltou de oito para 47 entre 2024 e 2025. Embora representem menos de 10% das MVI do Estado, essas ocorrências foram suficientes para alterar a tendência dos indicadores.
Impacto da operação mais letal da história
Fora do grupo dos dez mais violentos, o Rio de Janeiro aparece como um retrato do peso da letalidade policial nas estatísticas. Em 2025, uma em cada cinco mortes violentas intencionais registradas no Estado foi provocada por agentes de segurança.
O principal episódio ocorreu em outubro, durante a Operação Contenção, nos complexos do Alemão e da Penha, que terminou com 122 mortos — 117 civis e cinco policiais — e entrou para a história como a operação policial mais letal já realizada no Estado.
O que diz o Estado da Bahia?
A Secretaria da Segurança da Bahia afirma que, com mais de 500 operações deflagradas pelas forças policiais, os assassinatos apresentaram diminuição de 20% no 1º semestre deste ano. Houve também, segundo a pasta, aumento nas prisões (10%) e nas apreensões de armas de fogo (5%). A secretaria ressalta ainda que as ocorrências de mortes por intervenção legal de agentes do Estado apresentam redução de 12%, em 2026.
Na região de Porto Seguro e Eunápolis, a secretaria destaca as criações do Comando de Policiamento da Região Extremo Sul da PM, da Diretoria Regional da Polícia Civil, além de uma Base de Inteligência que integra Forças Estaduais e Federais.
Salienta também o investimento de R$ 1,3 bilhão em estruturas, viaturas, armamentos e equipamentos de inteligência, além da contratação de 11 mil novos policiais, peritos e bombeiros.
Fonte: Estadão





