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Menos trabalhadores, mais idosos: pressão nas contas públicas aumenta com o fim do bônus demográfico

O Brasil não aproveitou plenamente os anos de bônus para crescer mais; a partir de agora, precisará aprender a crescer melhor, com menos gente em idade de trabalhar Foto: Marcos de Paula/Estadão

Algumas transformações avançam de forma lenta e silenciosa, mas têm consequências econômicas profundas, como a mudança demográfica em curso no Brasil. O bônus demográfico é o período em que aumenta a proporção da população em idade potencialmente ativa (convencionalmente entre 15 e 64 anos) em relação à população total, reduzindo a razão de dependência. Pelas atuais projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse bônus ficou para trás na segunda metade da década passada, por volta de 2017.

Há, porém, um marco ainda mais duro pela frente: o momento em que a população de 15 a 64 anos deixará de crescer também em termos absolutos e começará a diminuir, o que deverá ocorrer em meados da próxima década. A partir daí, o País não contará apenas com uma proporção menor de pessoas em idade de trabalhar, mas com um contingente potencial de trabalhadores efetivamente em retração.

O Brasil utilizou a maior parte de seu dividendo demográfico para ampliar o número de pessoas trabalhando, mas não para elevar suficientemente o produto por trabalhador. Agora, a oferta de mão de obra desacelera, enquanto cresce rapidamente a população que depende de transferências previdenciárias e de serviços públicos.

Segundo o Observatório da Produtividade da Fundação Getulio Vargas (FGV-Ibre), a produtividade por hora trabalhada cresceu apenas 0,3% ao ano entre 2010 e 2024. E esse quadro não mudou entre 2021 e 2025. O crescimento médio do Produto Interno Bruto (PIB) de 3,34% no período veio sobretudo do maior uso da mão de obra, não de ganhos de eficiência.

Diante dessa mudança demográfica, elevar a produtividade deixa de ser apenas desejável e passa a ser condição para sustentar o crescimento econômico. Não existe, porém, uma medida isolada capaz de fazer isso.

A agenda envolve melhorar a educação básica e a formação profissional, qualificar os investimentos em infraestrutura, reduzir a complexidade regulatória e os custos de fazer negócios, aumentar a concorrência e a integração da economia ao comércio internacional, além de criar melhores condições para investimento, inovação e difusão de tecnologias. São reformas de efeitos lentos, mas o envelhecimento da população eleva o custo de adiá-las.

A demografia exigirá novas adaptações da Previdência, entre elas a incorporação gradual da expectativa de sobrevida aos parâmetros de aposentadoria, reduzindo a necessidade de reformas traumáticas. A reforma de 2019 ganhou tempo, mas não eliminou o problema: com menos trabalhadores e mais idosos, a pressão sobre as contas públicas se intensificará.

O Brasil não aproveitou plenamente os anos de bônus para crescer mais; a partir de agora, precisará aprender a crescer melhor, com menos gente em idade de trabalhar.

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Por Claudio Adilson Gonçalez – Economista e diretor-presidente da Vértice Macroeconomia, foi cofundador da MCM Consultores, consultor do Banco Mundial, subsecretário do Tesouro Nacional e chefe da Assessoria Econômica do Ministério da Fazenda