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Idade pesa no bolso? Entenda por que alimentação e saúde consomem mais da renda dos idosos

O aposentado Romildo Sabino ainda trabalha para complementar a renda — Foto: Gabriel de Paiva/Agência O Globo

Aos 74 anos, Romildo Sabino decidiu voltar ao mercado de trabalho para complementar a aposentadoria. O vigilante viu a alimentação consumir cada vez mais da sua renda, até se tornar a principal despesa do lar que divide com a mulher: passou de cerca de 30% para 60% do orçamento doméstico.

Mas isso não aconteceu porque ele passou a colocar mais itens em seu carrinho no supermercado. Houve uma mudança na composição de suas compras, relacionada ao envelhecimento, que passou a pesar mais no bolso.

Além da alimentação saudável, eternamente preconizada para a longevidade, os últimos anos foram marcados pelo aumento exponencial na prescrição e na oferta de produtos alimentícios com propriedades especiais e suplementos voltados para a qualidade de vida dos que têm mais de 60 anos.

A idade também aumenta o consumo de medicamentos e serviços relacionados à saúde, à mobilidade e à casa, justamente quando esses consumidores deixam o mercado de trabalho e passam a depender de uma renda que cresce menos que a dos que se mantêm na ativa.

Produtos mais caros

Com o rápido processo de envelhecimento da população em curso no Brasil, essa fatia de consumidores desperta cada vez mais o interesse das empresas. Mas boa parte dos produtos e serviços oferecidos nesse nicho de mercado tem custo elevado, sobe acima da inflação e é mais difícil de ser substituída, tornando os idosos e suas famílias mais sensíveis aos preços.

Despesas com alimentação, habitação e saúde são as de maior impacto no orçamento dos mais velhos, como mostra o IPC-3i, índice de inflação do FGV Ibre voltado para famílias compostas majoritariamente por pessoas com mais de 60 anos. Dependendo da composição da cesta de compras, o consumidor mais velho pode nem sentir um eventual alívio nos preços.

Em junho, por exemplo, a alimentação teve queda de 0,24% no IPCA, índice oficial de inflação no país. Já no IPC-3i, o mesmo grupo de produtos subiu 0,56%. No acumulado em 12 meses, os preços de itens alimentícios cresceram 4,81% para a terceira idade. O avanço do IPCA foi mais modesto: 3,82%.

— Alimentos para proteção da saúde, como laticínios, de um modo geral, que combatem a osteoporose, alimentos in natura, como frutas e verduras, são muito demandados (pelos idosos), então têm um peso maior — explica André Braz, coordenador dos Índices de Preços do FGV Ibre.

O economista da FGV André Braz — Foto: Bernardo Moura
O economista da FGV André Braz — Foto: Bernardo Moura

Mais gastos em casa

Outros exemplos de despesas que pesam mais no orçamento dos 60+ são plano de saúde, medicamentos, empregados domésticos e serviços como táxi e carro por aplicativo. Consumo de gás e energia tendem a pesar mais com a troca da rotina no trabalho por mais tempo em casa, com o uso mais intensivo de eletrodomésticos, do fogão ao ar-condicionado.

Não é incomum que, com mais desses itens na cesta de consumo média da terceira idade, o IPC-3i como um todo seja mais alto que o IPCA, indicando um peso maior da inflação para esse grupo. Em junho, por exemplo, o IPC-3i cheio foi de 0,38%, ante alta de 0,16% no IPCA.

— Toda aposentadoria do INSS acima do mínimo é corrigida só pela inflação passada. E a gente sabe que as principais despesas do idoso sobem mais do que a inflação passada. Então ele acaba vendo a inflação gradualmente comer seu poder aquisitivo — avalia Braz.

Em compensação, nessa faixa etária há um peso menor de gastos com transporte público (em razão da gratuidade), lazer e educação. Isso ajuda a explicar o motivo de, em 12 meses, o IPCA acumular alta um pouco maior, de 4,64%, enquanto o IPC-3i sobe 4,45%.

