Pular para o conteúdo

Como lidar com a sobrecarga digital à medida que envelhecemos? Especialista de Harvard dá dicas

Idosos enfrentam sobrecarga digital em meio à evolução tecnológica Foto: fizkes/Adobe Stock

Lidar com o fluxo constante de tecnologias digitais da atualidade — de aplicativos, mensagens de texto e e-mails a portais de pacientes, redes sociais e chamadas de vídeo — pode ser estressante em qualquer idade. Mas muitos idosos, em especial, sentem que não conseguem acompanhar esse ritmo. Eles enfrentam a sobrecarga digital: um estado de exaustão e confusão provocado pelo fluxo contínuo de informações, alertas, senhas e tarefas relacionadas ao uso de dispositivos digitais.

Além disso, as mudanças associadas ao envelhecimento podem fazer com que a sobrecarga digital — e a carga cognitiva resultante dela — pareça ainda maior, afirma Suzanne Salamon, chefe clínica de geriatria do Beth Israel Deaconess Medical Center, afiliado à Universidade Harvard.

“Parte da questão é que as pessoas mais velhas não cresceram com a tecnologia”, diz Suzanne. “Mas elas também acham que tudo isso é simplesmente avassalador.”

Mudanças no cérebro e tecnologia digital

Lidar com uma tecnologia em constante evolução pode ser desgastante até para as mentes mais aguçadas. As mudanças cerebrais relacionadas ao envelhecimento tornam esse desafio ainda maior.

Testes realizados com idosos saudáveis indicam que eles conseguem aprender coisas novas com a mesma eficácia que os mais jovens, “mas simplesmente levam mais tempo”, afirma Suzanne. Também fica mais difícil filtrar distrações, que são constantes durante o uso de telas.

“Todo mundo reclama, quando envelhece, de esquecer nomes ou de onde colocou as chaves ou os óculos”, diz Suzanne. “Mas também fica mais difícil realizar várias tarefas ao mesmo tempo, e a tecnologia exige muito desse tipo de habilidade.”

Essas mudanças normais não são necessariamente um sinal de declínio cognitivo ou de doença, mas afetam a capacidade de lidar com as exigências da tecnologia. Fatores físicos também contribuem, como alterações na visão, dificuldades auditivas ou redução da destreza manual.

“É preciso enxergar bem para conseguir ver a tela de um notebook ou de um celular, e depois ainda é necessário digitar em uma tela pequena”, afirma Suzanne. “Para muitas pessoas com tremores ou artrite, simplesmente apertar os botões é difícil.”

Tempo de tela, sono e saúde mental

Por outro lado, algumas pessoas passam tempo demais em seus dispositivos, muitas vezes para compensar a sensação de solidão, observa Suzanne. Quanto tempo de tela é demais para idosos? Não existe um limite universalmente aceito, diz ela, mas os sinais de alerta aparecem quando o tempo diante das telas começa a substituir o sono, a prática de exercícios ou os relacionamentos.

“O problema é que você pode passar tempo demais na frente do computador, deixar de se exercitar, e a exposição à luz azul pode mantê-lo acordado à noite”, descreve Suzanne. “Também podem surgir problemas musculares, como dores nos ombros e no pescoço, além de fadiga ocular.”

Outros sinais de que o tempo de tela pode estar causando problemas incluem:

  • dificuldade de concentração;
  • sensação de não ter descansado;
  • aumento da ansiedade ou da irritabilidade;
  • dores de cabeça mais frequentes;
  • lapsos de memória relacionados à distração.

Segundo Suzanne, não é preciso desenvolver um vício em tecnologia para que esses problemas apareçam. E, embora não haja evidências robustas de que quantidades médias de tempo de tela prejudiquem o cérebro de adultos saudáveis, o uso frequente de dispositivos pode reforçar maus hábitos — como a necessidade de estimulação constante — ou agravar uma capacidade de atenção já reduzida.

Como se adaptar às demandas digitais

Se você se sente sobrecarregado pela tecnologia, Suzanne recomenda algumas medidas para combater a sobrecarga digital:

  • anote o passo a passo para acessar diferentes portais ou sites. “Não deixe nada ao acaso”, diz ela;
  • crie lembretes ou ‘colas’ para suas senhas;
  • limite o número de aplicativos e plataformas que você utiliza;
  • cancele a assinatura de e-mails desnecessários;
  • desative notificações que não sejam essenciais.

Como reduzir o tempo de tela

Suzanne, chefe clínica de geriatria do Beth Israel Deaconess Medical Center, recomenda interromper longos períodos diante das telas levantando-se para caminhar durante 10 minutos a cada hora.

Se o seu objetivo for reduzir o tempo total de tela, você também pode:

  • definir um cronômetro para limitar o tempo gasto em atividades que costumam consumir muitas horas, como jogos online ou redes sociais;
  • evitar usar dispositivos para atividades que podem ser feitas igualmente bem sem eles, como ler um livro, escrever em um diário ou fazer uma lista de compras;
  • estabelecer horários específicos para checar e-mails ou acompanhar as notícias.

Fonte: Estadão