Especialistas ponderam que os índices ainda não capturam todas as despesas que cresceram com a aceleração do envelhecimento da população nos últimos anos, como os serviços de cuidadores e outras atividades voltadas a esse segmento, cujo peso na cesta de consumo considerada nas sondagens nem sempre acompanha a velocidade das mudanças nos lares.

Creatina e academia

Romildo conta que o cardápio mudou com a idade. Ele passou a frequentar a feira livre na Tijuca, na Zona Norte do Rio, para comprar mais frutas, legumes e alimentos ricos em proteína para manter uma rotina saudável e preservar a qualidade de vida.

Romildo Sabino, de 74 anos, frequenta mais a feira na Tijuca, na Zona Norte do Rio, para comprar frutas, legumes e carne com mais qualidade e preços mais baixos — Foto: Gabriel Paiva
Romildo Sabino, de 74 anos, frequenta mais a feira na Tijuca, na Zona Norte do Rio, para comprar frutas, legumes e carne com mais qualidade e preços mais baixos — Foto: Gabriel Paiva

Ele incorporou ao orçamento o gasto com creatina, incluída em sua lista mensal por recomendação médica para ajudar a combater a perda de massa muscular, comum no envelhecimento. E ainda paga pelos serviços de uma academia para se exercitar.

— Nunca imaginei que teria que gastar com creatina e academia quando ficasse mais velho — afirma Romildo.

‘A conta não fecha’

Foi essa mordida cada vez maior no orçamento que também levou a aposentada Rute Moreira, de 76 anos, a voltar a trabalhar. Vende doces e bolos para complementar a renda, mas muitas vezes precisa de ajuda dos filhos para fechar as contas. Rute também reorganizou alguns dos principais gastos. Trocou de plano de saúde porque a mensalidade do anterior levava parcela alta de sua aposentadoria.

— A gente se aposenta achando que vai descansar, passear e poder aproveitar os netos, mas não dá. A conta não fecha — desabafa.

Rute Moreira, de 76 anos, ainda trabalha para fazer renda extra e complementar a aposentadoria — Foto: Acervo pessoal
Rute Moreira, de 76 anos, ainda trabalha para fazer renda extra e complementar a aposentadoria — Foto: Acervo pessoal

A saúde é mesmo uma área do consumo cuja alta do custo é praticamente inevitável para quem vive mais. O estudo Economia Prateada no Brasil, da consultoria Data8, mostrou que, em 2024, mais de um terço (35%) do consumo de produtos e serviços de saúde no país veio de pessoas com 50 anos ou mais. Até 2034, essa proporção deve subir para 43%.

Na cesta de consumo dos que têm menos de 50, assistência à saúde soma 8%. O percentual sobe conforme a idade avança: entre 60 e 64 anos, responde por 14% do orçamento; de 70 a 74, por 18%; e acima dos 80, chega a 21%, mais de um quinto dos gastos, em média.

— O ponto central é que muitos desses gastos não são escolhas de consumo. São condições básicas para envelhecer com qualidade de vida, autonomia e dignidade — diz Layla Vallias, cofundadora do Data8 e uma das coordenadoras da pesquisa.

Impacto em toda a família

Maristela da Mota, de 63 anos, sentiu a diferença no orçamento quando, há dois anos, passou a cuidar da mãe, Maria da Glória, de 92 anos, que tem Alzheimer. A família paga R$ 1.800 por mês a uma cuidadora, além de reservar R$ 1.200 para os medicamentos específicos de uso contínuo da idosa, que não tem plano de saúde. Consultas particulares a uma geriatra ainda consomem R$ 450 a cada quatro meses, sem falar em exames.

— Estabelecemos que a cuidadora só vem duas vezes por semana justamente como forma de conter gastos — conta Maristela, evidenciando o trabalho não remunerado dos próprios familiares neste tipo de cuidado, cada vez mais comum nos lares brasileiros com a mudança acelerada da pirâmide etária no Brasil.

Fonte: O Globo